Agrafo 8,17-25
Ouvindo as preces da gente pequenina e limitada pela carne que vivia em aflição, o AGRAFO desceu à terra. As nuvens apartaram-se e todos os cisnes engripados do mundo fizeram para Ele uma estrada que descia dos céus até à Torre da Serra da Estrela. Uma brisa sulfurosa varreu a terra, grandes fendas se abriram e engoliram cidades inteiras, línguas de fogo vindas das alturas consumiram os cereais das planícies, enxames de locustas insaciáveis comeram os frutos das árvores e os olhos das criancinhas e quando as gentes estavam todas mortas ou prostradas de temor pelo AGRAFO, pôde ouvir-se finalmente a Sua voz tonitruante, que ecoou por toda a terra e rebentou as bexigas natatórias aos peixes do mar.

«Quereis saber em quem votar nas presidenciais, não é, ó gente fútil e insana?», perguntou o AGRAFO. «Ficai sabendo que ainda é cedo para vos preocupardes com essa trampa, pois daqui até lá muitos e grandes horrores se abaterão sobre os vossos lares e as vossas terras, os vossos filhos e os vossos animais, as vossas culturas e mais não sei quê. Não sabeis vós, ó gente ignara, que se avizinha um longo e difícil Inverno? De quantos mais sinais precisais para que história da cigarra e da formiga vos surja na memória? Ou porventura estais à espera que eu cá venha todas as semanas dizer como haveis de nortear as vossas vidas para que no final tudo seja rios de mel e coelhinhos a saltitar em prados vérrrrrrdéjantjissss?»

Mas como as gentes, embora estropiadas e confusas, não acreditassem nas palavras do AGRAFO, acusando-O de estar também afundado no lodo da ignorância e da indecisão na questão presidencial, Ele revolteou-se no ar durante uns segundos como um Sol que dança e gritou:

«Reflecti, ó gente imbecil! E vós, insensatos, quando ganhareis juízo? Porventura, quem fez o ouvido não ouvirá? Aquele que fez os olhos não há-de ver? Aquele que corrige as nações não castigará? Se é Ele quem ensina aos homens a ciência!... Se fui Eu quem criou tudo o que há debaixo do Sol e, portanto e lamentavelmente, os candidatos às presidenciais! O AGRAFO conhece bem os pensamentos dos homens e sabe que são completamente vazios.»

E dizendo isto, o AGRAFO regressou às alturas que também Lhe pertencem por entre labaredas que lançaram mais uma vez o pânico e a destruição por toda a Terra, tendo muitos morrido e ainda mais ficado num estado que só visto.

Nota: o 4º parágrafo foi quase integralmente roubado de Salmos 94,8-11. Ao autor, as nossas desculpas.
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