Estranha forma de vida
Enquanto o Papa vai punindo o corpo para júbilo irremissível de milhares de almas sadomasoquistas em todo o mundo, a ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) aproveita-se lentamente do seu vigoroso exemplo para continuar a tomar conta do nicho de mercado sentimental (em franca expansão) das pessoas incapazes de aceitar e mesmo apreciar a finitude da vida humana. Bem vistas as coisas, não é difícil de lá chegar: se fomos feitos à Sua imagem e semelhança, por que raio não havemos de ser imortais? Bem vistas as coisas, ninguém quer ver os seus mais próximos mortos e essa é uma fragilidade fácil de transformar em algo muito mais lucrativo.

Não deixa de ser curioso que o grande trunfo da ICAR seja, hoje em dia, a par do refluxo ultra conservador, a aceitação cada vez menor que nas sociedades ocidentais tem a ideia de que, mais tarde ou mais cedo, por uma razão ou por outra, todos havemos de dar o berro, uma concepção da vida e da morte só permitida pelos avanços do seu arqui-rival deus-ciência. Num mundo em que existe a possibilidade técnica (embora pouco económica) de vermos os nossos entes queridos “viver” para sempre ou quase, ainda que sob forma de meros conversores de oxigénio em dióxido de carbono ligados à corrente, a ICAR, com o seu fanatismo pró-vegetativo, volta a ser o refúgio confortável para muitas insuficiências dolorosas das sociedades contemporâneas que ela própria ajudou a criar. Convém que se esclareça que “dor” é, na língua da ICAR, não aquilo com que devemos aprender a viver, mas o local onde devemos aprender a viver às custas de umas ladainhas e outras penitências pouco variadas mas isentas de IVA ou da necessidade de receita médica.

Há quem goste de levar uma estranha forma de vida, há quem pretenda que sejamos estranhas formas de vida. As cartas foram baralhadas ao sabor dos jogos semânticos de quem sempre soube ver na produção e consequente manipulação do medo a mais eficaz das armas de paralisia em massa, mas o jogo continua o mesmo de sempre.
Simples, sem gelo
Informa-se quem tiver uma consulta externa marcada no Hospital dos Covões, em Coimbra, à qual não possa ou não queira ir, que escusa de ser acometido(a) daquele civismo incompreensível que leva algumas pessoas a desmarcar com antecedência as consultas a que não vão para que o hospital possa lá meter alguém que esteja em lista de espera. A razão, como é hábito entre as razões lusitanas de boa cepa, é simples: não é possível desmarcar consultas no Hospital dos Covões, em Coimbra. Se o ex-futuro utente não pretender ou não puder comparecer à consulta na data prevista, a solução passa, conforme me foi dito por quem falava em nome dos serviços, por “não aparecer e pronto”. Realmente, para quê complicar as coisas?
O maravilhoso mundo da droga
Se é verdade que terei de esperar pelos exames médicos para saber a extensão dos estragos provocados por 18 anos de tabagismo descontrolado, os efeitos sobre a minha identidade estão já estendidos com a maior desvergonha à minha frente. Só havia um facto acerca do qual eu não suscitava dúvidas a ninguém e esse era o facto de eu estar sempre com um cigarro ou toda a parafernália necessária a construir um (eu fumava de enrolar) na mão. Onde quer que estivesse e onde quer que fosse, com excepção dos locais onde a prática tabágica é proibida pela lei ou desaconselhada pelos mais básicos rudimentos de boa educação, lá estava eu a impregnar o ar à minha volta com aquele cheiro que, agora que descobri que tenho olfacto, me parece um nada pestilento.

Contudo, apesar de as reacções dos outros à minha passagem a não fumador terem até agora sido reveladoras de como o tabaco era algo a que a minha imagem estava muito associada, essa evidência não tem sido perturbadora, ou pelo menos não mais que divertida. Desde a incredulidade de quem não acreditou à primeira que eu, logo eu!, pudesse sequer pensar em deixar de fumar até à desilusão (o termo não é exagerado) de quem não conseguiu disfarçar que ter por perto alguém que fumava que nem uma besta aplacava os sentimentos não assumidos de culpa pelo seu próprio tabagismo, passando pela indiferença, pelo encorajamento e pela admiração, fui confrontado com um leque variado de reacções e consegui tirar prazeres de todas elas. O jogo da minha redefinição, agora com o bónus de não haver aquela que era uma âncora só revelada pelo seu desaparecimento, é sempre algo a que me entrego com irreflectido prazer.

