O Inspector Rousseau está farto de massa encefálica a escorrer de objectos contundentes, de sangue coagulado em tapetes baratos, de corpos seccionados enfiados em caixotes do lixo. Em suma, o Inspector Rousseau está farto de ser inspector e pretende ir atrás do seu sonho secreto de infância: tornar-se marujo. O Inspector Rousseau quer sentir o vento do Árctico a puxar-lhe os cabelos, ser beijado pelas brisas aromáticas dos trópicos, passar a língua nos lábios gretados pelo sal, adormecer embalado no compasso das ondas, ser diariamente trazido à vida pelo marulho, ter um amor em cada porto. Isto, claro, em média, porque será muito mais excitante se houver portos onde tenha mais que um amor e outros onde não tenha nenhum. Assim, «um amor em cada porto» deverá ser encarado, na melhor das hipóteses, como um valor indicativo que corresponderá, na realidade, a um resultado situado perto de 1, mas que pode ser 0,8 ou 1,3 amores em cada porto, por exemplo, dependendo de como se conjugarem vários factores que seria fastidioso estar agora a enumerar. |