Quando lhe pedi que escolhesse um dia para tratarmos do assunto, ela, atropelando-me, disse que no fim-de-semana seguinte não podia. Um vez que eu não tinha sugerido o fim-de-semana seguinte ou qualquer outro dia, aquela informação surgiu como uma não-resposta ao meu pedido que entendi, até pela ânsia dela, como um incentivo à formação de novas conversas. E perguntei o que ia acontecer no fim-de-semana seguinte, ao que ela respondeu, trocando a ânsia pela brusquidão e por uma incapacidade nova de olhar para mim, que isso não era da minha conta. Houve um curto impasse, ultrapassado pela minha desistência temporária na tentativa de atribuição de sentido e similares, e o jantar e a noite correram como poderia ter sido previsto.
Imagino que, no Sábado do fim-de-semana seguinte, não era muito previsível que eu estivesse naquele sítio àquela hora. Nada de verdadeiramente espantoso, quer no local, quer na hora — uma rua, um fim de tarde —, mas invulgar para alguém que, como ela, conhecesse as minhas rotinas. Isto não impediu que nos portássemos todos muito bem quando o encontro aconteceu: eu consegui controlar a vontade de rir sem que o esforço se notasse, ela produziu um sorriso de alegria extática por me ver que nunca passou por amarelo, o novo amigo dela foi de uma candura só possível em quem ignorava o secretismo reservado ao programa que estava a cumprir. Fizemos 2 ou 3 minutos de conversa acerca das revoluções dos corpos celestes, o novo amigo dela convidou-me para jantar com eles, ela aguentou o segundo e meio que eu levei a declinar o convite sem que o espasmo de felicidade lhe esmorecesse no rosto e seguimos para as nossas vidas, eu para um lado, eles para outro.
O assunto para o qual tínhamos de reservar um dia acabou, naturalmente, por ser tratado noutra altura sem que estes factos o tenham afectado de forma sensível. Não quero dizer que estes factos tenham seguido um rumo só deles, com consequências distantes e desconhecidas: os acidentes ficam caros, e este não foi excepção. O que quero dizer é que isso não é da vossa conta. |