A questão não se prende só, ou sequer principalmente, com os cigarros, mas com toda uma atitude perante a vida que está associada ao deixar de fumar sem que tenha havido um acontecimento visível que o provocasse. Isto promete.

Estranhamente, ou se calhar nem tanto, a fonte da minha perturbação identitária mais violenta está a partir da projecção que eu faço da minha imagem para mim próprio. Digo estranhamente porque não estou a referir-me à situação em que me pedem um isqueiro e eu, sem hesitações, digo que não tenho, ou àquele momento divertido em que fui confrontado com a decisão do lugar de fumador ou não fumador no comboio e em que me apercebi claramente de que tinha “mudado de lado”. Embora tudo isto sejam sensações mais fortes do que à partida as imaginava, e são-no, muito provavelmente, porque o meu anterior “lado” estava há muito debaixo de um fogo antitabágico que vai insidiosamente injectando os seus desconfortos, também tem servido para me divertir alguma coisa às minhas próprias custas. O que me perturba é reparar que me imagino nas situações futuras a fumar. Eu enceno sempre o futuro imediato e previsível. É um exercício de utilidade prática nula, uma rotina que o meu cérebro corre automaticamente, talvez como forma de dar escape a algum voyerismo reprimido, talvez só como forma de manter as inseguranças entretidas ao ponto de não se tornarem impeditivas. Mas agora reparo que, nessas encenações mentais, nessas cenas dos próximos capítulos que nunca me esforço por tornar reais, eu apareço sempre a fumar. Para que se perceba a gravidade da situação, eu não imagino a minha própria figura com formas muito definidas, e isto não é algo que eu controle previamente porque tudo isto é um exercício largamente involuntário, mas se há uma coisa que está indubitavelmente associada a essa figura vaga é o cigarro. E agora as perguntas a que (ainda?) não sei responder: isto já era assim e só agora reparo ou passou a ser assim desde que deixei de fumar? Será isto a manifestação em acordado dos sonhos que os ex-fumadores costumam ter com tabaco (e pelos quais ainda não dei) ou será isto algo que já vem de trás? E não será qualquer uma das respostas possíveis às perguntas anteriores igualmente sintomática? O certo é que se o processo de experimentar uma droga nos leva sempre a descobrir partes do nosso cérebro que nem sabíamos que existiam, o mesmo se passa com o processo de nos desviciarmos dela. Trágica e previsivelmente, ganha-se com os dois.
Piscicultura
Fomos capazes de inventar a roda, a máquina a vapor, o avião, o forno de micro-ondas, os satélites geostacionários, a bomba atómica, a internet, a pastilha elástica com sabor a frutos silvestres, o cinema, as drogas inteligentes e etc. Fomos capazes de criar uma transcendência tão boa que até precede e gera os seus próprios criadores, fomos capazes de ir à Lua e voltar, fomos capazes de impor as nossas vontades à natureza, fomos capazes de tornar todo o planeta comunicável numa questão de segundos e por aí fora. Mas ainda não fomos capazes de coligir o repertório completo dos evitamentos, dos olhares que não se cruzam, dos contactos físicos involuntários que têm de ser prolongados para uma banalidade fabricada na hora, em suma, de todas a formas de não dizer que era bom, mas (agora) é melhor não. O milagre da acumulação intergeracional de conhecimentos só chegou ao que não interessa e, enquanto não chegar, não passaremos de versões patéticas e sofisticadas de sardinhas. E é isso que nos vai valendo.
Conjunção coordenativa adversativa sintomática  
Ainda nem há 15 minutos, nas escadas do TAGV, fui abordado por uma senhora a caminho de idosa, acompanhada por uma jovem, que tentava descobrir se o teatro estava fechado porque era costume ou simplesmente porque sim:

- Desculpe, o senhor é estudante?
- Não.
- Ah... - silêncio, hesitação e, depois, estranheza. - Mas é aqui de Coimbra?

