Fá sustenido
Estas análises, o que fazem é confirmar as minhas observações: você está bem, homem, não tem com que se preocupar. Quem dera muitos. É claro que isto que eu lhe estou a dizer também é baseado nas informações que você me deu, de certa forma somos os dois responsáveis pelo diagnóstico. E é claro que não é por eu lhe dizer isto que você vai passar a sentir-se bem. Mas acredite, eu já ando nisto há muito tempo e já vi muitos casos como o seu — nestas coisas é bom não ser original, hã? Pois é, homem, o que você está é simplesmente fá sustenido, mas vai ver que isso agora com um bocadinho de Outubro passa que é um instante.
Lemon bloody cola
Essa conversa toda é exactamente para quê? Ah, é um pedido de desculpas... Está bem. Realmente era o que parecia, mas contigo é sempre bom não ter muitas certezas. Então era só isto e pronto ou queres alguma coisa? Dinheiro ou... Ó pá, eu tenho mais que fazer do que estar aqui a dar-te conversa, eu sou um gajo ocupado e... Ó pá, ó pá, ó pá, quem quer conversa vai para a internet, ó pá, não me lixes com esse paleio, ó pá, vai prò Messenger ó... Iá, tá bem, mas o que é que tu queres? Que eu te diga que estás desculpado? Se é isso que queres que eu diga, eu digo, quero lá saber: estás desculpado. Caguei, man, caguei, mas achas que eu ainda ando a pensar nisso? E mais alguma coisa? Tipo que gosto muito de ti e tal? Mas qual é? Estás para dar o berro e queres ver se vais de consciência tranquila, é? Sim, vá, explica lá, mas depressa, já te disse... Sim... Hum-hum... Hum-hum... Hum-hum... Lemon bloody cola, lemon bloody co... Não, nada, estava só a cantarolar, esquece, sim, vá, pois, bem, não, iá, olha, acho que estou a ficar sem bateria, se deixares de me ouvir é porque.
Só quem passa por elas é que sabe
A única coisa pior que ser trocado por um dálmata de louça é ser substituído por um crucifixo de retrovisor.
Movida
O eclipse solar anular da próxima segunda-feira só será visível em toda a sua plenitude, em território nacional, na região de Bragança. Para estas coisas já têm eles dinheiro. Que não dá para mais, que é para uma região eternamente esquecida onde nunca se passa nada. Certo, mas Espanha vai ser atravessada numa grande extensão do seu território pela linha central do eclipse — Madrid incluída! E mais a copa América, aquela cena dos barcos ou lá o que é, em Valência. Nestas coisas é que se vê a diferença e etc., não sei quê, não sei que mais. E com certeza haveria investimentos mais importantes a fazer na região que dar-lhe os 2 minutos e 40 segundos mais espectaculares dos últimos 241 anos e tal. Espero que esteja nublado, que é para ver se aprendem. Cambada de bestas.
Pontes e viadutos
Da próxima vez que a minha cabeça andar perdida, não vou ficar à espera que ela volte a casa pelo seu próprio pé.

Da próxima vez que a minha cabeça andar perdida, vou procurá-la a todos os sítios onde ela possa estar, sejam eles praças e vielas, ruas e avenidas, parques e jardins, subidas e descidas, becos e ruelas, fontes e esquinas, muros e aparcamentos, escadas e afins, esconsos e latrinas ou despensas de apartamentos.

Da próxima vez que a minha cabeça andar perdida, vou encontrá-la o mais rápido que puder para lhe dizer que escusa de voltar porque eu já não a quero para nada.



A minha cabeça já devia saber que a minha paciência tem limites.

Which file extension are you?

You are .inf You are informative.  When you are gone you make life very difficult for others.
Which File Extension are You?

Ainda estou para perceber se este resultado me devia deixar contente e eu é que sou parvo ou se, pelo contrário, a minha desilusão é inteiramente justificada.

