O Intercidades com partida de Lisboa-Santa Apolónia e com destino ao Porto-Campanhã estava cheio de passageiros («malta») provenientes de um circuito dos festivais ou coisa que o valha. Com a chegada do revisor («pica»), verificou-se ser a situação de vários desses passageiros («malta») irregular aos olhos da CP, por várias ordens de razões: havia os que tinham bilhete para comboio inter-regional, havia os que tinham bilhete para comboio intercidades mas não àquela hora, havia os que tinham bilhete para aquele comboio intercidades mas apenas entre Coimbra-B e Porto-Campanhã, enquanto que estávamos, naquele momento, na zona de Vila Franca de Xira. A acesa troca de palavras entre o revisor («pica») e os pasageiros («malta») foi inconclusiva, com aquele a exigir a revalidação dos bilhetes (i.e., que os pagassem novamente) ou a saída do comboio e estes últimos a recusarem-se terminantemente a fazê-lo ou a saírem. O revisor («pica») pegou então num telemóvel e telefonou para algures na CP, comunicando que a) tinha ali dezenas de passageiros («malta») em situação irregular, que b) esses passageiros («malta») não estavam na disposição de regularizar a sua situação contratual com a CP, que c) esses passageiros («malta») nem queriam ouvir falar da possibilidade de serem forçados a abandonar o comboio na próxima estação e que d) ele próprio («pica») já não estava em «condições psicológicas de continuar» (sic). Do outro lado, alguém lhe disse que esses passageiros («malta») poderiam seguir no comboio, mas que, em caso de chegarem os passageiros titulares dos lugares indevidamente ocupados («outros»), aqueles («malta») deveriam levantar-se e fazer o resto da viagem em pé, à sua responsabilidade.
Um pouco à frente na carruagem, um outro grupo de jovens («jovens»), com toda a certeza proveniente de algum sítio mas talvez a caminho de parte nenhuma, cantava e tocava (guitarra e djambé) canções de inspiração cristã que me escusarei aqui tentar reproduzir por escrito porque tal seria um esforço patético e porque tal seria um esforço inútil: aquelas canções são sempre iguais. Esse grupo de jovens («jovens»), que na sua maioria envergavam t-shirts com versículos do Novo Testamento e com dizeres incompreensíveis como «Quando virares as costas a Jesus, pensa nas costas d’Ele» (sic), era bastante barulhento e já tinha suscitado alguns comentários («larachas») por parte dos passageiros («malta») que ocupava a zona da carruagem em que eu ia. Após o incidente com o revisor («pica») descrito no parágrafo anterior, os comentários («larachas») subiram de tom, atingindo mesmo um mau gosto só comprável à barulheira infernal que os jovens («jovens») faziam. Ainda por cima desafinavam. Muito. Subitamente, um choro convulsivo tomou conta de uma jovem do grupo de jovens («jovens») porque, como viemos todos a perceber passado pouco tempo, os pais dela tinham sido surpreendidos enquanto circulavam de carro algures pelo país por um incêndio e estavam com dificuldade em respirar. Naturalmente, fizeram a única coisa que se deve fazer numa situação destas, ou seja, ligaram à filha («jovem») que estava fechada num comboio Intercidades superlotado a comunicar-lhe o facto, provocando-lhe assim um ataque de pânico que a deixou também a ela com alguma dificuldade em respirar. Tanto quanto me pude aperceber pela posterior acalmia da jovem («jovem»), o desfecho foi positivo, seja lá isso o que for.
Mas entretanto, o estado convulsivo da jovem («jovem») serviu de pretexto a que uma comitiva dos jovens («jovens») viesse à zona da carruagem em que eu me encontrava para protestar com os passageiros («malta») pela sua falta de respeito pelas crenças dos outros. Os passageiros («malta») retorquiram a várias vozes que desrespeito estavam eles («jovens») a demonstrar ao imporem canções religiosas a toda a restante carruagem. A discussão aqueceu mas sempre dentro de limites que poderei classificar como decentes e houve mesmo um dos jovens («jovens») que, sem mais nem menos, abraçou um dos passageiros («malta») com quem discutia, naquilo que considero ter sido uma manobra de proselitismo encapotado e um pouco bacoco. Aos poucos, e sem nunca ter havido qualquer agressão ou insulto grave, a discussão foi-se dissipando e não mais voltou a haver troca de música por insultos, a não ser em episódios esporádicos de curtíssima duração.
Junto à saída, uma passageira («malta») e um passageiro («malta») entabulavam a conversa que dois passageiros («malta») entabulam quando acabam de se conhecer num comboio intercidades. Ela fumava um charro, enquanto ele fazia um charro para o qual estava a utilizar uma quantidade estapafúrdia de haxixe. A passageira («malta») acabou o charro e foi sentar-se. O passageiro («malta») acabou de enrolar o seu, que acendeu prontamente, e perguntou aos circunstantes (eu e outro individuo que também aguardava a paragem completa do comboio para poder sair) se eram servidos, garantindo que se tratava de produto da melhor qualidade. Muito embora não tivesse razões para desconfiar da franqueza da pergunta e da veracidade da informação, não aceitei, no que fui secundado pelo outro indivíduo, atitude de que me arrependi uns minutos depois, quando me apercebi de que iria ter de esperar 20 minutos pela ligação para Coimbra-A.
Durante todo o período a que se reportam as ocorrências acima, permaneci em silêncio com a possível excepção de um ou dois risos que, julgo, não terão tido um papel assinalável no desenvolvimento das situações. |