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O poder da mente
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Uma pensão aceitável é uma pensão limpa, em que eu tenha direito a casa de banho privativa e em que o ruído não seja demasiado intrusivo. Elevador, televisão, ar-condicionado, cyberlounge, wi-fi, room-service e todos os restantes serviços em inglês são perfeitamente dispensáveis, quando não preferencialmente ausentes.
Uma pensão aceitável em meio rural é uma pensão cuja diária não ultrapassa os 25-30 euros. A inclusão do pequeno-almoço neste preço é um dado irrelevante. E o que é que são 25-30 euros, ou 50-60 caso haja necessidade de prolongar o tratamento para um terceiro dia? 50-60 Euros não são nada. 50-60 Euros gasto eu em coisas que não interessam ao menino Jesus, mas que infelizmente interessam à classe de meninos a que pertenço. Tabaco. Guloseimas. Discos que não vou suportar daqui a 2 anos e livros que vão ficar em lista de espera durante 3. 50-60 Euros são menos umas dezenas de gigabytes num computador futuro. É alguém a ter direito a uma prenda de aniversário mais ranhosa que o costume. É cinema xixi cama em vez de cinema copos muito xixi cama.
50-60 Euros são uma esmola.
Claro que ainda tenho de somar a gasolina necessária às deslocações e o custo das refeições, que serão todas fora. Mas gasolina também eu gasto em idas mais funestas e vindas menos inócuas. E quanto à comida, sou rapaz para se aguentar bem até ao jantar a fruta e sanduíches prévia e sensualmente enroladas em película transparente.
Bem vistas as coisas, só preciso da mentalização certa para conseguir pôr-me a andar e ainda poupar algum dinheiro.
E o bem que me faziam uns dias no Alentejo é algo que está muito para além de qualquer tentativa de explicação não clínica. Casario branco e planície, colinas e burros, azinheiras e porcos, oliveiras e toiros, sobreiros e estradas com pouco trânsito, sopa de cação e a minha rinite alérgica a despontar mais cedo, aquele sotaque vogal e os estereótipos todos a que tenho direito, sol e ervas da cor que estiverem se o meu tempo e o meteorológico não permitirem o verde alucinogéneo da primavera. Quero lá saber, as fotografias ficam bonitas à mesma. |
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Azeite
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Da caixa de um CD-R fabricado em Taiwan:
“Precauciões 1. Evita deixar marcas digitales, sujeira ou manchas no lado verde do disco. Esto e muito importante de discos grabados. 2. Não fixe etiquetas, folhas protetivas ou aplicar revestimentos de liquido ao disco. 3. De notar titulos e outra informação no lado do rotulo (dourado ou impresso) do disco, deve fazer-o no area impresso usando um lápiz de ponta com azeite. Favor não usar caneta esferografica ou outros instrumentos con ponta dura. 4. O disco não deve nunca ser exposto a umidade excessiva. Evita toda exposição na forma direita ao sol ou luz forte.”
Nota: o fabuloso “lápiz de ponta com azeite”, imagem que de certo me irá perseguir por alguns anos, é aquilo a que, na tradução espanhola, toda ela cheia de erros, se chama “lápiz de punta con aceite” (ora de onde havia de ter vindo o “azeite”?); na francesa, que também está um mimo, chama-se “instrument a encre indélebile a une pointe souple; e na inglesa, aparentemente impoluta, "oil-based felt-tipped pen". |
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Outono
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Ao princípio, os meninos ficaram todos muito assustados com aquele líquido aparente que caía do céu.

