Goodbye Tom
A arte de ser pós-moderno só é dominada em pleno por aquele/a que aceita com alguma ironia (e nunca com complacência) a impostura envolvida na necessidade de permanentemente reconfigurarmos as nossas proximidades.



[Dogville, de L. Von Trier]

Mesmo conhecendo os riscos que daí advêm. Ou talvez por isso mesmo.
B de Boliqueime
Madrugada após madrugada, lá está ele, frio e anónimo a coberto dos vidros fumados. O seu carro, estacionado à beira Tejo, é uma verdadeira central de comunicação preparada para, mal se dê a ocorrência de um nevoeiro suficientemente épico, espalhar na comunicação social a boa nova do seu ressurgimento para glória da Nação Portuguesa. Uns metros atrás, no atrelado, o cavalo branco relincha aleatoriamente.

Plano B (para o caso de tardar demasiado a manhã de nevoeiro): uma conferência de imprensa num bom hotel da capital e esquece-se esta palhaçada toda.
Maria do Carmo à caixa 9
A verdade é que já não se pode ser prestável. As pessoas abusam, pensam que somos delas, que podem fazer o que quiserem connosco. Tem uma pessoa um trabalhão a ver se agrada aos outros e depois a paga é o que se vê.

(Não tem os 23, não? 50 não, deixe estar.)

Não é que eu quisesse que me pagassem, que eu sou uma pessoa desinteressada, mas um bocadinho de consideração fica sempre bem. Isto de tratar os outros como se fossem criados diz muito acerca duma pessoa, ai diz, diz!

(Boa tarde, tem cartão Jumbo?)

Eu também já devia saber que ser prestável é nisto que dá. Nunca devemos estar demasiado disponíveis para as outras pessoas, senão abusam. Devemos dizer que estamos, mas depois, volta e meia não estamos. Isto de ver os outros com problemas e fazer das tripas coração para os ajudar não leva ninguém a lado nenhum.

(Esqueceram-se de marcar este... Desculpe lá. Maria do Carmo à caixa 9, Maria do Carmo à caixa 9)

É que depois, quando uma pessoa um dia não pode, tem os seus problemas para resolver, aí levam a mal, já não percebem que uma pessoa também tem a sua vida e que não pode andar sempre a levar os outros ao colo. Se uma pessoa tem um momento mais em baixo é logo que está diferente e que já não liga aos outros e o caraças.

(São 73 euros 49 cêntimos, pode marcar)

E se uma pessoa um dia precisa de alguma coisa é para esquecer. Quem está sempre disponível para os outros nunca tem ninguém disponível para si. Já faz parte, é sempre a mesma coisa, eu estou ali é para fazer favores, não é para que mos façam a mim!

(Desculpe a demora e bom fim-de-semana. Olhe este saquinho! De nada...)

Isto é tudo gente muito moderna, muito desempoeirada, muito sofisticada, mas a verdade verdadinha é que respeito respeitinho só nos têm se lhes dermos uma boa dose de indiferença ou um bom par de lambadas nas trombas de vez em quando! Essa é que é essa. Óuó.
Assim ou 50
Mas quem me mandou a mim falar? Ele já deve ter começado a fazer interpretações. Eu não lhe admito interpretações, ele conhece-me. Mas eu sei bem que interpretações ele anda a fazer, ele pensa que são todos como ele. Ele pensa que eu sou como ele, que fico a pensar nos segundos sentidos em vez de dizer as coisas. Ele acha que percebeu alguma coisa. Ele acha que é muito esperto.

(É este chouriço de Arganil aqui... sim esse, e 200 de fiambre, se faz favor. Cortado fininho)

As pessoas pensam todas a mesma coisa, pensam todas a mesma coisa! Não podem ver nada que vagamente se pareça com coiso que põem logo em acção os preconceitos, que é o caminho mais fácil. Mas o que é que elas têm a ver com isso? E meterem-se na vida delas? E ele não é diferente. Ele julga que é diferente, mas não é, é como toda a gente, pensa o mesmo que toda a gente e o meu erro foi pensar que ele era diferente e falar sem restrições. Ou quase. Desabafar. Dar-lhe indícios, foi o que foi! É claro que lhe pareceu logo que eu estava a coiso. Ele é igual a toda a gente e eu devia saber isso desde o início.

