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Há, mas são hidratos de carbono
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Ah, mas tu és alto. Ah, mas até nem se nota. Ah, mas estás bem assim. Ah, mas não te rales com isso. Ah, hihihi.
Ah, mas há dois pares de calças que vesti no Verão passado que agora resistem a deixar-se abotoar. Essa é que é essa.
Isto é, por mais que a cabeça se convença que é preciso apertar o cinto, não sei até que ponto a barriga estará para aí virada.
Ou seja, o espírito patriótico não anda em alta por estes lados, que me desculpe Sua Excelência. Volte a tentar daqui a uns meses. |
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Xis ideias para vender
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Estremeci quando vi que o tema de capa daquela revista chamada Xis que vem com o Público ao Sábado e que pretende dar-nos a todos e todas coisinhas (quaisquer coisinhas) a que nos possamos agarrar era, nada mais, nada menos que "Compreender o ateísmo". No interior da revista, o tema/dossiê “Ser ateu” é composto por 2 "artigos" (chamar-lhes-ei assim por conveniência de exposição) e uma entrevista, tudo da responsabilidade de Inês Menezes, que presumo jornalista daquela simpática publicação. Como já se está mesmo a ver, os artigos são feitos como hoje é feita a quase totalidade do jornalismo: com base em fontes contactadas para o efeito, de preferência não muitas, cujas palavras são depois convertidas em texto da autoria da jornalista. Neste caso, é exactamente isso que se passa, com a vantagem, justiça seja feita, de que as fontes são assumidas: Michel Renaud, "professor catedrático, membro do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa", e Vasco Pinto Magalhães, jesuíta "responsável pela formação inicial dos jesuítas e autor de vários livros sobre fé". Este último é também a outra metade da entrevista acrítica e de uma página que é feita a um "especialista na matéria".
Perante este cenário de entrega total de um dossiê sobre o ateismo a um membro do Instituto de Bioética da Universidade Católica e a um padre jesuíta, o que é que se entende dos títulos "Compreender o ateísmo" e "Ser ateu"? Entende-se que esta "compreensão" é aquela compreensão paternalista de quem desculpa os defeitos dos outros e que "Ser ateu" (ou agnóstico ou simplesmente laico, tudo colocado mais ou menos no mesmo saco, o que a mim até nem me incomoda) é ser portador de uma insuficiência muito frequente nos dias de hoje. Ser ateu/agnóstico/laico é, e isto percorre subliminarmente as 8 páginas cheias de certezas do dossiê da Xis, uma doença. Nós, os ateus/agnósticos/laicos, coitadinhos, estamos doentes e, presume-se, não devemos ser maltratados, até porque o ateismo pode ser saudável em circunstâncias muito específicas. Quais? Ora aqui vai a estrela maior do firmamento, fruto da colaboração Michel Renaud/Inês Menezes, e que dá uma boa ideia do tom geral da coisa:
Quando as imagens de Deus são idolatradas, o ateísmo é saudável e quase desejável. Para além disso, o ateísmo deve ser encarado como a possibilidade que todos os seres humanos têm de aceitar ou recusar Deus, sobretudo se e quando existe uma falsa imagem de Deus.
Sendo assim, muito obrigado, pela parte que me toca! A possibilidade de Deus não existir não é sequer colocada, a possibilidade de Deus existir mas não na forma em que os autores do artigo acreditam muito menos. Para que se saiba, a imagem verdadeira de Deus, tal como é estabelecida pelo Público, é a de um “Deus pessoal ou como entidade”. Isto para que aqueles que julgavam que lá porque acreditam na existência de uma energia universal está tudo bem se desenganem: isso não passa de “uma certa forma de espiritualismo” que existe "em determinadas filosofias contemporâneas". Nada de sério, portanto.