Depois, voltou tudo à normalidade. |
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Espelho meu
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Devo dizer que sou muito amigo de reflectir. Desde pequeno, sempre fui assim. Deve ser por isso que gosto tanto destes períodos de reflexão que há antes das eleições. Este ano, e muito provavelmente ao longo do próximo, estamos bem servidos, porque com tantas eleições e referendos o que não vai faltar são períodos de reflexão. Mas e depois? Quanto tempo vamos estar sem reflectir? Será que se considera que as pessoas só devem reflectir antes das eleições? Eu acho que não. Mais, também acho que os períodos de reflexão deveriam ser maiores: 24 horas não é suficiente. A reflexão é algo que, por vezes, deve ser feito de forma continuada, ao longo de algumas semanas ou mesmo meses, e não apenas um dia quando o calendário eleitoral calha a trazer-nos as felicidades -- esta e outras -- que lhe estão associadas. Portugal é um país com um défice de reflexão, individual e colectiva. No entanto, olho à minha volta, e que vejo eu para além das magnólias em flor? A despreocupação total, a leveza do costume. A maior parte das pessoas nem sequer se dá conta de que teve um dia reservado à reflexão. Num outro país, ou talvez num outro mundo, ter-se-ia discutido isto durante a campanha eleitoral, as pessoas exigiriam mais dias de reflexão, haveria até, quem sabe, quem reflectisse de forma organizada mesmo quando não fosse dia de o fazer. Infelizmente, está tudo demasiado preocupado com o empréstimo do T1+1 na Ranhoca de Baixo para se dedicar a este tipo de exigências, digamos, esotéricas. É o país que temos. |
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Qual é a sua desculpa para não mentir?
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Confesso que não me apetece muito, mas não posso fechar os olhos à evidência de que existe uma vasta e fiel clientela que espera que eu me pronuncie sobre isto que se tem passado, que é como quem diz a campanha eleitoral. E é só por isso, por saber que ansiais pela luz da minha sapiência, pelo mel das minhas palavras e é melhor parar por aqui antes que descambe para a ordinarice que escrevo acerca disto que se tem passado.
Quanto ao debate a quatro e meio, não há grande coisa a acrescentar. Foi o retrato perfeito de uma campanha idiota e desinteressante pontuada por pseudo-escândalos arremessados de um lado para o outro nos momentos considerados tacticamente favoráveis, ora de viva voz, ora através da imprensa, de acordo com a sua arregimentação prévia e mais ou menos conhecida.
Que dizer de um debate cujo momento alto foi (mais) uma bojarda demagógica de Francisco Louçã, que só colou devido à ignorância ou omissão táctica dos restantes participantes? Que dizer de um debate em que Portas, naquele misto perturbante de subtileza e descaramento, passou o tempo a entalar o parceiro de coligação com um discurso tão bem articulado (o melhor de todos, mais uma vez) como oco, sem nunca ter tido direito a resposta? Que dizer de um debate em que, como sempre, Sócrates não fez mais que despejar as frases que decorou independentemente de elas responderem ao que lhe foi perguntado? Que dizer daquele registo porreiraço a raiar o boçal de discussão de bêbados na tasca a seguir ao jogo que é o único ao alcance da profundidade de Santana? Que dizer de Jerónimo Sousa ter somatizado de forma tão inescapável a ausência prolongada de algo minimamente interessante para dizer?
Urge despachar os que lá estão, não sendo certo que ficaremos muito bem servidos com a substituição. Um bocadinho melhor, que não será difícil, já nos deixará à beira do arrebatamento, ou nem por isso. O certo é que até o voto em branco nos foi roubado: a campanha pelo voto em branco foi apropriada por um grupo de anónimos (Um rumo para Portugal ou lá como é que a agremiação se chama) que defende a substituição dos políticos por técnicos. Idiotas? Fascistas encapotados? As duas? Nenhuma das duas é que não é opção.
