Estava em busca de benzodiazepinas e de prolongar as férias por um dia, o que, para quem recorre ao Serviço Nacional de Saúde, pode revelar-se uma aventura de final imprevisível. Felizmente, e como moro perto do Centro de Saúde, tive a oportunidade de seguir os eventos com uma atenção que não me seria permitida caso a sujeição ao sistema de marcação de consultas me obrigasse a estadas prolongadas na sala de espera. Mas o melhor é começar pelo princípio.
O defunto — ou talvez não tanto — sistema de marcação de consultas no Centro de Saúde consistia em, muito praticamente, ir ou telefonar a marcar a consulta para dia tal. Assim. Depois, era ir para lá, até meia hora antes do início do período de consultas do dia em que tinha caído a marcação para confirmar a consulta e esperar até que chegasse a vez. Horas marcadas eram, nos longínquos dias do estertor da guerra fria, uma inovação que, sabia-se, já tinha chegado a alguns locais da América do Norte, Europa e Japão. Afinal, as coisas nesse tempo não eram como são agora: apanhar um avião em certos aeroportos não era uma sessão de strip em fila indiana, a Chechénia ainda era notícia, os telemóveis pouco mais faziam que chamadas e Portugal não tinha ainda um verdadeiro governo. Outros tempos.
No entanto, podia pedir-se um jeitinho com muito jeitinho à funcionária administrativa do Centro de Saúde, e então ela dizia-nos, na ocasião da confirmação da consulta, mais ou menos a que horas julgava ela que seria possível ao sotôr atender-nos, baseada num cálculo que envolvia variáveis complexas como o número de pessoas que estavam à frente e o tempo a mais que o sotôr tinha demorado a almoçar. Sim, o período de consultas do meu médico de família no dia 11 de Setembro de 2001 foi das 14 às 16 horas (que fique para a posteridade e para trabalho dos gestores de conteúdos), o que, sem o jeitinho com muito jeitinho da funcionária, poderia representar até 2 horas de espera. Ou mais, dependendo dos atrasos no almoço do sotôr.
Era então coisa de um quarto para as duas quando saí de casa com o objectivo de chegar ao Centro de Saúde um pouco antes do período de consultas para não apanhar o inferno que é o corredor onde se situa tudo, desde os consultórios à sala de vacinação e aos gabinetes administrativos, passando pela sala de espera, preenchido pela mole de pobres e criancinhas birrentas que, por efeito da falta de liquidez financeira ou do vínculo mais ou menos precário à administração pública, recorre ao SNS.
Esperei uns minutos até que a funcionária administrativa despachasse quem estava à minha frente, entrei, sentei-me, confirmei que, de facto, pretendia ser consultado naquele dia, e pedi, com muito muito muito jeitinho, que me dissesse a que horas seria atendido. Ela, com ar de quem estava a fazer um favor maior que a vida, lá me disse que seria atendido por volta das três, três e meia. Como passar uma hora, àquela hora, na sala de espera do Centro de Saúde seria quase tão mau como estar dentro de um avião sequestrado por terroristas, decidi que era melhor voltar para casa e esperar.
Chegado a casa, pouco passaria das duas, deparei com um Jornal da Tarde invulgarmente longo que transmitia unicamente imagens do World Trade Center em chamas e os comentários atabalhoados do Paulo Camacho. Não soube o que pensar, especialmente quando reparei que estavam as duas torres em chamas. E tudo se tornou ainda mais confuso quando, pouco depois, chegaram as primeiras imagens do Pentágono, que tinha acabado de ser, «também», atingido por um avião.
Não pude seguir atentamente o desenrolar dos eventos, uma vez que, pouco depois, tive que voltar para o Centro de Saúde, onde a televisão da sala de espera já estava aos berros, o que ainda assim era insuficiente para chamar a atenção dos pacientes, que estavam a uma distância atlântica dos acontecimentos. Em compensação, o meu médico de família, que me iria atender dentro de minutos, andava num corrupio entre o consultório e a TV. Descobri depois, porque ele mo disse, que estava exultante por os «cabrões dos americanos» se terem lixado (não posso garantir que «lixado» tenha sido o termo, e pelo tom do resto da conversa desconfio que não foi, mas como não tenho a certeza, fica assim). As afirmações entusiásticas sucederam-se e eu, para ver se o homem me despachava a receita e a justificação da falta, concordei com tudo e até disse qualquer coisa de fraco gosto acerca do Kosovo. Pareceu-me bem, na altura, especialmente por conhecer o fervor com que o meu médico de família vive as suas opções ideológicas.
Depois, foi o que se sabe e agora mundo já não é o mesmo. O Centro de Saúde, por exemplo, aderiu à informática e as consultas passaram a ter hora marcada. Os pacientes, esses continuam a amontoar-se durante horas na sala de espera porque a funcionária administrativa, que antes do 11 de Setembro fazia um jeito, agora não está numa de olhar para o computador para ver a que horas ficou a marcação e continua a mandar as gentes irem para lá no início de cada período das consultas. Outros tempos, lá está.
Nota para quem acabou de ter uma perturbante sensação de déja lu: sim, é verdade, este texto foi escrito e utilizado originalmente no dia 11 de Setembro de 2002 e reaparece agora, ligeiramente alterado, porque reutilizar é preciso. |