O regresso outonal do Inspector Rousseau
Atormentado pela consciência recente de que, contrariamente ao que o diminutivo faz pensar, a sua vidinha é que é literal, ao passo que a sua vida é toda em sentido figurado, o Inspector Rousseau olha fixamente para o cadáver estendido no átrio do prédio, mas não o vê. Ao seu lado, um jovem agente debita, atabalhoado, as informações que foi possível recolher: nome, morada, profissão e duas ou três banalidades acerca das rotinas mais evidentes da vítima. As razões por que terá sido esventrado, aparentemente com a faca de titânio com garantia vitalícia da TeleShop que o presumível criminoso deixou ao lado do corpo, são ainda desconhecidas. Mas o Inspector Rousseau não quer saber de mortes para nada enquanto não conseguir olhar com outros olhos para sua própria vida. Vidinha. Vida. Vidinha. Vida. Vidinha. Uma delas, pelo menos.
Tempo de antena
O espaço que se segue é da inteira responsabilidade de um radical de tasca devidamente identificado que nos pediu muito para tornarmos pública a sua opinião acerca do actual momento político nacional e a quem nós fizemos a vontade só para ver se ele deixa de nos chatear.

Ainda chamam país a esta m----, os cabrões dos políticos é que se andam a encher com esta m----, esta m---- está boa está para um gajo se pôr na alheta, do que esta m---- precisava era doutro Salazar, do que esta m---- precisava era dum Hitler, do que esta m---- precisava era dum Estaline, do que esta m---- precisava era duma bomba atómica, esta m---- era juntá-los a todos num saco e atirá-los ao rio, esta m---- era atar-lhes a todos um tijolo e atirá-los ao mar, eu acho é qu’esta m---- já não tem conserto, esta m---- já não é o que era, esta m---- é sempre a mesma m----, esta m---- está entregue à bicharada, esta m---- está a saque, já ninguém tem respeito por esta m----, mas o qu’é qu’esta m----, esta m---- como está não vai a lado nenhum, foda-se para esta m----, esta m---- isto, esta m---- aquilo, esta m---- assim, esta m---- assado, pá.
Programa
É o tipo de pessoa que a seguir a arrotar sonoramente em público diz «notícias do interior» e desata a rir. E coça-se, claro que se coça, não faz outra coisa. Quer dizer, faz outras coisas, mas ao mesmo tempo que se coça. Vê se compreendes, não é possível, não tenho onde ir arranjar estofo para aturar uma coisa daquelas o dia todo. Ou me arranjam outro ou despeço-me.
Desapareceu de sua rua
Um plátano (Platanus x hispanica) com número desconhecido de décadas, hermafrodita, podado há cerca de 7 meses, de seu nome Plocas. A árvore, que mede cerca de 12 metros da altura, é facilmente identificável pela casca castanho-acinzentado que exibe grandes manchas amareladas causadas pela esfoliação natural, ramos castanhos e raminhos verdes, branco-pubescentes. Na altura do desaparecimento, envergava o seu hábito de Verão, composto por folhas de aproximadamente 20x24 cm, 5-lobadas, palmadas, brilhantes e lisas, com nervuras lanosas na página inferior, fendidas de 1/3 a 1/2 do limbo, com seios pouco profundos, lobos subtriangulares, cada um com vários dentes erectos. Pede-se a quem a encontrar o favor de entrar em contacto o mais depressa possível com a Polícia Judiciária ou com este blog. Em caso algum deverão ser feitas tentativas de captura por pessoas que não estejam devidamente habilitadas e equipadas para o efeito, que aquilo é árvore para lhe saltar a tampa e partir as trombas a um gajo.

Nota: as partes sumarentas são «adaptadas» do excelente guia Árvores de Portugal e da Europa, de C.J. Humphries et al., editado pelo FAPAS e pela Planeta das Árvores.
Reality check (com adenda)
Como por certo já notastes, o Agrafo só costuma descer para esclarecer o povo acerca das realidades básicas naqueles momentos em que o nível de idiotia pública ultrapassa os limites admitidos pela União Europeia, limites esses que até são, justiça lhes seja feita, bastante folgados. Assim, cabe desta feita ao Agrafo chamar a atenção daquela parte do povo que parece apoiar a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa para a existência, ou, melhor dizendo, para a inexistência de um insignificante pormenor.

