Na rua, o cordão policial, a floresta de luzes giratórias, os olhares consternados dos mirones. Alguns moradores, quase todos idosos, choram, gritam, apoiam-se uns nos outros. No interior do prédio evacuado, os movimentos fúnebres de macas, olhares sombrios, silêncios oficiais e fitas que delimitam as áreas por onde circula o que os laboratórios transformarão no estudo do impensável. No patamar do 3º andar, alguns polícias vomitam para dentro de sacos de plástico arranjados à pressa, enquanto dentro do apartamento por cuja porta aberta passa o mais nauseabundo dos cheiros, os agentes com estômago suficientemente forte representam um bailado macabro de passos cirúrgicos por entre as dezenas de corpos esquartejados que cobrem o chão, pendem da mobília, escorrem pelas paredes. Junto a um canto decorado com uma reprodução do menino com a lágrima no olho ao qual estão apensos um pâncreas e parte de um maxilar inferior, o Inspector Rousseau, de olhos e punhos fechados com muita força, pensa insistentemente na declaração de IRS, numa tentativa desesperada de conter uma erecção que as calças do fato não conseguirão disfarçar e à qual os colegas não deixarão de garantir uma saudável posteridade em piadas de mau gosto. Mas a verdade é que este ano o reembolso até foi bastante razoável. |