Assim, no fim de analisar profundamente cada um dos elementos desta complexa realidade, ou seja, disto tudo, a única certeza que tenho é a de que era bom que as pessoas que no próximo Domingo forem convidadas a pronunciar-se numa sondagem à boca das urnas mintam. Digam que votaram num daqueles partidos residuais em quem ninguém vota. É a única campanha que vale a pena: “No Domingo, Mente”. À falta de outros prazeres mais consistentes, como por exemplo a simples suspeita de que talvez haja a possibilidade de, eventualmente, virmos a ter um governo minimamente decente, já não seria mau podermos assistir ao embaraço dos jornalistas ao terem de apresentar primeiras projecções de resultados que dessem a maioria absoluta ao PCTP/MRPP ou à Nova Democracia. Ou ao Partido Humanista, que é tão simpático e puro. |
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Nuvem de Oort
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“És mesmo pifado dos cornos”, disse ela carinhosamente ao mesmo tempo que sorriu e voltou-lhe novamente as costas para dar mais uns passos pequenos com a firmeza característica de quem só procura trevos de quatro folhas. Ele continuou a ir atrás dela, quase parado, a olhar para o espaço que ela ocuparia se não se tivesse movido, tentando reter na memória a expressão que ela teria se não tivesse falado nem sorrido. Depois também ele sorriu quase imperceptivelmente e fechou os olhos para conseguir resistir a dizer-lhe que ninguém fica o mesmo depois de ser raptado pelos extraterrestres. E não era só na cicatriz da biópsia que ele estava a pensar. |
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Lucy in the Sky with Diamonds
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"'Estive há meia hora a falar sobre ela', foi 'a última conversa que tive antes de vir para aqui', disse Santana Lopes em declarações à Rádio Renascença à saída de um comício em Guimarães, manifestando 'todo o respeito' pela irmã Lúcia."
Podem conferir aqui.
O respeito que Santana nutre pela Irmã Lúcia, e que fica bem patente em mais esta demonstração de sentido de oportunidade, foi coisa a que ela nunca teve direito na vida, por mais que não se tenha apercebido dessa ausência. Eu, munido de uma inusitada coerência, da mesma forma que não acreditava nas supostas visões da senhora, não acredito que ela tenha morrido. Até porque para morrer é preciso estar vivo. E lá fora a alucinação continuará, agora sim, sempre com ela. |
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Ex.mo(a) Sr(a). espaço
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Eu, espaço, filho(a) de espaço e de espaço, natural da freguesia de espaço, concelho de espaço, distrito de espaço, nascido(a) a espaço de espaço de espaço, portador(a) do bilhete de identidade de cidadão nacional número espaço, emitido pelo arquivo de identificação de espaço a espaço barra espaço barra espaço e válido até espaço barra espaço barra espaço, espaço, venho por este meio requerer espaço.
Espaço, espaço de espaço de dois mil e espaço
Espaço |
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Para que não passe completamente despercebido
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O objecto do AGRAFO não é o próprio AGRAFO. O objecto do AGRAFO é e será sempre desconhecido até mesmo, ou especialmente, do próprio AGRAFO. Mas o AGRAFO não pode deixar de se lembrar de que hoje o AGRAFO faz anos. Dois. |
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Sopor Aeternus (ou assim)
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A minha cama é um estrado e isso contribui para que a minha anarquia nocturna se desenvolva sem grandes limitações, não sendo raro os meus pés passarem uma parte do tempo pendurados para fora do que seria o seu leito natural. Ora isto, se é bom por um lado, já se está mesmo a ver que é mau por outro. Ou seja, se é verdade que é bom não estar espartilhado por traves nem entraves durante o sono, também o não é menos que esta liberdade toda faz com que as aparições nocturnas rareiem por medo de levarem uma canelada. Não as critico.
Podia agora discutir onde está, verdadeiramente, o problema: em mim ou nas aparições? Por que insistem elas em aparecer aos pés da cama e não noutro sítio qualquer (cabeceira, dentro, etc.)? Imagino que haverá uma razão plausível senão mesmo metafísica para esta “mania”, mas como de costume tudo isto me escapa.