Decidi sentir-me lisonjeado, mas só desta vez.
Terça-feira
11:45, cimo da Avenida Sá da Bandeira, Coimbra. O 7 pára, eu entro, introduzo a senha de 3 viagens no obliterador de bilhetes que indica no visor o registo daquela viagem mas não devolve a senha. Pouco habituado a estas estranhas máquinas dos autocarros, meio de transporte que já não usava há uns anos, olhei em volta com cara de ponto de interrogação. A senhora que estava sentada no banco mais próximo da porta confirmou que “devia ter saído”. Virei-me para o condutor que me perguntou, antes de eu ter tempo para apresentar a minha perplexidade, “não saiu?”. Eu confirmei e ele, por detrás de uns impressionantes óculos escuros que lhe davam um ar estranhamente mafioso, pediu-me para esperar pela próxima paragem. Na paragem seguinte, entrou mais uma passageira a quem o motorista pediu que aguardasse um pouco antes de inserir o bilhete no obliterador. Esse pouco foi tão-somente o tempo necessário para que o motorista puxasse o travão de mão e desligasse o autocarro na ignição – sim, desligou o autocarro. Mais um segundo de espera e voltou a dar à chave, ligando novamente o autocarro e provocando, com isto, que o obliterador cuspisse violentamente a minha senha de 3 viagens. Tentando não mostrar hesitação, apanhei a dita cuja do chão e olhei para os restantes passageiros com esperança/medo (riscar o que não interessa) de que toda aquela cena estivesse a provocar o início de um ataque de pânico colectivo com consequências imprevisíveis para o futuro da humanidade, mas estava toda a gente imperturbável. Ainda um pouco incrédulo, afastei-me da entrada do autocarro, ocupei um lugar em pé junto à porta de saída e aí fui acometido de um desejo corrosivo por iogurte Dupla Delícia de pêssego-manga da Longa Vida, necessidade que só pude satisfazer algumas horas mais tarde.
(Equin)ócio
Tenho isto aqui há meses para ser lançado no equinócio e não vai ser esta chuva tão inconveniente como a sua falta, que ainda por cima não servirá para resolver os problemas da aridez lusitana, o bastante para me demover dos meus sagrados objectivos. Pode o tempo estar como quiser lá fora que aqui dentro estará sempre luminoso, airoso e bem cheiroso. Sejam bem-vindos(as) à Primavera, agora também disponível com sabor a circuito integrado.
Diário incompleto de um drogado trasnsdérmico
No passado Domingo, dia 13 de Março de 2005 A.D., fumei aquele que veio a ser o meu último cigarro até mais ver. A parafernália medicamentosa já estava há uns dias a postos, esperando iniciar a sua missão de substituição dos cigarros com a chegada do dia previamente decidido. Era para ser apenas mais um cigarro, afinal ainda pouco passava das 11 da noite, mas a crescente ansiedade levou-me a decidir uma ida precoce para a cama e aquele acabou por ser, sem glória nem festejos, o último cigarro.

Em 2002 aconteceu a mesma coisa a Durão Barroso: toda a gente o tinha como mais um líder transitório do PSD que seria substituído por alguém a sério a tempo das eleições que se previam para daí a 1 ano e tal quando, inesperadamente, o Governo de Guterres cai e lá foi ele para Primeiro-ministro. Acontece aos políticos, acontece aos cigarros, é uma das grandes e inevitáveis leis da vida.

Espero não ter, daqui a uns tempos, o desprazer de uma versão tabágica e pessoal do Santana Lopes, caso em que, à cautela, não hesitarei em dissolver-me.

Isto tudo para dizer que faz hoje 5 dias que deixei de fumar. Não é que me pareça especialmente útil tentar substituir a falta de cerimonial do último cigarro com o assinalar de uma efeméride ainda tão precária. Cerimoniais, deixá-los-ei para as minhas últimas palavras, já há muito decididas e cuja pronúncia está prevista para daqui a uns anos, quando estiver numa cama de dossel, acompanhado pelos meus acólitos e uma Playstation. Este anúncio deve-se à minha necessidade de assumir perante esta sociedade que faço o favor de aturar a minha condição de drogado transdérmico, algo que tenho escondido por razões que se prendem com a tentativa, porventura fútil, de preservar os bocados restantes da minha estabilidade emocional ao longo de um processo que promete ser bastante complicado. Mas agora chega. Não, eu não sou aquele ser impoluto que os olhos enganadoramente vos apresentam: eu ando com um penso apenso ao ombro que continuamente dispensa ao meu organismo uma dose cavalar de nicotina e esta será a minha realidade durante os meses ou anos necessários ao desaparecimento do vício psicológico.

