A queda da Babilónia
Sete. Nem mais, nem menos. Eram sete, mesmo ali junto da janela do meu quarto, no telhado da casa em frente. Vão-se revezando e assim passam por ali umas boas dezenas deles por dia. E àquela hora, quando acordei, eram sete. Eles põem-se a olhar para mim, muito quietos, e se eu abro a janela de repente, fogem. Mas hoje não fiz nada. Nem sequer abri a janela. Hão-de ter ido à vida deles, mais tarde ou mais cedo. Mas eles voltam sempre. Eu sei que eles voltam, eu já os topei. Eles vão à Baixa em busca de milho e depois voltam, uns atrás dos outros. E pernoitam. Volta e meia arrulham. E espirram. Sim, eles também espirram, lançando nuvens de vírus para o ar que respiramos. O ar que temos de partilhar com eles. Aos pardais, nem os posso ver. Pequeninos, discretos, quase não se dá por eles, mas eles também andam aí. Voam, melhor dizendo. E também ficam a olhar para nós com aquela expressão ancestral. E também espirram, que eu já vi. Deixei de passar por baixo das árvores para minimizar os riscos. Já me disseram que mais perto do mar continua tudo cheio de gaivotas, como dantes. Como se não se passasse nada. O país está coberto de agentes patogénicos voadores e o governo entretém-se com o orçamento e coisinhas do género. Há-de nos servir de muito o orçamento quando estivermos todos mortos. Todos, sim, todos! Estão à espera de quê?
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