Uma questão de obsessão nacional
Ontem à noite, a notícia da SIC sobre a sentença do caso de abuso sexual de menores nos Açores (mais conhecido como "Caso Farfalha") revelou um pormenor interessante. Passe alguma incorrecção de estar a escrever de memória e as imprecisões habituais nos jornalistas, foi dito que o tribunal tinha considerado inconstitucional a lei que pune os actos homossexuais com menores por esta diferenciar a gravidade dos crimes de acordo com a orientação sexual de quem os pratica. Ou seja, parece que esta aberração jurídica, mantida pela cobardia típica dos nossos legisladores com o argumento de que a lei reflecte o sentir da sociedade ou coisa que o valha ("esquecendo" que a lei também produz o sentir da sociedade), foi desmarcarada. Mas agora temos um problema: não fora a edição impressa do Público falar do assunto e eu ficaria convencido de que tinha ouvido mal, já que a avaliar pelas edições em linha dos vários jornais, rádios e televisões portuguesas, esse curioso e manifestamente irrelevante pormenor nunca aconteceu.

Agora podia continuar e dissertar sobre como em Portugal praticamente só há casos de abuso homossexual de menores e como os poucos casos que vêm a lume de abuso (hetero)sexual sobre menores do sexo feminino são algo que, como se tem visto, não interessa a ninguém. Mas não me apetece.
Os dias contados
A médica dos bofes proibiu-me de beber chá verde.

[Pausa longa e grave].

Segundo ela, o consumo excessivo de chá verde pode ser a explicação para uns valores estranhos que o meu fígado evidenciou nas análises ao sangue. E agora vou ter de fazer análises ao sangue todos os meses durante 6 meses. E vou ter de frequentar consultas de gastrenterologia ou coisa que o valha. E os meus pulmões parecem estar numa excelente forma com a excepção de um pequeno nódulo no bofe esquerdo. Deverá ser uma lesão antiga, o resultado de um contacto infantil com a tuberculose que não deu em nada. Ela diz que é vulgar. Ela diz que certamente não é nada. Ela diz que só era grave se eu continuasse a fumar, uma vez que o nódulo poderia malignizar, coisa que não sucedeu até agora.

Mas apesar disso ela quer que eu faça uma TAC tic TAC tic TAC.

[Pausa longa e grave]

Uma TAC tic TAC tic TAC que, em virtude do lindo estado em que os SNS está, me foi marcada para daqui a quase 3 meses. Tic TAC.
Recolher obrigatório
Urge criar uma realidade em que certos acontecimentos recentes e não só sejam imediatamente substituídos por outros mais à medida das capacidades presentes e aspirações futuras. Na previsível ausência de uma perfeição em que não haja resistentes, os apedrejamentos necessários (para os quais deverão ser recrutados todos os interessados) deverão ser efectuados com outro nome, de preferência bonito e esdrúxulo. "Sobrevivência" poderá ser uma das opções a considerar. Acima de tudo, nunca esquecer que o passado vive do futuro que lhe damos. Acima de tudo, agir sempre com naturalidade.
A solução final
Desde a primeira vez que o vi que soube que um dia alguém teria de tomar uma atitude. Sim, uma quantidade apreciável de mamarrachos também é necessária ao cosmopolitismo que alguém há-de querer para Lisboa sempre que umas eleições autárquicas se aproximam, mas há limites que foram ultrapassados. Falo, como já se está mesmo a ver, daquela pústula colocada na berma da maior via de distribuição do tráfego rodoviário de Lisboa e que dá pelo nome de Estádio Alvalade XXI, presentemente mais conhecido por dar abrigo a um igualmente lindo centro comercial de nome laxante e decoração vomitiva. Entendamo-nos: nada de especial me move contra o clube a quem aquilo serve de residência "desportiva", que até foi, nos velhos tempos infanto-juvenis em que eu ainda não tinha percebido que se pode viver sem ser adepto de um clube de futebol, o meu clube. O meu problema é mesmo com os direitos visuais dos cidadãos e cidadãs deste país (e de outros) que, sem que tenham cometido qualquer crime que justifique tal pena, são forçados a olhar para aquilo.