Durante os próximos tempos hei-de dar conta, aqui neste espaço, dos progressos, fracassos e reflexões suscitadas por esta minha nova e perturbante condição. Para já, quero terminar e não pensar mais nisso hoje, mas não sem antes deixar uma palavra de agradecimento à Pfizer, fabricante dos Nicorette que diariamente colo no ombro, pelo excelente produto que desenvolveu e, principalmente, pelo facto de não lhe ter chamado “pensos”, “selos” ou outro desses nomes ridículos que os menos informados chamam às coisas. Saber que o que estou a colar na pele todas as manhãs é nada mais, nada menos que um “sistema transdérmico” tem um efeito psicológico… avassalador. Obrigadinho pela ajuda.
Orgulhosamente sós


Temos então à esquerda uma linda imagem do Envisat relativa ao estado bastante nevado da Europa na semana passada, indecentmente roubada ao sítio da ESA, onde têm mais fotografias bonitas acerca de outros assuntos menos desagradáveis e onde se diz que "The one country the snows did not extend to is Portugal, which is currently undergoing a serious winter drought. "

E à direita temos, primeiro o estado da nação em Fevereiro de 2004 e, depois, a tal "serious winter drought" em Fevereiro deste ano, em duas magníficas fotos cortesia da NASA que tive o cuidado de roubar ao Público.

Digam lá se a coisa assim comparada não consegue ter ainda mais efeito que o horror provocado pela capa do Público de hoje?
Império
Vocação para a aparência  
Uma vez que tenho consciência de que ainda há algumas pessoas que não leram o livro, tomo a liberdade de transcrever uns excertos, que obviamente não devem substituir a leitura do todo.

“É no meio dos pequenos objectos que [o português] se sente à vontade, é neles que investe enchendo a casa de mil bibelôs, fotografias, cobrindo as paredes com coisas pequenas (...). O pequeno representa o tamanho perfeito, adequado ao seu investimento afectivo."

“(...) Se nós somos os ‘chineses do Ocidente’, nem um pouco nos assemelhamos aos japoneses. É porque não conhecemos o vazio nem por ele nos sentimos atraídos”

“Há talvez uma barreira que contribui para isso, a fascinação-repulsa que sentimos pela ausência. A ausência não é o vazio, contraria-o mesmo, em certo sentido. A ausência diz-se de uma presença, enquanto um vazio não se reporta a um cheio. O vazio é primeiro, está aquém da ausência de tudo. Quando toda a presença desaparece e deixa de haver lugar a preencher por uma coisa, então surge o vazio primordial de onde sairão as forças para, precisamente, criar, agir, pensar.”

“(...) Os portugueses são particularmente sensíveis à ausência, o que os faz constantemente ansiar pelo pleno.”


José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir.

Isto vê-se quando se entra na casa portuguesa, em que a multidão de objectos destinados a preencher o vazio já mal deixa espaço para o pão e vinho sobre a mesa. A casa portuguesa não tem um intervalo em que o olhar não encontre algo que foi colocado com o único propósito de fazer companhia, de enganar a solidão a que o nosso défice de relações pessoais significativas (ou com o significado que aprendemos a esperar delas) remete o quotidiano da larga maioria das pessoas, mesmo, ou principalmente, das mais insuspeitas. Pode-se ir mais longe que dizer dos portugueses que o vazio não os atrai, o vazio repugana-os, talvez, como escreve José Gil, por a ele associarmos a tal ausência. A vida, os espaços vitais dos portugueses, estão cheios até à saturação de coisinhas, de simulacros de algo que não conseguimos nem sabemos como obter, e isso vê-se como em mais parte nenhuma na casa portuguesa. Esta atitude tem dois efeitos imediatos: a destruição da arquitectura e a destruição dos próprios objectos.