O que me irritou mais nesta farsa é que os dois senhores que podem ser considerados os verdadeiros autores do dossiê até nem dizem só disparates: as opiniões deles podiam ser interessantes no contexto de uma discussão saudável sobre a fé e o ateísmo. No entanto, aquilo que até podia ter sido um bom momento de jornalismo, coisa que de resto é cada vez mais rara, acabou na forma de um panfleto miserável contra, não só a ausência de crença em Deus, mas também as crenças em Deus diferentes das dos autores. O que é verdadeiramente nojento é isto passar-se debaixo daquela capa de açúcar, daquele "somos tão bonzinhos e boazinhas, tão compreensivos, tão prontos a desculpar os anormais que não pensam como nós". O mais preocupante, é já nem se darem ao trabalho de disfarçar para quem fazem os fretes. |
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E vão dois
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Encarar os altos cargos nas organizações internacionais de que somos membros como uma espécie de serviço de recolha de monos é uma ideia que me parece excelente. Claro que não há cargos que cheguem para nos vermos livres de todos os incompetentes de luxo que por aí andam à espera de uma nova oportunidade para fazer estragos, mas já não seria mau se conseguíssemos despachar mais meia dúzia. |
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Das causas perdidas
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Já se distinguia a poeira que levantava no horizonte como se fosse uma manada de búfalos. Mas, embora não seja uma manada de búfalos, vai-nos esmagar a quase todos: é o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice o défice, pá, o défice. Aquele que resulta de um problema de excesso do lado da despesa que tem meio mundo às aranhas e de um problema de fuga do lado da receita de que ninguém fala vá-se lá saber porquê. |
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Pedra de Roseta
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Mais por acidente que por outra razão, fui dar com o meu baú das velharias, nome pomposo para um conjunto de caixotes em estado de conservação um pouco vergonhoso onde guardo alguns miasmas do meu recôndito e obscuro passado.
Na realidade, fiquei tão fascinado pela experiência -- não sou muito dado a estes vasculhos -- que não resisti a partilhar convosco este magnífico objecto gráfico do início dos anos 80 (desconheço o ano exacto das eleições em causa, mas creio que foi 1982), altura em que Helena Roseta concorreu pelo PSD à câmara de Cascais e ganhou. Também podia ter exumado uns autocolantes do Soares e do Freitas, que são das coisas mais recentes que a minha colecção de autocolantes tem, mas achei este especialmente delicioso e ilustrativo de como mudam os tempos, mudam as vontades, mudam as rugas, mas não muda o "ar".
Agora estou preocupado por ter verificado que posso (embora ache que não deva) encher este blog durante meses a fio única e exclusivamente com velharias engraçadas que para ali estão ao semi-abandono. Será mais um excelente exercício de resistência a tentações com que certamente ganharei muito em termos de crescimento pessoal. |
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Angústia da bola
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Portugal é um país onde é facílimo ser-se uma “pessoa esquisita”: basta não gostar de futebol, não ser católico, não ser heterossexual, não ter um horário de trabalho convencional, não tirar férias em Agosto, não comer carne, não ter carta de condução, andar a pé sem ter necessidade de o fazer, ser solteiro depois dos 30, não ver televisão ou qualquer coisa irrelevante que só é assunto porque a diversidade em Portugal sempre foi combatida com o silêncio e com o disfarce. Há aquelas coisas que ninguém é e aquelas coisas que toda a gente é. Ponto final.
Este fenómeno tem manifestações cómicas (a quantidade esmagadora de “católicos não praticantes”), manifestações chatas (olha-se à volta e está tudo vestido com as mesmas roupas) e manifestações tristes, caso do número assustador de pessoas que tem como única forma de ocupação do seu tempo mental livre um desporto que há muito deixou de ser um jogo para passar à categoria de jogatana que mantém os seus adeptos num estado de irritação, indignação, frustração e truculência permanentes. Isto não tem nada que ver com o jogo do Sporting de ontem à noite, cujos pormenores desconheço, mas hoje sinto-me particularmente feliz por não ser vítima daquela forma particular de stress que é a angústia da bola. É bom ser esquisito. |
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Inspector Rousseau (da série «Um momento na vida de...»)
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Não havia marcas de arrombamento ou qualquer outro sinal de violência. O cadáver estava sentado na cadeira de aspecto desconfortável, com a cabeça caída sobre a máquina de escrever AZERT de onde saía uma folha com o texto:
«lulas à bordalesa amêijoas à bulhão pato bacalhau à brás posta à mirandesa amor à camisola esparguete à bolonhesa sopa à portuguesa tripas à moda do porto bacalhau à gomes de sá polvo à lagareiro hoje há caracóis carne de porco à alentejana atum à ramirez cerveja à discrição preços com iva incluído.»
O inspector Rousseau olhou lentamente em volta ignorando o olhar expectante dos agentes policiais que vagueavam sem destino pela sala, aproximou-se da enorme janela com vista para a baixa e sussurrou um inaudível estou fodido com esta merda. Já era o quinto caso em 3 semanas e era certo que também neste não haveria pistas de qualquer espécie. |
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Costas largas
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Como por certo repararam, as galerias de fotos estiveram inacessíveis durante alguns dias devido a... Chamemos-lhe "falha técnica". Mas já lá estão outra vez, agora graças à minha nunca suficientemente gabada competência. |
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O 13 de Maio e a cunha post-mortem
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Segundo o Público, o início do processo de beatificação de JP2 foi hoje de manhã anunciado por B16. De acordo com a burocracia da cúria romana, que certamente resulta de inspiração divina, estes processos de beatificação só podem dar-se 5 anos ou mais após a morte da pessoa em questão, a menos que o papa em exercício autorize a sua antecipação. Foi esse o caso, tal como o tinha sido quando o agora a caminho da santidade JP2 autorizou o início do processo de beatificação de Madre Teresa de Calcutá ainda ela não tinha arrefecido completamente.