A solução, que ofereço livre de direitos a quem ganhar as próximas eleições autárquicas, passa, convenientemente, por transformar aquele que é o maior aborto estético de Lisboa numa obra de arte pública capaz de projectar o prestígio da nossa capitalzinha galáxia fora, coisa muito melhor que projectá-la Alvaláxia dentro. Pode não sair barato, mas até nem é complicado e tem sucesso mediático internacional assegurado: comissionar a Christo e Jeanne-Claude um dos seus famosos embrulhos, neste caso em material apropriado ao carácter permanente da obra. Alguém dê o recado ao Dr. Carrilho, se faz favor.
Os insondáveis desígnios do Senhor (atenção: diatribe anti-clerical descontrolada)
E o Espírito Santo desceu novamente à Terra, desta feita sob a forma casta e higiénica de 115 boletins de voto preenchidos por velhotes do sexo masculino, com o propósito de transformar em papa o que de mais parecido havia com a figura de inquisidor-mor. O Espírito Santo nunca se desloca por coisa pouca e esta não foi uma excepção, ainda que, já de partida, se tenha descuidado ao entregar a questão do fumo branco/fumo negro/sinos a rebate em mãos humanas e portanto incompetentes. Tinha sido escusado e só não estragou a mística da ocasião porque os canais de televisão exploraram bem o atabalhoamento.

Bento Dezasseis de sua novíssima graça (Joseph Ratzinger de sua velha desgraça) foi, ao longo dos 23 anos em que ocupou o cargo de Ministro da Ideologia e Censura de Vatican City e enquanto eminência parda por detrás da face popularucha do falecido João Paulo Segundo, a prova flagrante de que o ecumenismo e as palavras de paz e amor ditas para as câmaras de televisão nem sempre eram de uma sinceridade desarmante. Mas agora que está investido nas suas novas funções de déspota obscurantista de um bem sucedido entreposto de lavagem de dinheiro da droga e da venda ilegal de armas e do encobrimento do abuso sexual de menores, terá de delegar em alguém igualmente férreo as funções que até ontem desempenhou com tanta dedicação a coberto dos reposteiros púrpura da Santa Sé: eliminar do espaço público os seus ministros mais tresmalhadiços e insultar por via da menorização tudo quanto se atrevesse a não ser 100% católico. O desgosto pelo abandono dessas funções será com certeza compensado pela profusão de bons candidatos ao lugar.

Por cá, pelo canteiro à beira-mar abandonado, temos a felicidade de não haver grandes histerias porque o novo papa é alemão (quando o outro disse José fiquei sem pinga de sangue), nacionalidade que não excita ninguém, ao mesmo tempo que podemos estar descansados quanto ao bom seguimento das papeladas relativas ao processo de canonização dos pastorinhos-crianças e, quiçá, de beatificação da lavada ao cérebro mais famosa do século XX, Lúcia de Jesus. Afinal, Ratzinger foi um dos grandes impulsionadores do culto mariano, essa espécie de plasticina teologicamente absurda que lá vai cumprindo a função de disfarçar (mal) a misoginia mórbida da ICAR.

Se a eleição, perdão, escolha de um papa com estas características representará um novo fôlego para a já grande e ameaçadora vaga ultra-conservadora que pretende submergir a humanidade numa espécie de novas trevas ou se, pelo contrário, será um valente tiro no pé da ICAR enquanto figura de proa desse mesmo movimento, isso, passe o chavão, só o tempo o dirá. Como o este senhor já é velhote, pode ser que se apresse a tomar as suas medidas e não tenhamos de esperar muito para ver quais eram, afinal, os insondáveis desígnios do Senhor.
Quarto mundo
A incrível e totalmente falsa história do menino que sempre quis ser agente secreto ao serviço de Sua Majestade mas a quem as deficiências do sistema educativo mais não permitiram que ser agente patogénico suicida ao serviço da Al-Qaeda ficará para sempre por contar, como tantas e tantas. Mas também, que raio de tarado é que conta ovelhas para adormecer?
Kool
Nem seria eu se ontem não tivesse aproveitado uma ida profissional ao Porto para trocar a hora de almoço por mais uma oportunidade de fazer figura de japonês parolo e fotografar a Casa da Música até cair para o lado (eu, não a Casa).

