Fartaste-te, largaste tudo a meio e abandonaste a tua terra para tentar a sorte na grande cidade. Não foram fáceis, os primeiros tempos, mas os encargos da memória custaram menos a sacudir que o previsto, ocupado que imediatamente ficaste pela obrigação de ter de tudo um pouco. E de algumas coisas não foi só um pouco. Perdido nas ruas, perdido nas casas, perdido na perdição e nos trabalhos, a tua vida de excessos e paixões não abrandou perante nada. Atiraste-te a tudo o que te surgiu à frente como pombo a milho, não houve nada em que não chafurdasses até ao esgotamento da última possibilidade.
Só no Verão passado, quando finalmente regressaste às tuas raízes esquecidas, percebeste que o futuro não é só à frente que está. Os olhos ainda mais brilhantes nas caras ainda mais enrugadas, a polifonia grotesca das infâncias inventadas, toda a solenidade alucinogénea das ancestrais festas da Nossa Senhora da Escarafuncheira, tudo te caiu em cima e tu caíste aos teus próprios pés.
Voltaste para a cidade por necessidade, por orgulho, por naturalidade, porque à frente é que estão as peças da tua vida que tens coragem para agarrar. Mas agora tudo é outra coisa, não é verdade? São as mesmas pessoas ou outras muito parecidas, as mesmas avenidas e as mesmas frestas por onde passa a escuridão, mas tu não és o mesmo tu, tu agora não consegues estar a tempo inteiro, mesmo sabendo-se que nunca vais a qualquer outro lado, que continuas a chafurdar sempre nas mesmas redondezas. Agora é-te tudo diferente porque tu agora sabes o que antes não te atrevias a afirmar: a chafurdice não substitui a Escarafuncheira. |