Reality check (com adenda)
Como por certo já notastes, o Agrafo só costuma descer para esclarecer o povo acerca das realidades básicas naqueles momentos em que o nível de idiotia pública ultrapassa os limites admitidos pela União Europeia, limites esses que até são, justiça lhes seja feita, bastante folgados. Assim, cabe desta feita ao Agrafo chamar a atenção daquela parte do povo que parece apoiar a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa para a existência, ou, melhor dizendo, para a inexistência de um insignificante pormenor.

Tem-se dito e escrito por aí com algum espanto que a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa não está, segundo as conclusões que se retiram das sondagens realizadas até à data, a «galvanizar» os portugueses, ou coisa que o valha. Perante esta surpreendente constatação, sente-se o Agrafo na obrigação de recordar os surpreendidos que Portugal não era, pelo menos nos anos imediatamente anteriores à apresentação da referida candidatura, um país suspenso da eventualidade de um regresso de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à vida política activa. Que não havia pelas ruas pessoas tresloucadas aos gritos de «Soares volta por amor de Deus», «o que será de nós sem ti» e não sei quê. Que não houve suicídios em massa quando, em Dezembro passado, S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) anunciou solenemente que não mais ocuparia cargos públicos. Que já a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) às eleições europeias como cabeça de lista do PS, aqui há coisa meia dúzia de anitos ou assim, esteve bastante longe de ser um sucesso avassalador.

Sente-se o Agrafo na obrigação de informar os surpreendidos de que não tem lá muito bom aspecto o facto de a única motivação evidente da candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa ser o desespero de impedir que a figura tenebrosa de S. Exa. o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (língua de fora) se aposse do lugar de Presidente da República Portuguesa. Sente-se o Agrafo na obrigação de recordar os surpreendidos que o horror (mais que compreensível) causado pela mera possibilidade de S. Exa. o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (manguito) ser o próximo Presidente da República Portuguesa não é, lamentavelmente, partilhado pela maioria da população — é daí, aliás, que vem o desespero dos surpreendidos. Posto isto, muito gostaria o Agrafo de saber de onde estavam os surpreendidos à espera que nascesse essa tal «galvanização». Aliás, pensando melhor, o Agrafo prefere não saber.

(Adenda: entretanto, n'A Natureza do Mal, o Luís disse o resto).
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