Não, sabe, eu no fundo sou uma pessoa de gostos simples, da vida sem grandes complicações, do lamber os dias pelo seu sal. O que aqui me traz é este mal de ter um coração muito grande, um coração que transborda, que me dói nas costelas se o não der aos outros. Conhece aquela história da senhora que todos os dias ia para o meio da praça com milho para os pombos? Um dia foi, como sempre, para o meio da praça, mas só quando levou a mão à mala para tirar o saco de milho reparou que se tinha esquecido dele em casa. Ainda tentou engendrar uma manobra de diversão, mas os pombos, que entretanto já voavam às centenas na direcção dela, comeram-na, ali à frente de toda a gente. Diz quem viu que foi uma grande porcaria. E é aí que eu quero chegar: os pombos, à visão do gesto que lhes trará o milho, já não voltam para trás, mesmo que o milho, afinal, não exista. Quem falava muito bem disso era Pavlov. Nunca leu? Eu fartei-me de ler Pavlov na minha juventude, sempre achei um crime não lhe darem o Nobel. Mas, como eu dizia, é ao destino da senhora do milho que me apresento, porque é mais forte que eu, porque se não for assim rebento, percebe? Eu tenho um coração de esferovite, que se desfaz em milhões de bolinhas brancas quando o raspam nas paredes ásperas da injustiça, da iniquidade, da solidão. Será esse o meu contributo para o fim da incompreensão, espalhar as bolinhas brancas produto do meu coração esfarelado pelos espíritos ávidos das gentes desta terra. Você não sabe porque não pode saber, porque é muito novo, você não sabe aquilo por que tivemos de passar. E eu, com este coração desconforme, sem poder fazer nada. Ter o coração ao pé da boca, o coração ao pé das mãos, o coração ao pé dos pés, o coração ao pé de tudo, um coração que não deixa espaço para os pulmões e com eles o respirar. Por isso é que às vezes faço uns ruídos estranhos. Sabe a história do homem que todas as manhãs ia para a Baixa dar dinheiro aos transeuntes? Dar dinheiro, imagine! E ainda mais naquele tempo! Ninguém sabia de onde lhe vinha a fortuna, dizia-se que duma tia rica, mas nunca houve certezas. O que é certo é que não havia manhã que o homem não fosse para a Baixa deambular por entre as pessoas e deixar-lhes moedas nos bolsos. Era o espelho dos pedintes, que estão parados a receber dinheiro. Até que um dia foi para a Baixa sem dinheiro para dar, foi só passear um pouco. Já está a ver o que lhe aconteceu, não é? Pois é, não teve de esperar muito até ser comido pelos mesmos pombos que tinham comido a senhora da história que lhe contei há bocado. E agora, pergunta-me você, para que raio queriam os pombos o dinheiro? Não foi pelo dinheiro! Foi o reviver! Os pombos tinham tomado o gosto ao sangue temperado com aquela descarga de adrenalina própria das rotinas quebradas. E é por isso, por todo um passado que muitos podem não compreender mas que, se soubessem o que eu sei, gostariam que fosse o futuro, que digo "Aqui estou". |