Comecemos então pela destruição da arquitectura. Conceber uma casa para ser usufruída com prazer é, em Portugal uma perda de tempo. Imaginar a distribuição e divisão dos espaços de acordo com aquela que poderá ser a sua utilização harmoniosa e potencialmente indutora de um acréscimo na qualidade de vida de quem os venha a ocupar, ou seja, boa arquitectura, é deitar dinheiro pela janela fora. Meses de trabalho serão prontamente soterrados por bibelôs de todas as sortes e feitios pela mão decoradora dos habitantes. Aquela casa tão boa, tão espaçosa, tão luminosa e agradável, será irrevogavelmente habitada por objectos que concederão alguns estreitos corredores de vazio pelos quais as pessoas, suas convidadas, terão permissão para se movimentar: as casas em Portugal são sempre pequenas, independentemente das suas áreas.

Há uns anos, fiquei fascinado com uma casa alugada por uns conhecidos, que tive a oportunidade de visitar ainda em cru. Não era, a bem dizer, nada de especial, apenas uma antiga casa urbana de província, com os defeitos vulgarmente adstritos ao género, relativamente grande mas feita de divisões pequenas. Um pormenor, no entanto, dava àquele primeiro andar um charme difícil de encontrar nos apartamentos modernos. Acabados de subir as escadas, que faziam um canto, tínhamos à nossa frente um corredor comprido, com entradas de um lado e outro para várias divisões, que terminava, imagine-se, numa janela. Aquele fim de corredor não tinha sido aproveitado para uma casa de banho minúscula, não tinha sido comido pela engorda de nenhuma divisão e, ainda por cima, tinha uma janela que, embora sem vista para mais que a parede exterior do prédio em frente, dava à casa um espaço, uma luz e uma vontade de brincar raros. Quando voltei à casa, passadas umas semanas, já ela se encontrava mobilada e, portanto, completamente destruída. Os apertos financeiros que aconselhariam a compra de bens estritamente essenciais não foram suficientes para impedir os locatários de matar o corredor, cuja janela estava já coberta por uma cortina e precedida pela eterna mesa de camilha gloriosamente encimada por uma taça cheia de resíduos vegetais secos e perfumados. De casa antiga e encantadora, passou imediatamente a casa velha e apertada sem qualquer vantagem sobre o vulgar T qualquer coisa.

Depois, temos a destruição dos objectos. Imagine-se a família portuguesa a mudar-se para uma casa maior. Com ela, vem tudo, como é natural, desde mobília a electrodomésticos, passando pelos cacarecos. O plano de ocupação da nova casa está condicionado não à sua utilização, mas às possibilidades de arrumação da tralha, que será colocada de forma mais ou menos mimética em relação à habitação anterior. No entanto, há um problema, algo que constitui uma fonte de angustia desde o primeiro momento. A casa nova é maior e tem aquela grande parede branca, lisa, vazia. O que faremos “àquilo”? Não há, de entre a escolha preexistente, nada que chegue para encher aquele espaço, pelo que terá de se arranjar “alguma coisa” que, por obra e graça desta necessidade, se transforma automaticamente em “qualquer coisa”. A partir deste momento, já não é importante que “coisa” irá ser arranjada para pendurar naquela parede. Uma peça de artesanato comprada naquelas férias, a carta astrológica de 2005, a fotografia dos antepassados, um pirilampo mágico, uma máscara veneziana das Colecções Philae, um Picasso original, um calendário com a Pamela Anderson, um tapete de arraiolos, 300 moldurinhas com flores feitas de escamas de peixe pintadas, uma chusma de pratos de louça de Coimbra, um poster do filme da nossa vida ou o quadro do menino a chorar são todos a mesma coisa: tralha indiferenciada. O valor sentimental, artístico ou simplesmente monetário de qualquer objecto naquela parede, e naquela casa, está já colocado ao nível da parte de trás da sanita como mais uma coisa que dá trabalho a limpar. É mais uma coisa de que temos que nos desviar, é mais uma coisa que tem de se afastar para se ir para, uma coisa que tem de se mudar de sítio porque ali atrapalha quando, um buraco que tem de se tapar quando mudarmos novamente para o senhorio não protestar. Acabou-se.

O pior, é que a nossa vocação para asfixiar a vida com tralha não se passa unicamente ao nível do nosso espaço doméstico. Não se passa, aliás, só ao nível do espaço físico. É uma vocação para transformar tudo em aparência, para a anulação da substância, que daria muitas e boas conversas em torno de muito e bons livros. E não só.

