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Berbigão ao natural (versão longa)
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Ingredientes: - berbigão na quantidade pretendida; - sal; - meio limão.
Compre o berbigão vivo. Traga o berbigão para casa. Lave o berbigão debaixo de um forte jacto de água da torneira. Lembre-se que o berbigão é um animal um bocado porco na escolha do habitat. Coloque o berbigão num recipiente com água bem salgada de um dia para o outro. Mude essa água pelo menos uma vez. Cuidado com o local onde deixa o recipiente: o berbigão é muito amigo de cuspir.
No dia seguinte, levante-se, cuide da sua higiene pessoal, faça o que tem a fazer da sua vida, mesmo que se trate de actividades pouco aprazíveis. É mesmo assim: custa a todos. Momentos antes da hora a que decidiu comê-lo, escorra o berbigão e deixe-o ficar a postos. Coloque uma panela vazia e tapada ao lume forte e espere alguns minutos até que o ar no seu interior atinja uma temperatura adversa à vida. À vida do berbigão. À sua também, mas você não vai para dentro da panela. Em princípio. Nesse momento, destape a panela, despeje abruptamente o berbigão para dentro da panela, tape novamente a panela e desligue o lume. Assim. Todo o processo tem de estar envolto numa certa brusquidão para fazer sentido. Se quer um bom conselho, não se questione acerca disto. Aguarde um pouco, talvez dois, três minutos, em que pode aproveitar para se acalmar. Ou pensar na vida. Não, acalmar-se é melhor. Destape a panela e esprema lá para dentro algumas gotas de limão. Não muitas. Depende da quantidade de berbigão, mas convém ser subtil. Você saberá o que fazer. Ou não, mas isso é lá consigo.
Leve o berbigão à mesa e coma-o. À mão. Tenha cuidado para não se queimar. O berbigão dá uma boa entrada, mas não uma boa refeição. Coma mais alguma coisa. Um robalo grelhado, por exemplo, que também não é difícil de confeccionar. E uma sopa. Enfim, desenrasque-se. |
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Soundcheck
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Rural e atrasado. Rural, mas atrasado. Rural, ainda que atrasado. Rural, logo atrasado. Rural, porque atrasado. Rural, atrasado... Rural, ó atrasado! Rural? A-tra-sa-do! Rural à Atrasado (com batata cozida e legumes).
(De certa forma inspirado pelo Bandeira ao vento). |
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Privatio boni
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Com o tempo tem-se solidificado a minha convicção de que São Tomás de Aquino estava vergonhosamente enganado quando afirmou que o Mal não era mais que a ausência do Bem. Ele era, apesar da sua dedicação a latitudes de outro género, um homem do Sul da Europa que deveria ter reparado naquela discreta, insuspeita e, portanto, perversa manifestação do Mal entre nós que é a azeitona. Especialmente a verde e sumarenta. Então quando lhe substituem o caroço por um bocado de pimento, nem é bom falar nisso. |
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Barómetro Agrafo
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Gostas mais da Ota ou do TGV?

Para a próxima semana, a pergunta que propomos é:
Quem acha que tem melhores condições de ganhar as eleições presidenciais em 2006, Mário Soares ou Cavaco Silva? Respostas: Sim - 1; Não - 2; Talvez - 3.
Esta blá blá blá consulta aos frequentadores blá blá blá blá blá validade científica blá blá blá blá blá imputável blá blá blá blá blá blá Agrafo Ponto blá blá blá blá blá Visa ou American Express blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá sobretudo quando blá blá blá por SMS ou blá blá blá blá blá coiso blá blá blá blá blá blá blá blá caiu no caldeirão blá blá blá blá blá blá blá olhou em volta, mas já blá blá blá blá blá blá blá sim blá blá blá custo por blá blá blá blá blá blá blá blá blá mensagens encriptadas entre blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá ontem blá blá blá blá e tal. |
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O horror e o desespero abatem-se sobre Vaduz
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Sabieis que, pelo menos para o Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, o nome português do Lichtenstein é Listenstaina? Eu também não o sabia, mas esta é a verdade que vos posso garantir. Proponho, pois, que fiquemos de boca aberta em conjunto durante alguns instantes.
Pronto, já chega. |
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Sorte de agrafo
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O Agrafo acha muito triste que em Portugal se considere que as pessoas só são aproveitáveis como candidatos a lugares públicos de eleição até aos 65 anos.