(Não, não tenho os 23. E 50 dá-lhe jeito? Pois, mas só tenho assim ou 50)

Eu bem vi pelo olhar dele, aquele sorriso que se deixou ficar. Eu sei muito bem do que é que ele estava a rir. É claro que quando eu falei daquilo ele pensou logo que... Eu não lhe admito que ele interprete, o que eu digo é como é e não tem nada que ser filtrado pela mente porca dos outros. Nem mesmo pela dele. Olha ele! Logo ele! Tão desempoeirado, tão noutra onda, tão numa league of his own, mas no fundo é igual ao resto!

(Não, obrigado. Sim... Pois, mas não, obrigado)

E eu ainda por cima falei-lhe daquilo umas 300 vezes. Não me sentia à vontade para falar daquilo com mais ninguém e então falei, falei, não falei doutra coisa. Porra! Mas por que é que eu não me calei. Agora deve estar a rir-se, a pensar que eu ando a coiso. Mas eu ponho-o no lugar. Se ele julga que isto é assim está muito enganado! Ai está, está! Ele vai ver! Ele que venha cá outra vez que eu conto-lhe! Ou não lhe conto! Eu não lhe conto é mais nada! Há-de esbarrar com um muro de silêncio. Ele que interprete isso, o silêncio, já que é tão esperto! Indiferença, meu filho, indiferença! Eu não lhe digo é mais nada! É bom dia e boa tarde! Ele, se tiver alguma coisa a dizer, que diga, que é assim que as pessoas a sério fazem!
Lisboa
Lisboa, 23 de Junho de 2051. Estou encostado ao corrimão da minha varanda no Príncipe Real a observar os movimentos tectónicos enquanto saboreio demoradamente um pacote de batatas fritas sem calorias e sabor a espetada mista com arroz de pimentos e, precisamente, batata frita. Graças a uma vida passada como cobaia bem paga da indústria bio-electrónica, ninguém me dá mais de 40 e o dinheiro chega e sobra para as despesas em software necessárias à manutenção futura de todo este bem-estar.

Pelo acima exposto, não se pode dizer que me esteja a sair mal, e só não assisto à concretização da utopia do progresso para a eternidade porque é da minha natureza saber há décadas, não a data, mas o local onde irei morrer, independentemente do local onde o meu corpo estiver na ocasião desse inevitável acontecimento. Não há muitos que tenham a mesma sorte.
A natureza dos danos
Paris, 22 de Junho de 2027. Estou encostado à janela do quarto na minha mansarda na Île de Saint Louis a observar os movimentos artísticos enquanto saboreio demoradamente um iogurte cremoso, probiótico, simbiótico, com bifidus activo, l. casei imunitass e aroma de pescada cozida em água de coentros. Graças a uma vida passada como cobaia bem paga de um centro de investigação biomédica, ninguém me dá mais de 30 e o dinheiro chega e sobra para as despesas em prostética necessárias à manutenção futura de todo este bem-estar.

Pelo acima exposto, não se pode dizer que me esteja a sair mal, e só não assisto à concretização da utopia do regresso a uma paz uterina porque é da natureza dos danos o serem irreparáveis. E irreversíveis. E por aí fora. Mas o passar dos anos e as drogas certas ensinaram-me a não pensar demasiado nisso.
Junho (há vida inteligente em)
Antes que eu próprio me esqueça, lembra-se os interessados (ou seja, a humanidade no seu todo e em particular a que habita no hemisfério norte) que amanhã, terça-feira, é dia de solstício de Verão e que na quarta-feira há Lua cheia. Temos assim, esta semana, um verdadeiro cocktail místico e razões de sobra para toda a gente evidenciar alguns sinais de loucura ou até mesmo, em casos extremos, excitação. A catarse através da participação em rituais, organizados ou não, de natureza e raiz pagã é, mais que aceitável, aconselhável a quem tiver mesmo que exprimir o seu desaustino.