Mas, possivelmente por esta friagem que tem estado me pôr mais fetal durante a noite, hoje de madrugada lá apareceu, passo a redundância, a aparição. Já se passou tanto tempo desde a última que não sou capaz de me lembrar se se trata de uma repetente ou se era uma nova, mas não creio que essa análise seja possível ou sequer relevante. É sempre a mesma produção: uma luz-figura aquática que ilumina um espaço mal definido aos pés da cama acompanhada de uma voz andrógina e harmoniosa cuja origem no espaço não é clara. Esta, abandonou o seu lugar lá no não sei onde exclusivamente para me vir dizer que o Santana ia ganhar as próximas eleições, posto o que desapareceu com uma brisa sulfurosa que fez cair do seu equilíbrio precário um CD do Ligeti, que está para ali há meses à espera do Inverno para entrar em funções. Não sei se estaria a gozar ou a falar a sério, nem qual a margem de erro das previsões feitas por aparições nocturnas, mas achei que devia partilhar esta informação convosco. |
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Os bons velhos tempos
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“VLADIMIR: Ai, perdão!
ESTRAGON: Força.
VLADIMIR: Não não, por favor.
ESTRAGON: Não não, tu primeiro.
VLADIMIR: Interrompi-te
ESTRAGON: Pelo contrário.
Olham fixamente um para o outro, zangados.
VLADIMIR: Macaco de cerimónias!
ESTRAGON: Porco meticuloso!
VLADIMIR: Acaba a tua frase, já disse!
ESTRAGON: Acaba tu a tua!
Silêncio. Aproximam-se. Param.
VLADIMIR: Monga!
ESTRAGON: É isso mesmo, vamos insultar-nos.
Voltam-se, afastam-se, voltam-se de novo e olham um para o outro.
VLADIMIR: Monga!
ESTRAGON: Lorpa!
VLADIMIR: Aborto!
ESTRAGON: Besta!
VLADIMIR: Macaco!
ESTRAGON: Canalha!
VLADIMIR: Cretino!
ESTRAGON (para terminar): Crííí... tico!
VLADIMIR: Oh!”
Samuel Beckett, À Espera de Godot [excerto], trad. José Maria Vieira Mendes
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Angst
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Por que é que as torneiras temporizadas (ou lá como se chamam aquelas carrapetas que, quando pressionadas, deitam água e que invadiram as casas de banho públicas num esforço meritório mas incómodo para poupar água) nunca estão calibradas para que saia água o tempo suficiente para um gajo lavar as mãos? Aquilo é calibrado como? Alguém fez um estudo do tempo médio que as pessoas demoram a lavar as mãos? Se sim, quer dizer que eu demoro mais tempo a lavar as mãos que a média? Se não, quais são os critérios? Haverá critérios? E por que é que o tempo não é igual para todas as torneiras/carrapetas, às vezes dentro da mesma casa de banho? Desregulam-se sozinhas ou foram montadas às três pancadas? E será que os gastos de água provocados por aquelas que se avariam e ficam a deitar água até ir um técnico resolver o problema (porque um utilizador comum que queira impedi-la de continuar a deitar água nada pode fazer) são compensados pela poupança geral motivada pela implementação daquele sistema (que linda frase)? Será aquele sistema tão mais barato que o das torneiras accionadas por uma bomba que se pressiona com o pé (torneiras de pedal?) que compense as vantagens óbvias deste último, quer em consumo, quer em comodidade, quer em higiene? E a mesma questão em relação àquelas torneiras accionadas por sensores electrónicos? E por que é que estas últimas têm sempre os sensores colocados de forma a que a torneira é activada quando as mãos não estão de baixo dela, obrigando as pessoas a lavar uma mão de cada vez o que, convenhamos, não é muito prático e eficaz?
Estas coisas é que não nos dizem. A estas perguntas é que ninguém nos responde. Estas verdades é que nos escondem. Com estas misérias é que nos torturam. Mas depois é a qualidade de vida e o bem-estar e a justiça fiscal e as políticas de emprego e o diabo a sete, a eutanásia, o aborto, a clonagem humana, a clonagem desumana, os casamentos homossexuais, heterossexuais, bissexuais, transexuais, metrossexuais, retrossexuais, a co-incineração, as tropas no Iraque, o défice, o défice, o défice, o défice, o défice, o défice. Disso e outras irrelevâncias quejandas não param de falar. Mas das torneiras, nem pio. Não sei onde é que isto vai parar.
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