O Agrafo não acha isto só agora, nem o Agrafo acha muito boa ideia a candidatura do Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República.
O Agrafo acha muito triste a inevitabilidade da vitória do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (vénia) à Presidência da República, por duas razões: a) o Agrafo não gosta de inevitabilidades, por mais teóricas que elas sejam; e b) o Agrafo não gosta nada do Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (agora sem vénia).
O Agrafo acha que este país está bem um particípio passado que não seria cortês usar aqui e agora. O Agrafo acha que no fundo até tem sorte porque não vota, agrafa. |
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De nada
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E depois há um dia em que um gajo se farta de lhe estarem sempre a pedir vá lá e não sei quê e mete lá umas fotos da nossa vetusta e insigne capital e tens fotos de tanto sítio e renhonhonhó e o caraças e então um gajo só para não lhe chatearem mais os cornos vai e mete mesmo.
Ok, estou a exagerar um bocadinho. Sim, está bem, admito, não foi assim tanta gente a pedir-me fotos. Sim, pronto, a verdade é que ninguém me pediu fotos nenhumas nem ninguém me chateou a cabeça, pelo menos com este assunto. Mas a verdade é que há uma nova galeria na secção de fotos deste vosso sítio. Apeteceu-me, pá, apeteceu-me, eu sou assim, e então? Prontch. |
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Querido diário
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Primeiro, fui confrontado com os dados cujo tratamento estatístico, essa actividade pertencente à minha idade média profissional, ficará ao meu cargo. Os ficheiros são tão grandes que o Excel não os consegue abrir em condições. Fiquei a saber que o Excel não é amigo de folhas com mais de 65000 (sessenta e cinco mil) linhas, ao passo que a mais pequena das que terei de amamentar e criar até se tornarem alguma coisa na vida tem 99000 (noventa e nove mil). O povo é sereno.
Segundo, a colisão entre a música ambiente daquele impensável shopping centre (Scorpions!?) e a música ambiente oriunda dos confins da Pans & Company. Senti-me um bocado atarantado e cheguei a pensar em exigir que alguém tratasse do assunto, caso contrário iria pedir uma baguete Riviera e uma cola laite de 40 cl a outro sítio qualquer.
Terceiro, Colisão, de Paul Haggis, que me pareceu melhor nas suas intenções pedagógicas que como filme (aliás, o descaramento daquelas obstruem um pouco a elegância tentada deste), mas que me deixou um tudo nada incomodado. Apanhou-me em mau dia, sei lá, se calhar estava a precisar de doces.
Quarto, atropelei um animal, provavelmente um gato, que estava especado a seguir a uma curva, às escuras, no meio da estrada. Tentei desviar-me, consegui não lhe passar por cima, mas o barulho seco da pancada deu-me cabo do que havia para dar cabo. Ainda por cima depois daquele filme. Ainda por cima provavelmente um gato. Tremeliquei até à escapatória mais próxima, saí do carro para verificar que não havia estragos, voltei para o volante e regressei para uma passagem mórbida pelo local do acidente. O local do acidente é um local onde não é possível parar para nada: o meu objectivo era simplesmente o de ver os resultados. Podia ao menos não ter consciência disto. Mas não havia animal nas redondezas e permito-me pensar que não lhe terá sucedido nada de demasiado mau. E talvez fosse um coelho, uma lebre. Não é que melhore muito, mas sempre melhora alguma coisa.
Quinto, as vantagens de se viver na parolândia. Ar puro, pouco trânsito e uma Câmara Municipal que resolveu animar a noite ao povo pré-autárquico com uma banda de versões (os 5ª Dimensão, pareceu-me) estrategicamente colocada a uns metros da janela do meu quarto. O reportório, ecléctico, levou-os a (perdoem-me as incorrecções, mas até para mim isto é tudo velho demais) «Portugal na CEE», «Chico Fininho», «Cairo», «Eu não quero ir à máquina zero», «A ponte é uma passagem», «Se cá nevasse fazia ska ski», «Chamem a polícia» e, claro, o sempiterno «Patchouli», entre outros grandes êxitos do Paleolítico Superior. Mais trágico e verdadeiramente imperdoável é que nem sequer tocavam mal, ou seja, não tinham mesmo piada nenhuma. |
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O que realmente importa
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Ministros das finanças, no último ano já tivemos 3 e não há indícios de que o ritmo vá abrandar. Incêndios, são na quantidade que pedimos e idem idem, aspas aspas. Mas lua cheia de Julho, meus meninos e minhas meninas, essa só volta para o ano que vem. Vejam lá a vossa vida. |
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Não observador, não participante
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De repente, percebo que sou querido a participar, mas não a observar.