Tem-se dito e escrito por aí com algum espanto que a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa não está, segundo as conclusões que se retiram das sondagens realizadas até à data, a «galvanizar» os portugueses, ou coisa que o valha. Perante esta surpreendente constatação, sente-se o Agrafo na obrigação de recordar os surpreendidos que Portugal não era, pelo menos nos anos imediatamente anteriores à apresentação da referida candidatura, um país suspenso da eventualidade de um regresso de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à vida política activa. Que não havia pelas ruas pessoas tresloucadas aos gritos de «Soares volta por amor de Deus», «o que será de nós sem ti» e não sei quê. Que não houve suicídios em massa quando, em Dezembro passado, S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) anunciou solenemente que não mais ocuparia cargos públicos. Que já a candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) às eleições europeias como cabeça de lista do PS, aqui há coisa meia dúzia de anitos ou assim, esteve bastante longe de ser um sucesso avassalador.

Sente-se o Agrafo na obrigação de informar os surpreendidos de que não tem lá muito bom aspecto o facto de a única motivação evidente da candidatura de S. Exa. o Dr. Mário Soares (vénia) à Presidência da República Portuguesa ser o desespero de impedir que a figura tenebrosa de S. Exa. o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (língua de fora) se aposse do lugar de Presidente da República Portuguesa. Sente-se o Agrafo na obrigação de recordar os surpreendidos que o horror (mais que compreensível) causado pela mera possibilidade de S. Exa. o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (manguito) ser o próximo Presidente da República Portuguesa não é, lamentavelmente, partilhado pela maioria da população — é daí, aliás, que vem o desespero dos surpreendidos. Posto isto, muito gostaria o Agrafo de saber de onde estavam os surpreendidos à espera que nascesse essa tal «galvanização». Aliás, pensando melhor, o Agrafo prefere não saber.

(Adenda: entretanto, n'A Natureza do Mal, o Luís disse o resto).
Toda a gente sabe (uma glosa conspirativa)
Toda a gente sabe que os Mão Morta foram colocados na Terra por monstros alienígenas gelatinosos no âmbito de um programa interplanetário que comparticipa até 80% medidas de apoio ao desenvolvimento de uma verdadeira indústria dos cuidados paliativos.

Toda a gente sabe que o Morrissey entra na minha cabeça quando estou a dormir para roubar as letras que depois canta como sendo suas.

Toda a gente sabe que o verdadeiro Leonard Cohen morreu em meados dos anos 90 e foi substituído por um andróide programado para espalhar mensagens subliminares de conformismo.

Toda a gente sabe que o fim está próximo. Toda a gente sabe e ninguém faz nada.
Efeméride
Faz hoje 6 meses que deixei de fumar e, feliz ou infelizmente, ainda é mais aquilo que me diferencia das baleias que o que me aproxima delas. A saber:

— não tenho barbatanas;
— não como krill;
— não lanço vapor de água por um buraco na cabeça;
— não sou uma espécie protegida;
— não canto lá muito bem.
A caminho da contemporaneidade
Eu já tive um cão que, por defeito de formação, adorava Mozart. Piano, principalmente. E digo defeito porque eu, contrariamente ao meu cão, regra geral não gosto de Mozart. Agora tenho um gato que gosta de Autechre e não se queixa de Debussy. Também não se queixa da programação musical da TSF, o que me faz nascer a suspeita de que não é suficientemente crítico a esse respeito. Talvez que a velhice possível se faça acompanhar de um periquito deprimido com quem possa partilhar longas horas contemplativas ao som de Arvo Pärt.
... quando percebeste que o tempo tudo cura sempre da mesma forma matando













Onde é que você estava no 11 de Setembro?
Estava em busca de benzodiazepinas e de prolongar as férias por um dia, o que, para quem recorre ao Serviço Nacional de Saúde, pode revelar-se uma aventura de final imprevisível. Felizmente, e como moro perto do Centro de Saúde, tive a oportunidade de seguir os eventos com uma atenção que não me seria permitida caso a sujeição ao sistema de marcação de consultas me obrigasse a estadas prolongadas na sala de espera. Mas o melhor é começar pelo princípio.

