O arquétipo
Excepto no caso de modelos ordinários constituídos por duas partes cuja junção se nota, tornou-se impossível distinguir com a vista — e não tardará muito até que o mesmo se passe com o paladar — uma maçã de plástico de uma maçã nascida de uma árvore. E a verdade é que não foram dados passos gigantescos no campo da simulação frutícola como consequência de avultados investimentos em I&D por parte da indústria da maçã para fins decorativos. No essencial, as imitações mantêm-se na mesma, mas uma boa maçã de plástico fabricada em 1985 que, nessa altura, seria apenas uma denúncia de mau gosto, corre agora sérios riscos de ser trincada inadvertidamente.

Neste caso, o que se passou foi que os fabricantes de maçãs de imitação só tiveram de ficar no seu lugar à espera que os processos de normalização exigidos pela economia de mercado (ou assim) fizessem as maçãs de árvore aproximar-se do ideal kitsch (kunderiano) representado pelas falsificações. O resultado é o que se pode ver em qualquer hipermercado: uma palete de maçã starking é um conjunto de frutos indistintos, desprovidos de sabor e maquilhados com uma generosa camada de cera à qual está apenso um pequeno e incómodo autocolante que, por enquanto, ainda nem sequer inclui informação respeitante ao número de série.

A passagem dum paradigma em que se espera que a arte imite a vida para um em que a vida já imita a indústria de produção de acessórios de decoração suburbana, é, na minha opinião, mais uma prova irrefutável de que nos deveríamos arrepender porque o fim está próximo ou algo do género mas a cores. Não será por mero acaso que o fruto em que este fenómeno é mais evidente é a maçã... Mas isto sou só eu a falar, vocês lá saberão das vossas vidas.
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