Mistério Intriga Suspense
O enorme vaso redondo de sardinheiras tinha permanecido sobre o parapeito da varanda do primeiro andar vários anos após todo o prédio ter sido abandonado. Talvez o peso do vaso tivesse demovido os herdeiros da morte que vagou o último apartamento, talvez os bombeiros o tivessem pensado um ornamento do edifício, e ele lá foi ficando por cortesia da física com as suas sardinheiras, gigantescas por cortesia da biologia, empoleirado num prédio cortesmente mantido enquanto tal por umas escoras mandadas pela protecção civil.

Tudo isto e mais que não interessa até um dia em que a dissolução do parapeito e do resto a que permanecia agarrado foi ajudada por uma brisa vulgaríssima, daquelas que correm quase todos os dias pela cidade quando o sol já prepara a sua descida final. Teve azar a Dona Vina, velha diminuição de algo já ignorado até pela própria, que naquela altura descia a rua ajoujada com os sacos das compras e os pés contraídos na tentativa de agarrar as pantufas de trazer por fora ao empedrado íngreme da rua. Menos 30 metros e ainda estaria na mercearia a pagar os enlatados e as 2 horas de conversa; mais 20 metros e já estaria a debater-se com as escadas decrépitas do seu terceiro andar alugado por trocos e um sorriso engelhado. Esse último trabalho foi-lhe poupado pelo vaso de sardinheiras, que lhe acertou em cheio na cabeça para logo se precipitar no chão com ela. Junto ao prédio escorado, o vaso partido em dois grandes bocados e uma quantidade de cacos minúsculos, um monte de terra que parecia nascido das pedras do chão e as sardinheiras, como sempre ostentando a sua fleuma vegetal perante os acontecimentos humanos. Mesmo ao lado, ocupando o que restava da largura da rua, a Dona Vina caída de borco com os braços quase junto ao corpo e os sacos quase junto aos braços. Pela rua abaixo, latas de comida e alguma massa encefálica, esta prontamente devorada pelos cães decorativos do bairro a quem aquilo fez lembrar a ração de tempos melhores.

E a seguir não voltou a acontecer nada capaz de alterar o delicado equilíbrio da cidade por tanto tempo que até pareceu para sempre.
Pornoleaginosa
Estimulado por um acaso que me reavivou a memória, aproveitei a minha última ida ao hipermercado para procurar as adoradas mas entretanto esquecidas Yayitas, da Lu. Os meus olhos percorreram as prateleiras na antecipação da leveza matinal das Yayitas de maçã ou da suavidade exótica das Yayitas de ananás para só encontrar o infortúnio e a decepção: não só aquele que foi um dia um dos melhores produtos da categoria de inutilidades alimentares está remetido para a prateleira de cima, longe da passagem natural do olhar de quem tenha menos de 2,2 metros como já só se encontra nas duas variedades menos interessantes e um bocado burgessas de mel e de chocolate, pesadas, farelentas e estupidamente doces. Houve, portanto, um desinvestimento dos responsáveis nas Yayitas.

Controlei a minha fúria e o impulso de provocar um escândalo, derrubar algumas prateleiras ou cortar os pulsos e procurei algo que pudesse fazer as vezes das saudosas Yayitas, sabendo de antemão que tal não iria ser tarefa fácil. Não se tropeça todos os dias em algo de bom, aromático mas discreto, que se baste e que não colida com um chá verde com limão e que, ainda por cima, não seja demasiado doce. E nesta busca que reparei naqueles pequenos paralelepípedos verdes com uma abertura por onde se vê o celofane que envolve os Almond Thins, da Anna’s (baked in Sweden). Uma rápida vista de olhos pelos ingredientes foi tudo o que precisei para me decidir: farinha de trigo, açúcar, margarina vegetal, açúcar [não é engano meu, vem repetido, e nota-se pelo valor calórico, que omitirei por pudor], xarope de açúcar de beterraba, amêndoa (4,3%), bicarbonato de sódio, cravinho, aroma de amêndoa. Sem erros ortográficos nem nada. Isto de produtos suecos é outra conversa.