O objecto tem pormenores engraçados, como este em rigoroso exclusivo AGRAFO PONTO NET, mas acima de tudo cumpre a difícil função de tornar o aborto que é a Rotunda da Boavista num local com algum interesse. Foi preciso cair um calhau do espaço, mas conseguiu-se.
Road music
Fiquei contente por saber que está em fase de estudo uma nova lei que obrigará os condutores a ouvir exclusivamente música de Eric Satie enquanto conduzem. Não faço a mais pequena ideia de como pretenderão passar esta lei à prática, de como tencionarão fiscalizá-la, se será o próprio Estado a fornecer os meios -- auto-rádio a quem o não tem, cassetes e CD com as obras do senhor -- e de como pretendem resolver as questões que serão levantadas com o inevitável choque entre esta medida e os interesses das estações de rádio, mas para já fica registado o bom gosto e a nova forma de encarar a problemática da sinistralidade rodoviária. Isto de Governos de esquerda é outra coisa.
Electrões (Primavera/Verão 2005)
O Tibério ainda tem em exposição intermitente uma expressão de profunda infelicidade a que poucos dos que tão bem o conhecem prestam atenção.
A Mavília descobriu que não devia ter exigido mais presença geográfica ao Balbino.
O Venceslau continua a exibir com alguma exuberância que a memória imorredoura da ex-namorada que ele na verdade nunca quis não lhe permite o desafogo sentimental necessário a arranjar outra que ele ainda menos quer.
A Rubina bate as asas mas não levanta voo por uma paixão que se proíbe e à qual portanto chama nomes maternais.
O Urbano há já muito descobriu que quanto mais anda mais se enterra mas continua na mesma vida por aparente falta de melhores opções.
A Rosenda continua a arranjar novos relacionamentos com pessoas giras e interessantes a um ritmo que em breve tornará possível o objectivo de não conseguir pensar em ninguém durante mais de 3 segundos por ano.
O Capristano parou de se ralar com a falta de rumo do seu casamento porque descobriu que tem coisas mais interessantes em que não pensar.
A Honorata esqueceu-se de que também tem alguma responsabilidade no que sucedeu e abriu outra vez a boca para dizer disparates de que só ela não deu conta.
O Fabiano morreu excepto para efeitos práticos.
A Arlete desapareceu mas reaparecerá em breve porque tal como ela temia está-se tudo nas tintas.
O Daciano acaba mais uma vez de descobrir que somos todos loucos.
A Guiomar acaba mais uma vez de descobrir que afinal não está doida.
Há de tudo como na farmácia
É engraçada a vontade com que os deserdados das religiões tradicionais abraçam as chamadas religiões alternativas, regra geral constituídas por bocados seleccionados do budismo e hinduísmo misturados com a interpretação mais conveniente das astrologias ao dispor. Ainda é mais engraçado ver quem se recusa a abandonar as religiões tradicionais receber de braços abertos a lufada de ar fresco do Zodíaco. Enfim, as pessoas são engraçadas e pronto, tal como eu sou engraçado neste meu niilismo inconsequente (que sempre é melhor que ser consequente e perigoso).

O Zodíaco apresenta uma grande vantagem sobre qualquer outra religião: não parece uma religião. Uma característica de qualquer crença religiosa é a de que não tem uma explicação racional. Ninguém viu um deus ou sinal irrefutável dele, tal como ninguém se lembra da sua própria alma encarnada noutro corpo e por aí adiante. A evidência de que os sinais divinos, porventura abundantes, só podem ser interpretados enquanto provenientes de um suposto além porque são procurados enquanto tal é grande e dá-se mal com uma interpretação mais básica da cultura científica (na realidade, não é necessário que sejam mutuamente exclusivos). O Zodíaco, por via da evolução que sofreu ao longo da sua já vasta história, apresenta-se hoje com uma aparência de ciência “dura” que não só permite aos seus seguidores a ilusão matemática de que não acreditam naquilo simplesmente porque sim, como que são “praticantes” de um método racional de explicação da realidade. Ou seja, são cientistas, uma categoria muito superior à de crente, por mais que essa superioridade se torne pouco evidente após alguns minutos de reflexão sobre factos conhecidos da História da Ciência, e são coitadinhos porque esse reconhecimento lhes é negado pelos poderes instituídos. Isto, claro, é válido somente para aqueles que se dedicam à coisa a sério, por oposição aos que lêem as previsões astrológicas da TV Guia e que são considerados pelos primeiros uma cambada de ignorantes que servem unicamente os propósitos mercantilistas de alguns charlatães.