O melhor que consigo é observar sem participar. Erro maior. É aqui, neste ponto apagado do mapa, que há um ridículo que quero impedir mas onde as palavras que não saem (sou o único a querer ouvi-las) ficam às voltas na boca até ganharem um sabor estragado. Há um respeito precioso que ameaça perder-se para sempre, uma imagem ainda boa que apago já um segundo depois do momento certo, um desespero a que não quero conhecer os meios.
 [Ernst Haas - White Sands, New Mexico, USA, 1952]
De repente, uma história a que só quero conhecer o fim. Até lá, saio.
Pelo menos até lá. |
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O momento da explicação revisitado
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Que as pessoas não perceberam. Não que as pessoas sejam burras – antes pelo contrário, são sensatas, serenas, sábias. As medidas é que não foram bem explicadas. E que para a próxima tem de haver maior cuidado com as explicações. Senão as pessoas não percebem. Aquilo que já passou, não vale a pena explicar bem. O que lá vai, lá vai, águas passadas não movem moinhos e tempo é dinheiro valioso dos contribuintes que, de resto, têm mais que fazer que ouvir explicações. Mas para próxima vai ser diferente.
(Este hábito velho de nos trocarem a esperança de um momento da verdade pela promessa nunca cumprida de um momento da explicação é só mais uma das metástases do milagre português. Ele é o milagre espanhol para aqui, o milagre irlandês para ali, mas do nosso, de conseguirmos andar ruidosamente às voltas no ralo sem nunca escorrermos definitivamente para o esgoto, desse ninguém fala.) |
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Não que venha ao caso, mas e as senhoras, já agora, que tal eram?
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«Os Lusitanos descendiam dos Ligures – árias escuros e braquicéfalos, agricultores devotos da terra pelo culto dos mortos, amantes da família, vivendo em tribus sedentárias confederadas.
Descendiam também dos Celtas – outros árias de tipo louro, enérgicos, másculos, vindos da região do mar Báltico para as Gálias e Ibéria. Êstes Celtas, oriundos dos climas formadores de raças fortes, trouxeram aos Iberos caracteres novos, conservados por mais tempo entre a populações montanhosas da Beira e do Mondego.
Os Lusitanos eram dextros, ágeis e hábeis nas ciladas. As suas armas consistiam num escudo côncavo, um cutelo ou punhal, dardos e lanças de cobre. Só bebiam água corrente, sustentando-se os habitantes da planície principalmente de carne de bode e os montanheses, de uma espécie de pão feito de farinha de bolota.»
Boavida Portugal, Educação Cívica (Livro aprovado pelo Govêrno, por decreto de 20 de Junho de 1917) |
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Sul
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Fiquei a saber pelos textos e debates no Campo Aberto e nos Dias com árvores que a calçada portuguesa afinal é lisboeta e que essa é uma boa justificação para ser arrancada à bruta da baixa do Porto.
Não é que me impressione especialmente a atitude ou os argumentos que a justificam, sejam eles quais forem, nem faço ideia se a escolha do granito em detrimento da calçada moura (já agora..) tem motivações válidas. A pena que este tipo de discussão me faz vem de eu gostar do Porto. Tenho pena de ver aquela cidade dura, tortuosa e elegante sempre e mais uma vez refém da atitude autodestrutiva, tacanha e profundamente boçal a que alguns locais simpaticamente chamam "bairrismo" e às custas da qual muito burgesso vai alimentando a sua vida pública. Bairrismo seria defender o Porto, e não sufocá-lo com uma mão enquanto com a outra apontam o dedo a Lisboa. Depois, como convém, toda a gente olha para a mão que aponta. Ter as autárquicas à porta também não ajuda. |
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They look just like everyone else
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Há uma cena mais perturbante que hilariante do filme Addams Family em que a filha do casal, Wednesday (papel representado pela ainda criança mas já excelente actriz Christina Ricci), ao ser confrontada com o facto de não levar vestida nenhuma fantasia para a festa de Halloween, responde: «I'm a homicidal maniac, they look just like everyone else».
Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando soube que os suicidas responsáveis pelos atentados de 7 de Julho em Londres eram pessoas como outras quaisquer. Mas desta vez foi só perturbante. |
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Notas avulsas sobre o aumento descontrolado de peso
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Eu percebi que estava a ficar gordo quando olhei para o mostrador da balança e fiquei na dúvida: aquilo é o meu peso ou a frequência da Antena 2? Da análise da balança resultou que ela, como eu já desconfiava, não tem rádio incluído e que, portanto, aquele valor era um alerta muito pouco subtil.
Eu percebi que estava a ficar mesmo gordo quando me foi noticiado que daqui a 6 quilos o meu Índice de Massa Corporal (IMC) será de 30, valor que corresponde à tão temida “obesidade” (abaixo dos 25 fica a desejabilidade e entre estes dois valores fica o meu actual “excesso de peso”). Se os próximos 6 quilos custarem tanto a ganhar como os últimos 6, temos festa mais cedo que o previsto.
Mas quem é que construiu o IMC? Qual é a credibilidade de um índice destinado a avaliar a justeza das dimensões corporais das pessoas construído numa época que sonha e se baba com a anorexia adolescente? Alguém já se interrogou seriamente sobre se o IMC tem alguma espécie de credibilidade? Aposto que não.
Uma pessoa que engorda porque deixa de fumar devia ter direito a uma denominação diferente. Obeso. Obeso. A própria palavra escorre banha por entre os fonemas. Não é justo caracterizar desta forma uma pessoa que está a passar por este problema de forma transitória (repito, transitória) como forma de atingir um grau mais elevado de pureza higiénica e moral. E “adiposo” ou “gorducho” também não servem, por razões diferentes mas óbvias.
O mais curioso é que a obesidade dos outros nunca me incomodou, a não ser naqueles casos mórbidos em que uma só pessoa ocupa o elevador todo. Mas comigo, que ainda estou a umas centenas de quilos desse ponto, é isto que se vê.
A partir de agora só compro roupa em lojas cujas cabinas de prova sejam almofadadas. O falhanço das tentativas de vestir os meus antigos números deixa-me com uma abertura preocupante à possibilidade de auto-mutilação. Foi o que aconteceu há dias, quando reparei que não havia calças abaixo do 44 que me servissem. Felizmente, para mim e para a gerência, o cabide era baixo e frágil demais para permitir uma tentativa de enforcamento com alguma dignidade. |
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A reportagem possível
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Isto pode não ser um fotoblog, mas cada vez parece mais, e agora, ainda por cima, em versão indesculpável de mirone sensacionalista que obriga o condutor a parar o carro na berma da estrada para tirar fotografias aos incêndios.
Aqui, a reportagem possível algures no concelho de Penacova, hoje ao fim da tarde.

Também há fotos sem helicópteros (e duas ou três com aviões), mas não é prático colocar aqui mais. E eu gosto de helicópteros. Não se queixem.

E antes que alguém comece com ideias, não estou para comentários moralistas acerca da "glamourização" da tragédia. Quem ficar extasiado com a beleza superior das minhas fotografias e não se sentir bem com isso deverá guardar os seus sentimentos de culpa numa caixinha biodegradável e lançá-la ao mar alteroso do equinócio, lá mais para Setembro. Quando a maré estiver a vazar. Eu sou um artísta, porra, não tenho que me preocupar com essas tretas. |
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Turismo
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Era uma vez três irmãs chamadas Mariana, Capristana e Ratazana que viviam numa casa muito velhinha mesmo à beira da Estrada Nacional 109. As três irmãs, que também já eram muito velhinhas, confeccionavam pratos de comida tradicional portuguesa para fora, mas um dia, com o desaparecimento progressivo da clientela e com a crescente dificuldade em arranjar, a preços decentes, produtos com a qualidade necessária para os seus lendários cozinhados, resolveram reformar-se. E decidiram que se paravam cozinhar para os outros também não iriam continuar a cozinhar só para elas. Então, vestiram as suas melhores roupas, meteram-se na carroça puxada pelo burrico Jeremias e lá foram elas ao shopping mais próximo, por a vizinha lhes ter dito que era lá que estava a comida de que as pessoas agora gostam.
E assim fizeram e passado meia hora morreram e agora são 3 estrelinhas no firmamento do hemisfério sul que era onde havia vaga e há muita gente que vai ao Brasil só para as ver.