Agora que já provei, posso descansar o mundo quanto ao desaparecimento das Yayitas: elas já não são precisas e podem percorrer descansadas o seu deprimente caminho em direcção ao oblívio. A experiência de comer Almond Thins é inigualável, capaz de fazer renascer recantos da mente humana adormecidos há vários milénios onde a verdade primordial do nosso parentesco remoto com a amendoeira se torna evidente. O simples momento em que o celofane é violado e aquele cheiro quente e caseiro invade as nossas narinas, recordando-nos que também elas são zonas erógenas, já vale, só por si, o dinheiro que a caixa de biscoitos custou. Mas isso é apenas o início. O tocar nos biscoitos finos e em forma de flor, o acariciar as suas subtis rugosidades (a face inferior é fabulosa), sentir aquela fragilidade tão firme e a forma como estalam dentro da boca sem se esfarelarem mais que o estritamente necessário à degustação e posterior ingestão... Aliás, o trincar constitui um momento cuja descrição lançaria este blog para o campo da pornografia pura e, especialmente, dura, pelo que não me alongarei mais. O melhor que vos posso dizer é que experimentem, de preferência acompanhados por um chá quente, uma lareira, um mocho na magnólia do jardim e mais ninguém nas proximidades.
Besta assassina
Chegar a casa cansado e ser recebido com um bocejo tão artilhado é outra coisa...

Bússola
É tão fácil perder aquilo com que se quer ficar. Um descuido é quanto basta para se ficar privado de um simples objecto simples. Um cálculo errado na extensa e indecifrável contabilidade dos sentimentos e lá se vai um simples objecto de desejo. Uma distracção no olhar e já nos perdemos do caminho que queríamos percorrer. Uma dose excessiva de orgulho e nunca mais nos encontramos no objectivo que os sonhos silenciosamente revelam como sendo o correcto. Tudo aquilo que ou de que não nos queremos perder é fácil de nunca mais encontrar, tão fácil que até está ao nosso alcance provocar a perda de forma consciente.

O difícil, mas mesmo muito difícil, é perdermo-nos de nós próprios. Essa perda, essa magnífica perda, não pode normalmente ser provocada a não ser às custas da mais pura irresponsabilidade e de um fechar de olhos perante as outras perdas que vêm agarradas a esta. A alternativa, pouco corajosa, é pormo-nos a jeito, mesmo na beirinha dos rochedos e esperar que a onda certa apareça e nos leve. E ter esperança de que o medo não nos prenda demasiado ao chão. E perder a bússola, por descuido.
Head & Shoulders
Como já tive oportunidade de explicar aos mais ignaros e repito agora para os mais distraídos, as estatísticas de um sítio na uebe versam sobre os mais diversos assuntos, desde o número de acessos até às expressões que, utilizadas em motores de busca, trouxeram navegadores a esse sítio, ou os dados clínicos confidenciais de todos quantos a ele acedem (calma, esta última não era a sério). Os dados acerca das buscas são normalmente tão interessantes como intrigantes, pois se há expressões utilizadas em buscas que correspondem quase exactamente a passagens de texto neste sítio, tornando-se óbvia a razão pela qual o motor de busca apresentou o AGRAFO entre os resultados, outras há que eu não percebo. E agora perguntam-me vocês todos juntos: “E estás ralado com isso?” Ao que eu respondo todo junto: “Não, não estou.” O que me rala, por assim dizer, são as coisas que as pessoas procuram e não a razão pela qual a busca apontou para aqui.

Mas ao consultar as estatísticas do recém finado mês de Fevereiro de 2005, um esgar grotesco de pavor tomou conta do meu rosto. As estatísticas são omissas quanto a tudo o resto menos isto: alguém veio parar a este sítio, que eu mantenho com o suor do meu rosto, depois de ter feito uma busca por “caspa metafísica”. Mas que tipo de pessoa é que faz uma busca na net por “caspa metafísica”? Eu próprio também já fiz algumas buscas que não me atreveria a confessar às paredes (e algumas delas com resultados ainda mais inconfessáveis...), mas “caspa metafísica”? E quem quer que o tenha feito, fê-lo recentemente, algures durante estes últimos 28 dias. É alguém que, provavelmente, tem um aspecto perfeitamente anónimo, que anda por aí na rua, que está no meio de nós, com quem partilhamos a fila no supermercado. Quem sabe até se não será uma pessoa que, fascinada pela minha prosa melíflua e cativante, está neste preciso momento a ler estas palavras?

Confesso que estou um pouco assustado.
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