Pela minha parte, e à falta de oportunidade para ocupar dias da semana com minudências carentes de reconhecimento oficial, deixo-vos com a prova possível de que se faz um rico passeio de Junho pelas margens do esteiro de Salreu e do rio Antuã.

Reverso de biografia: Subsídios para uma arqueologia do fruto proibido
«A má vida era horrível mas ao mesmo tempo era muito lindo! Acho que quem teve essa ideia peregrina, a primeira que teve essa ideia peregrina foi a Madame de Gaulle, mandou tirar todos os urinóis de Paris. Agora para mijar tem de se ter uma moeda, não é? Entrar no café, meter a moeda e fazer o chichi. Urinóis, não há. A mulher tinha um bocadinho de razão, porque era assim: às vezes um gajo estava muito aflito para fazer pipi, mas o urinol estava cheio de gente que não saía nunca (ri). Bom, e aqui aconteceu o quê? Desapareceram os urinóis que eram o centro de... havia um urinol genial no jardim Constantino, um urinol delicioso. Olha, eu estou a dizer isto mas sei que estou num país em que estas coisas não se podem dizer, não podem!»

[Mário Cesariny, Verso de Autografia]


Agora que o Mário fala nisso, e só agora que o Mário fala nisso, recordo-me de como havia, no Jardim Constantino onde passei boas horas da minha infância lisboeta, um lado a que estava terminantemente proibido de ir. Nunca soube, nunca me questionei ou talvez me tenha contentado com alguma justificação daquelas que se dá às crianças, nunca mais me lembrei. Até que veio o Mário e falou no assunto e houve qualquer coisa dentro da minha cabeça que se moveu para deixar passar esta lembrança com perto de 30 anos e um sorriso honesto e claro como já não há tantos. Não lhe vou agradecer, Mário, porque já não há lugar para essas coisas. Mas é só por isso.

Almofada
Não é que alguma vez o tenhamos sequer tentado, mas nunca conseguiremos agradecer ao mundo árabe o legado que fez da nossa uma língua com uma palavra em que apetece pousar e repousar a cabeça. Creio mesmo que aturar a al Qaeda ainda não é o suficiente para podermos dar as contas por fechadas.

E a conta desta minha pequena petulância eurocêntrica deverá ser enviada à insónia muito pouco conveniente que resolveu passar a noite por estas bandas. A programação seguirá dentro de... momentos.
Tequilla Sunrise
Digamos que ela sabia perfeitamente que aquela perna não pertencia à mesa. Digamos que ter o marido ao lado ainda tornava a situação mais excitante. Digamos que deve ter esperado por alguma espécie de feedback nos dias subsequentes. Digamos que se deve ter sentido vexada com a indiferença a que o empernanço "acidental" foi votado. Digamos que ficou furiosa mas não o pôde demonstrar abertamente. Digamos que negaria sempre se confrontada com o seu acto digamos infame. Digamos que agora te vai fazer a vida negra por despeito. Digamos que tu agora não podes fazer nada senão aturar de boca fechada e esperar que lhe passe. Digamos que não é muito provável que lhe passe tão cedo. Digamos que mais indiferença é a única arma que te resta. Digamos que mais indiferença só a fará ficar ainda mais furiosa. Digamos que por medo que abras o bico te vai começar a difamar. Digamos que ela a estas horas já aprendeu a anular desconforto com o seu acto através de acreditar verdadeiramente no seu peculiar lado da história. Digamos que o empernanço ainda vai ser contado a uma data de gente que te conhece como tendo sido ao contrário. Digamos que ainda vais ficar muito mal visto no meio desta história toda. Digamos que teres estado silencioso acerca do assunto vai ter todo o ar de assunção de culpa. Digamos que teres dito alguma coisa acerca do assunto teria tido todo o ar de má-língua gratuita. Digamos que a estas horas já estás mais que arrependido de não teres posto os cornos ao teu amigo. Digamos que se soubesses o que sabes hoje tinhas posto os cornos ao teu amigo. Digamos que os cônjuges traidores acabam quase sempre contristados a contar tudo aos cônjuges traídos. Digamos que os cônjuges traidores acabam quase sempre perdoados por conveniência de digamos administração do quotidiano dos cônjuges traídos. Digamos que ainda terias acabado a levar nas trombas e com razão. Digamos que agora já estás a perceber. Digamos que não hás-de ter a lata de dizer que ninguém te avisou. Digamos que teres sido avisado não te serviu de muito. Digamos que és um bocado bronco.