Ficamos então a saber que a grande diferença entre a administração pública portuguesa e a administração divina de Vatican City não é o grau de corrupção, que como se vê é elevado em qualquer dos 2 sítios, mas o facto de que cá o importante é ser amigo de quem manda, ao passo que lá o que interessa é ter sido, em vida, amigo de quem manda. Tudo uma questão de tempos verbais. |
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Pensamento idiota da semana
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O tártaro que se cria nas canalizações por onde passam os nossos sentimentos e que torna inflexíveis as relações com os papéis a que nos sujeitamos faz-me pensar que a mudança é democraticamente abominada, contrariamente a tudo o que se ouve redito por quem quer que tenha alguma coisa a redizer. Por outras palavras, se vendes livros e passares a vender produtos congelados, a clientela vai-se toda para outra freguesia ao som de queixumes segundo os quais gostam muito de ti mas, estalo de língua, não dá porque já não vendes aquilo que te compravam. Deve ser sasonal esta minha dúvida sobre se existirá alguma diferença digna de palavras entre psicologia e economia. |
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O prazer foi todo meu
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Ameaçado pela desertificação geofísica, mas abençoado pela desertificação demográfica que infelizmente não atinge outras zonas do mundo que também a mereceriam, o Alentejo é uma das razões por que este país ainda vai valendo a pena. Quem tiver dúvidas deverá dirigir-se à secção de fotos deste vosso sítio, onde já está patente o produto da minha última incursão em regime nipónico pelo suave desconhecido. |
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Introdução às camadas de ausência (aula prática)
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Portalegre, cidade pela qual me detive um pouco mesmo pouco durante o último fim-de-semana, é o exemplo perfeito do meu conceito inovador de “camadas de ausência”. Uma camada de ausência é uma ausência de acção que permanecerá quando sobre ela for colocada nova camada/acção. Uma camada de ausência fica lá para sempre, é um vazio que nunca será preenchido, contrariamente à simples ausência que é preenchida quando sobre ela se coloca alguma coisa. É óbvio para o visitante arguto e esclarecido (eu) que o “ordenamento” urbano de Portalegre é feito de várias camadas de ausência cujos efeitos se vêem e sentem bem e que o escavacamento a que o Programa Pólis presentemente sujeita a cidade não contribui para aliviar.
À partida, nada de novo: uma cidade que necessidades do tempo em que os animais falavam fizeram com que fosse construída nos últimos montes de uma serra. Noutros locais do planeta, o desaparecimento dessas necessidades (militares, por exemplo) levou a que o desenvolvimento das cidades inicialmente construídas de acordo com aquele modelo passasse a ser feito nas zonas planas. Em Portalegre, como de resto na generalidade das cidades portuguesas em que isto é aplicável, o desenvolvimento continuou a ser feito às custas da densificação dos montes já ocupados e de novas construções nos montes adjacentes. O resultado, sobejamente conhecido por todos vós meus caros e caras, tem em Portalegre um verdadeiro parque temático: a cidade verdadeiramente inutilizável em que nem se consegue andar de carro nem se consegue andar a pé.
Pergunto-me se já terá passado pela cabeça de algum dos autarcas daquela cidade que aquilo não é coisa que se apresente. Já nem falo só do estacionamento anárquico, problema irresolúvel em qualquer localidade pequena, em que à tradicional falta de educação dos portugueses (condutores ou não) se junta a benesse de toda a gente conhecer alguém no posto/esquadra que lhe tira as multas. Acabado de chegar, verifiquei horrorizado que não só iria ter de parar em cima do passeio (coisa que devo ter feito 2 ou 3 vezes ao longo dos meus 12 anos de encartado e mesmo assim só por poucos minutos e em situações de grande aperto) como que iria fazê-lo sem quaisquer problemas de consciência. Que raio de diferença é que fazia? O bocadinho de passeio, transformado em estacionamento mesmo na parte em que a rua era suficientemente larga para não ser necessário incorrer nessa infracção, era isso mesmo, um bocadinho isolado de passeio. O resto da rua, sem passeio, tinha o lado em que era permitido estacionar completamente livre e o lado em que era proibido estacionar completamente preenchido por carros estacionados. A razão era simples: o lado em que se podia estacionar era o esquerdo, onde a ausência de passeio tornaria difícil a saída dos condutores... Mas também falo da permissão para se circular nos dois sentidos em ruas em que o mais elementar bom senso obrigaria à proibição pura e simples da circulação automóvel. Portalegre é patrocinada pelos fabricantes de espelhos retrovisores.