Mas os signos do Zodíaco têm ainda outra vantagem: dão perfeitamente para encaixar noutra religião assumida enquanto tal e isto é particularmente útil no caso das sociedades cristãs. O cristianismo, e em especial a sua variante católica, descansam-nos quanto ao princípio (mesmo que não acreditemos na conversa do Adão e da Eva há sempre um deus vagamente antropomórfico no início de “tudo”) e quanto ao fim (mesmo que não acreditemos no paraíso e no inferno, há sempre uma esperançazinha na imortalidade da alma); mas o meio é uma grande trabalheira em que estamos sempre confrontados com a inevitabilidade de desiludir um criador de desígnios tortuosos e sadomasoquista. E é aqui que os signos do Zodíaco entram. Por mais voltas que os cultores “sérios” da prática astrológica dêem, por mais que acabem a dizer (por palavras que nem eles percebem) que a interpretação dos astros não nos diz coisíssima nenhuma, a verdade é que acreditar que as nossas deprimentes e tíbias personalidades são o produto de uma mecânica cósmica nos tira uma parte considerável do peso criminoso da responsabilidade por cada um dos nossos actos e da culpa que sentimos por não sermos capazes de os não cometer. Se há algo que hoje em dia já ninguém dispensa, é um bom analgésico, com vantagem para os que não precisam de receita médica.
Ele vive

fotografia digital de imagens televisivas SIC sobre suporte informático
2005
(colecção do autor)
Prática clínica
Passar as primeiras horas da manhã no hospital para fazer exames, assistir ao rápido e violento acordar para o público em geral daquele monstro clínico-burocrático que o avançar do dia não tornará menos estremunhado deixou-me com vontade de passar o resto do dia a ver filmes do David Lynch. Infelizmente, tal não será possível por várias razões sem interesse.
Bem entregues
Já não bastavam as suspeitas de crimes sortidos que recaem sobre árbitros e dirigentes, atletas e médicos; já não bastava termos tudo quanto é elemento da selecção nacional de futebol a utilizar a sua imagem, poderosa perante as crianças e jovens, para promover coisas cada uma mais altamente aconselhável que a outra (endividamento, hambúrgueres, cerveja, etc.). Não, termos a quase totalidade da população portuguesa acriticamente vidrada numa actividade que a vários títulos se tornou criminosa não era o suficiente: agora temos como estilista da equipa das quinas (o nosso orgulho e não sei quê) uma fulana que defende a utilização de peles verdadeiras no vestuário. A argumentação é, como seria de esperar de alguém com o calibre de Fátima Lopes, demolidora: “Até a Naomi que chegou a fazer publicidade contra as peles verdadeiras já as voltou a usar outra vez”.
Saudade
Realiza-se na próxima sexta-feira o funeral propriamente dito de João Paulo II (aliás Karol Wojtila), líder da ditadura teocrática mais bem sucedida de sempre. Convém que se esclareça que este sucesso se deve, acima de tudo à aplicação de um modelo de expansão que a Igreja Católica (ICAR) inventou há muitos séculos mas que só mais recentemente foi adoptado por outras actividades: o franchising. O segredo da consistência dos resultados, esse deve-se principalmente à inegável coerência de nunca ter diversificado a actividade para outros campos como a limpeza a seco ou a venda de hambúrgueres oleosos, mantendo sempre a sua intenção monopolista na sua área de negócio original, a mediação entre os reles mortais e o seu demiurgo psicótico.

Dentro em breve, virá um substituto, como sempre escolhido de forma obscura e à revelia dos biliões de pessoas cujas vidas serão por ele directamente afectadas, que terá a difícil e ingrata tarefa de tentar ser tão popular como o seu antecessor. Karol Wojtila, recorde-se, adquiriu uma boa parte do seu prestígio através de uma utilização eficaz dos media e de manobras como a do pedido de desculpa público pelos crimes passados da ICAR (renegou alguma inquisição, reabilitou Galileu) naquela que foi uma básica mas eficaz utilização do mais elementar senso comum para branquear a apologia (por via da beatificação) de personagens muito pouco recomendáveis da recente história universal, como o simpático Josemaría Escrivá, que fundou uma ainda mais simpática seita que dá pelo nome de Opus Dei, ou um Papa seu antecessor (Pio XII), que por acaso foi colaboracionista Nazi, para dar os dois exemplos mais conhecidos e elucidativos.