O defunto — ou talvez não tanto — sistema de marcação de consultas no Centro de Saúde consistia em, muito praticamente, ir ou telefonar a marcar a consulta para dia tal. Assim. Depois, era ir para lá, até meia hora antes do início do período de consultas do dia em que tinha caído a marcação para confirmar a consulta e esperar até que chegasse a vez. Horas marcadas eram, nos longínquos dias do estertor da guerra fria, uma inovação que, sabia-se, já tinha chegado a alguns locais da América do Norte, Europa e Japão. Afinal, as coisas nesse tempo não eram como são agora: apanhar um avião em certos aeroportos não era uma sessão de strip em fila indiana, a Chechénia ainda era notícia, os telemóveis pouco mais faziam que chamadas e Portugal não tinha ainda um verdadeiro governo. Outros tempos.

No entanto, podia pedir-se um jeitinho com muito jeitinho à funcionária administrativa do Centro de Saúde, e então ela dizia-nos, na ocasião da confirmação da consulta, mais ou menos a que horas julgava ela que seria possível ao sotôr atender-nos, baseada num cálculo que envolvia variáveis complexas como o número de pessoas que estavam à frente e o tempo a mais que o sotôr tinha demorado a almoçar. Sim, o período de consultas do meu médico de família no dia 11 de Setembro de 2001 foi das 14 às 16 horas (que fique para a posteridade e para trabalho dos gestores de conteúdos), o que, sem o jeitinho com muito jeitinho da funcionária, poderia representar até 2 horas de espera. Ou mais, dependendo dos atrasos no almoço do sotôr.

Era então coisa de um quarto para as duas quando saí de casa com o objectivo de chegar ao Centro de Saúde um pouco antes do período de consultas para não apanhar o inferno que é o corredor onde se situa tudo, desde os consultórios à sala de vacinação e aos gabinetes administrativos, passando pela sala de espera, preenchido pela mole de pobres e criancinhas birrentas que, por efeito da falta de liquidez financeira ou do vínculo mais ou menos precário à administração pública, recorre ao SNS.

Esperei uns minutos até que a funcionária administrativa despachasse quem estava à minha frente, entrei, sentei-me, confirmei que, de facto, pretendia ser consultado naquele dia, e pedi, com muito muito muito jeitinho, que me dissesse a que horas seria atendido. Ela, com ar de quem estava a fazer um favor maior que a vida, lá me disse que seria atendido por volta das três, três e meia. Como passar uma hora, àquela hora, na sala de espera do Centro de Saúde seria quase tão mau como estar dentro de um avião sequestrado por terroristas, decidi que era melhor voltar para casa e esperar.

Chegado a casa, pouco passaria das duas, deparei com um Jornal da Tarde invulgarmente longo que transmitia unicamente imagens do World Trade Center em chamas e os comentários atabalhoados do Paulo Camacho. Não soube o que pensar, especialmente quando reparei que estavam as duas torres em chamas. E tudo se tornou ainda mais confuso quando, pouco depois, chegaram as primeiras imagens do Pentágono, que tinha acabado de ser, «também», atingido por um avião.

Não pude seguir atentamente o desenrolar dos eventos, uma vez que, pouco depois, tive que voltar para o Centro de Saúde, onde a televisão da sala de espera já estava aos berros, o que ainda assim era insuficiente para chamar a atenção dos pacientes, que estavam a uma distância atlântica dos acontecimentos. Em compensação, o meu médico de família, que me iria atender dentro de minutos, andava num corrupio entre o consultório e a TV. Descobri depois, porque ele mo disse, que estava exultante por os «cabrões dos americanos» se terem lixado (não posso garantir que «lixado» tenha sido o termo, e pelo tom do resto da conversa desconfio que não foi, mas como não tenho a certeza, fica assim). As afirmações entusiásticas sucederam-se e eu, para ver se o homem me despachava a receita e a justificação da falta, concordei com tudo e até disse qualquer coisa de fraco gosto acerca do Kosovo. Pareceu-me bem, na altura, especialmente por conhecer o fervor com que o meu médico de família vive as suas opções ideológicas.

Depois, foi o que se sabe e agora mundo já não é o mesmo. O Centro de Saúde, por exemplo, aderiu à informática e as consultas passaram a ter hora marcada. Os pacientes, esses continuam a amontoar-se durante horas na sala de espera porque a funcionária administrativa, que antes do 11 de Setembro fazia um jeito, agora não está numa de olhar para o computador para ver a que horas ficou a marcação e continua a mandar as gentes irem para lá no início de cada período das consultas. Outros tempos, lá está.

