Tristeza
O estranho interesse que o anúncio da saída de Alegre da minha lista de votáveis despertou, mesmo em pessoas que não imaginavam quais as minhas possibilidades de voto, dá-me alento para uma justificação mais longa.

Eu nunca tive grande impressão de Alegre enquanto político (e, quanto ao mais, desconheço quase totalmente a sua obra literária), que sempre me pareceu o exemplo perfeito do tribuno-balão: um exterior muito inchado, um interior cheio de ar. Aquela pose, o permanente auto-enaltecimento enquanto monumento maior da nação à conquista da Liberdade, o bafio de algumas posições escandalosamente reaccionárias, a rica prosápia em que se cristalizou aquilo que poderia ter sido um pensamento, tudo isto sempre me irritou solenemente (como não poderia deixar de ser...). Resumindo, sempre tive de Alegre a ideia de alguém com muito para falar, mas muito pouco para dizer.

Por alguns dias (semanas, concedo) pensei que talvez me tivesse enganado. E muito embora fosse evidente, e de certa forma assumido, que o principal impulso para a candidatura de Alegre fosse uma birra, fiquei com a ideia de que ali moraria mais alguma coisa. Wishful thinking perante o triste cenário que se me apresenta? Ingenuidade? Simples estupidez? É indiferente. Não demorei muito a perceber que o conceito de cidadania, coluna vertebral da candidatura de Alegre à Presidência da República, se esgota no apoio a essa mesma candidatura. Ser proponente de Alegre é um acto de cidadania. Fazer campanha por Alegre é um acto de cidadania. Votar em Alegre é um acto de cidadania. Porque Alegre não é apoiado por nenhum partido (embora quisesse sê-lo, mas isso é aquele passado que não interessa). E pronto, é tudo. Não, por acaso há mais: Alegre também não se coibiu de repetir o número gasto e patético da transformação das críticas à sua magnífica pessoa em actos de intimidação, estratagema triste para esconder uma incapacidade preocupante em justificar as contradições (algumas delas graves) entre suas posições enquanto candidato e as suas posições enquanto deputado vitalício. Como ao longo de muitos e maus anos, e passado que está o momento da birra e dos lindos textos de apresentação ao eleitorado, Alegre confirma esgotar-se na retórica de uma resistência que devia já ser outra.

Ou seja, a minha opinião acerca de Alegre voltou a ser a que era depois de um breve intervalo em que me entretive a pensar que se calhar havia alguém em que valeria mesmo a pena votar. Neste momento, é para mim certo que acabarei por votar contrariado em alguém que não merece o meu voto para não ficar com o peso na consciência de ter contribuído, ainda que por omissão, para a vitória da suprema desonestidade intelectual cavaquista. Fá-lo-ei, ainda assim, em alguém com um mínimo de conteúdo político, que tenha algo a apresentar para além do seu próprio ego. Na verdade, não interessa muito em quem recairá a escolha, até porque desejo sinceramente que o eleitorado tenha a indecência de dar a vitória a Cavaco logo à primeira volta, poupando-me assim à provação da angústia por mais que o tempo que a lei consagra como estritamente necessário para o efeito.
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