As obras do Pólis, que irão trazer à cidade a modernidade por que os seus habitantes anseiam ao ponto do enfarte do miocárdio, também estão a ser realizadas ao melhor estilo local, com farta lixarada e ausência de espaços para circulação das pessoas. Quem viva em Portalegre e se veja de um dia para o outro confrontado com a necessidade de andar de cadeira de rodas tem 3 opções: mudar-se, suicidar-se ou conformar-se com a impossibilidade de sair de casa. Também não é nada de original, mas ali pareceu-me ainda pior que o costume.
Portalgre, cidade encimada por mais um horroso pinhal (afinal não ardeu tudo num destes verões em que jornalistas e presidentes de câmara disseram que tinha ardido tudo), que tem por estes dias alguma vida emprestada por grupos de estudantes de fato académico que festejam uma Queima das Fitas de programa ignoto (e que suspeito não ser magnífico), não tem, tanto quanto me pude aperceber, e embora seja cidade e capital de distrito, Zara nem McDonalds. Portalegre, cujo comércio se divide quase exclusivamente entre lojas de aspecto antigo e lojas de aspecto velho e onde, parece, volta e meia há cinema, não vale muito a pena. Ainda por cima, a pensão onde fiquei (São Pedro – fixem bem o nome) era uma nojo. Portalegre, que me perdoem os vários milhões de portalgrenses que aqui se dirigem todos os dias ávidos das minhas palavras é, digamos, sofrível. Apreciem ao menos este meu esforço de contenção. Enfim, é branquinha e tem para lá uns monumentos e assim. |
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Em busca da tara perdida
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Nuvens altas, dizem eles, que são capazes de dizer aquela qualquer coisa para que lhes pagam. A mim, o que me interessa é que vou despejar o conteúdo que ultrapassou em infracção muito grave o prazo de validade, recolher o reembolso da tara do vasilhame e ver se do duelo entre o cidadão e o ruralão sai um vencedor, de preferência por desistência de sua excelência, o outro. Ute Lemper, comestíveis, Scott Walker, bebíveis, Mão Morta, pensão barata, pastilhas elásticas, bloco de notas, Aphex Twin, muda de roupa, Shostakovitch, máquina fotográfica e ainda sobra espaço para qualquer coisa que me ocorra entretanto. Bom fim de semana. De nada. |
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Ancestrália
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Para uns é uma chatice desmotivante, para outros é uma fonte inesgotável de estímulos: nunca se sabe onde uma busca na web nos leva. Eis este interessante resultado, que ora partilho graciosamente convosco, de uma cândida demanda por locais de interesse turístico no tão nosso distrito de Portalegre. Para o caso de haver dúvidas, não, não estou a mandar ninguém para parte nenhuma. |
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A tragédia inanimada
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Retirado de Edward Gorey, "The Inanimate Tragedy" |
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Prazer solitário
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Ele certamente não desconhecia a forma direita de fazer as coisas e, portanto, que a ironia não deve nunca ser anunciada. Como ele mesmo poderia ter dito se alguma vez tivesse falado do assunto, a ironia terá quanto muito de ser subtilmente notada após ser proferida nos casos em que disso dependa uma desejável posteridade. No entanto, para desconcerto dos muitos que nunca ousaram falar-lhe disso com propósitos de esclarecimento, ele anunciava as suas ironias sempre que a ocasião se prestava, ou seja, a toda a hora. Não era nada que lhe poluísse o discurso, sempre claro e divertido, didáctico mas descomprometido, era só aquela dissonância de uma táctica mal utilizada por parte de quem não costumava dar-se a tais descuidos.
Um dia, sem que nenhum facto conhecido o explicasse, deixou de anunciar as suas ironias. Nada mais mudou, a não ser a atenção redobrada com que todos passámos a ouvi-lo na tentativa de detectar uma explicação para aquela alteração mínima e insidiosa que chegou mesmo, durante uns tempos, a ser assunto de conversas fugazes sempre que ele não estava presente. Até hoje, e já lá vão uns anos, não tenho notícia de que alguém tenha percebido o que se passou. |
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