Enfim, «só para as ver» é como quem diz. As estrelas só se vêem de noite e as pessoas não estão lá só de noite. Além do mais, é uma viagem grande e é natural que as pessoas aproveitem para ficar uns dias, para ir à praia, passear, ver uns monumentos, etc. E mesmo de noite, as pessoas não vão ficar para ali simplesmente a olhar para as 3 estrelinhas até lhes dar o sono. Por mais que as estrelinhas sejam belas e o firmamento mágico. Pronto, digo eu que nunca lá fui nem devo ir tão cedo que é natural que as pessoas façam outras coisas quando vão ao Brasil, mesmo de noite. É só isso. Eu faria. |
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Vast & Overwhelming Majority Inc.
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Diogo, eu sei que andas muito ocupado, mas assim não pode ser. Como também sei que continuas a ser um entusiasta deste blog e como desde que foste para os Negócios Estrangeiros que deixaste de atender o telefone, não me deixas a mim outra alternativa senão a de utilizar este espaço, porventura demasiado arejado, para te dizer que hoje foste um bocado bruto. Então não é que disseste, lá pelo meio do blá blá blá do costume para os jornalistas do costume com as perguntas idiotas do costume que estes atentados aconteciam, na pior das hipóteses, de ano a ano e que a prová-lo estavam as ocorrências em Nova Iorque (2001), Madrid (2004) e, agora, Londres? Então e Istambul? E aquele resort no Quénia? E Báli, onde até morreu um português, ainda por cima militar no gozo das suas merecidas férias, mais uma data de australianos branquinhos como a cal?
Eu percebo que te esqueças destas coisas, especialmente quando a maior preocupação é acalmar a populaça de cá. Eu percebo que as gentes dessas terras bárbaras não nos venham tanto à memória como o pessoal mais, como direi, do Atlântico Norte. Mas também foram pelos ares por uma guerra que não é deles, ai pois foram, e mesmo que lembrá-los não os traga a uma vida que manifestamente não nos interessa para nada, a pura e simples obliteração dos atentados que os levaram também não nos fica bem. E muito menos a um rapaz sério e às direitas (no pun intended) como tu sempre foste, pesem embora os pecados que sempre desfeiam o caminho de um animal político. Vê lá isso, pá, tem um bocado mais de cuidado com essas bojardas e manda um abraço à Maria, que já não a vejo há tanto tempo. |
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Ceci n'est pas un photoblog*
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*Há uma espécie de equilíbrio que se mantém a custo à custa de uma passagem semanal pelo Jardim Botânico de Coimbra. Em francês no original (N. do T.) |
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De manhã todos os patos são bravos
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Uma questão de tamanho
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1. JAMAIS ESQUECEREMOS TUNGUSKA Um projéctil com o «tamanho de uma máquina de lavar» lançado pela sonda Deep Impact atingiu o cometa Tempel 1 provocando-lhe uma cratera do «tamanho de um campo de futebol». O efeito do impacto foi classificado pelos cientistas como sendo o «primeiro fogo de artifício cósmico».
2. IDÍLIO E UTOPIA Um projéctil com o tamanho de um ser humano anafado lançado pelo PSD-Madeira atingiu o cometa Tempel 1 provocando-lhe uma cratera do tamanho de um campo de preenchimento obrigatório. O efeito do impacto foi classificado pelos cientistas como sendo uma sensação de alívio tão grande que chega a ser uma vergonha confessá-la. |
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Tradução, introdução e notas
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«Um polvo de um aquário público está a comer-se a si próprio. Devora-se à velocidade diária de meia polegada.
O polvo começou a comportar-se de maneira bizarra há cerca de uma semana, e dois dos seus tentáculos já se encontram devorados até meio. Acabará por morrer meio comido por si mesmo.
A razão do comportamento do polvo é desconhecida.»
[Herberto Helder, Photomaton & Vox] |
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O sentido da vida (fragmento)
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Meu caro e bom amigo, como é empolgante a sua irreverência e arrebatadora a sua imaturidade. Não me leve a mal, não me leia como a um geronte presunçoso e, acima de tudo, não me pense a menosprezá-lo. Antes pelo contrário! Faça uso da ironia por que todos nós tão bem o conhecemos e verá nas minhas palavras não mais que incapacidade para conter uma inveja fina que por vezes me assalta. Mas como eu ia dizendo, meu honesto e luminoso companheiro de viagens, o que de melhor posso dar como resposta à sua última carta é garantir-lhe que você, um dia ou uma noite, concluirá que o grande problema entre nós é sempre o sentido, e nunca por nunca a falta dele. |
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