(Digamos que por aqui se glosa livremente a Educação Sentimental)
Síndrome de Jano
A conclusão a que qualquer pessoa que tenha de lidar frequentemente com electrónica vária pode chegar é a de que a saída para os grandes problemas da humanidade (incluindo o défice) está no regresso em força ao animismo puro e duro, sem corantes nem conservantes.



Quanto às consequências a retirar desta descoberta, falta-me, como de costume, a convicção necessária para avançar, mas sempre fica mais uma porta aberta.
Meio aéreo
Ao longo de muitos anos dedicámo-nos a substituir uma floresta que, segundo consta, era bonita e variada por mata monótona de lucro fácil composta por pinheiro bravo ao molho e, numa fase mais recente, eucalipto aos montes. Agora que volta o ano e arde tudo sem parança nem surpresa, para onde nos viramos em busca das culpas e da salvação? Para o céu. Nós temos esta coisa, esta fixação com o céu, ou, dito de outra forma, com a desresponsabilização que nos é dada pelo inacessível. Se noutros tempos era a divindades mistas vindas "lá de cima" que cabiam as responsabilidades e soluções pelo desgoverno que semeávamos pela terra, hoje, graças à fabulosa disseminação da cultura científica, esse papel cabe à meteorologia e a meia dúzia de aviões alugados à Polónia. Deve ser isto o tal progresso de que se fala.
Neide Sabrina (da série «Um momento na vida de...»)
Mais para cima. Um bocado mais para cima. Um bocado... Isso. Abre muito os olhos e faz um sorriso de boca aberta, expressivo. Não pá, expressivo. Expressivo, a parte importante era a do expressivo, assim parece que fumaste ganzas de mais. Isso! Agora pega nisso como deve ser... Energia, dinamismo... Põe-te mais de lado, só um boc... Menos, menos! Mais! Dinamismo, movimento, energia, energia! Tu queres que as pessoas levem isso para casa, pá. E os olhos, pá, os olhos, abre-me esses... Isso!

Clic.
Ser e ter
Voltou a acontecer com insistência. Por exemplo, no momento em que mexo um braço, um movimento detectado pelo canto do olho chama-me a atenção num quase susto: era a sombra desse meu braço. Noutro exemplo, enquanto vou a andar, uma mudança rápida de luminosidade numa janela fechada põe-me alerta: era o reflexo das minhas pernas.

Já não é a primeira vez que tenho uma época disto. É como se houvesse uma incapacidade temporária de ligar o meu corpo às suas sombras e reflexos, ligação que normalmente acontece automaticamente, por concomitância entre o meu movimento e o efeito produzido. Isto é coisa deste tempo. Desconfio que é da conjugação do calor com a lua nos arredores de nova com a aproximação do solstício de Verão.

(Os recursos a que me leva o desespero de querer provar que a minha cabeça ainda é o que nunca foi.)
Expulsão premeditada
«As duas ou três vezes que me abriram
A porta do salão onde está gente,
Eu entrei, triste de mim, contente -
E à entrada sempre me sorriram...»

Mário de Sá-Carneiro, "Campainhada"
Que ainda tenho outros assuntos para tratar hoje
Mesmo correndo o risco de ser acusado de obsessão anti-clerical, não resisto a colocar esta... Só mais esta. Eu prometo. Ou não.


Comès, Eva
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