Quando o telefone toca às 4 da manhã, o Inspector Rousseau já sabe que irá atender uma voz ofegante e não identificada a dizer obscenidades ou alguém a chamá-lo por causa de um «serviço complicado», nome que eles na brigada dão aos cadáveres problemáticos. Desta vez foi a segunda hipótese e a breve descrição que lhe fizeram do estado em que se encontrava o corpo fez o Inspector Rousseau saltar da cama como uma pantera, vestir apressadamente a roupa suada do dia anterior, descer as escadas do prédio a correr para não perder tempo com a espera pelo elevador e meter-se no carro. Atravessa agora as ruas desconformes da cidade semidesértica a alta velocidade, em direcção a um armazém abandonado numa das zonas industriais falidas. Para ele, não há semáforos, sentidos proibidos ou passadeiras. Para ele, não há sem-abrigo, prostitutas ou os cães abandonados que a sarna e a vida desfazem pelas ruas. Para ele, há apenas as pupilas bem dilatadas e um percurso de jogo de arcada que tem de ser percorrido a uma velocidade superior à da lei, em nome de um interesse maior: dar ao passado um futuro mais habitável. Porque o Inspector Rousseau sabe que a descoberta de um cadáver cujos olhos foram substituídos por duas colheres de sopa de compota de pêra com uma pitadinha muito subtil de canela só pode querer dizer uma coisa: o Doutor Spleen está de volta para o duelo final. |