Não se trata aqui de negar as qualidades do senhor, que seriam certamente muitas, principalmente intelectuais, nem é minha intenção desrespeitar os sentimentos das muitas pessoas que por estes dias sofrem sinceramente a dor pela morte de alguém que representava algo de importante para elas. A minha intenção é, como agora se (ab)usa dizer, colocar as coisas em perspectiva, uma actividade particularmente difícil num tempo em que a exploração sentimental-mediática (ou vice-versa) dos sumptuosos e plurais funerais do Papa levam a uma completa anulação do espírito crítico que é bom nunca perder. Por outras palavras, não vou sentir grandes saudades de Karol Wojtila e da sua magnífica obra, nem vejo razões objectivas para que se sinta. E com isto espero dar este assunto por encerrado e não sentir a tentação de blasfemar descontroladamente nos tempos mais próximos. A menos que me provoquem, o que não é assim tão improvável...
Pessoa saudável
O meu regresso a este assunto é, mais do que uma ameaça de obsessão na costa, o reflexo de um receio que se me está a colar. Vamos começar por fazer um ponto da situação.

Quanto a tabaco, está agora a fazer 3 semanas que não passa pelos meus sensuais e carnudos lábios um cigarro que seja. Penso em desistir todos os dias, mas estou-me a aguentar muito melhor do que alguma vez sonhei ser possível.

O café já lá vai há uns anos. Continuo a tomá-lo, mas num regime de consumo esporádico, ora motivado pela vontade, ora motivado pela necessidade de permanecer acordado. Costumo substituí-lo por doses insanas de chá verde, mas não todos os dias.

O álcool et al. nunca foram regulares ou frequentes, com a excepção de breves períodos bem delimitados historicamente, como aliás me parece natural e corriqueiro.

Embora continue a cometer asneiras alimentares de algum calibre (quem me tira um Big Mac de vez em quando tira-me a razão de viver), agora potenciadas, embora de forma ligeira, pelo abandono do tabaco, esforço-me por ter uma alimentação variada e rica em frutas e legumes. Deu-me Deus Nosso Senhor a graça que espero infinita de não morrer de amores por doces nem por comida salgada ou gordurosa, o que me facilita bastante a tarefa neste campo.

Continuo a nutrir carinhosamente uma aversão petulante e suburbano-depressiva (os anos 80 nunca largam completamente uma pessoa que lá tenha passado a sua adolescência problemática) por exercício físico enlatado, vulgo ir para o ginásio bombar x horas por semana, mas é raro o dia em que não faça uma hora ou mais a pé, pelo menos quando o Instituto de Meteorologia mo permite.

Coloca-se então uma pergunta que me engulha a voz e tolhe a cabeça dos dedos: estarei eu a tornar-me numa... “Pessoa saudável”? Eu sei que esse caminho é uma possibilidade, que está aí, que é fácil de seguir e isso preocupa-me, bem como a hipótese da via concomitante-saltitante rumo ao fascismo higiénico. A minha grande esperança reside na tolerância e respeito que tenho conseguido manter, mesmo nos momentos mais difíceis, para com aquelas pessoas que, prisioneiras das suas fraquezas, persistem em dedicar-se à prática do vício nojento e criminoso de fumar. Enquanto nem me passar pela cabeça a ideia de comprar uma Uzi no mercado ilegal de armas (que só recentemente as autoridades portuguesas deixaram de conseguir fingir que não existe) para sair à rua numa fúria justiceira e limpar o sebo a todos os porcos drogados que andam para aí de cigarro na mão a conspurcar o ar que nós, os seres humanos, respiramos, creio que não haverá razão para me preocupar. Mas permaneço alerta para o surgimento de quaisquer sinais de anti-tabagismo primário. Se há coisa que não se perdoa é a vulgaridade.
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