Nota para quem acabou de ter uma perturbante sensação de déja lu: sim, é verdade, este texto foi escrito e utilizado originalmente no dia 11 de Setembro de 2002 e reaparece agora, ligeiramente alterado, porque reutilizar é preciso.
Os Burros de Tróia (notas para um guião)
1. Os bombeiros de Setúbal protestam por terem sido rudemente excluídos do show porque, segundo dizem, se houver azar eles põem-se lá em 20 minutinhos de ferry-boat.

2. O magnata promotor do show anuncia em curtas declarações que o que se seguirá é apenas médio comparado com o que o futuro ainda irá trazer. Um fio de sangue corre-lhe quase imperceptível do canto da boca.

3. Um antigo Presidente da República que passeia pelo local diz esperar que o novo empreendimento resultante daquele show permita às massas populares da zona uma fruição pessoal acrescentada.

4. Vários elementos dessas massas populares ainda sem fruição pessoal acrescentada vêem o Pai Natal, que todos julgavam desaparecido para sempre, sobrevoar várias vezes a zona onde o espectáculo está prestes a começar escoltado pelos F-16 da Força Aérea Portuguesa.

5. Música épica provoca alguns desmaios, há uma contagem decrescente.

6. Dois mamarrachos de 16 andares vêm abaixo em 10 segundos.

7. O primeiro-ministro, distraído na varanda de um outro mamarracho que por alguma razão não vem abaixo, e que acumula ilegalmente com a função de mestre de cerimónias, carrega no botão de fantasia no momento em que um dos mamarrachos já está por terra.

8. Um jornalista que apresenta a transmissão em directo do show na rádio tenta suprir a falta do elemento visual exigindo ao seu colega em directo no local que lhe descreva penínsulas envoltas numa poeira cuja existência este se recusa a admitir.

9. O magnata promotor do show faz um discurso em que, lavado em lágrimas, se queixa dos 8 anos que precederam aqueles gloriosos 10 segundos e do preço a que estão as chamadas para o estrangeiro.

10. O primeiro-ministro, ladeado por uma senhora completamente coberta de autocolantes com os dizeres «Gaja Nua», «Gaja Boa» e «Não Invente, Vá ao Continente», faz um discurso errático em que aproveita para dar a notícia de que a economia portuguesa cresceu meio por cento no segundo trimestre.

Nota (figurinos): contrariamente ao que a envolvência faz supor, nenhum dos participantes está vestido de palhaço.
42,5
Para quem como eu abomina todo o processo da compra de sapatos, desde a decisão de me lançar na busca até ao acto de pagamento, a poesia interrompida que o Bruno foi encontrar na frase «a sapatilha dá de si», com que a rapariga da sapataria teve a bondade de o presentear, deixou-me com outro alento para o futuro. Não garanto que deixe de ser um adepto do modelo entra-prova-paga-cala de megastore, em que consigo dispensar (e dispenso, de facto) todo contacto verbal para além do verde-código-verde boa tarde muito obrigado igualmente, mas vou pensar no assunto. Não prometo que dê de mim, nem tão-pouco que dê o melhor de mim a esta causa, mas vou pensar no assunto.
Ars vivendi


Quino, Mafalda

Ocorrências
O Intercidades com partida de Lisboa-Santa Apolónia e com destino ao Porto-Campanhã estava cheio de passageiros («malta») provenientes de um circuito dos festivais ou coisa que o valha. Com a chegada do revisor («pica»), verificou-se ser a situação de vários desses passageiros («malta») irregular aos olhos da CP, por várias ordens de razões: havia os que tinham bilhete para comboio inter-regional, havia os que tinham bilhete para comboio intercidades mas não àquela hora, havia os que tinham bilhete para aquele comboio intercidades mas apenas entre Coimbra-B e Porto-Campanhã, enquanto que estávamos, naquele momento, na zona de Vila Franca de Xira. A acesa troca de palavras entre o revisor («pica») e os pasageiros («malta») foi inconclusiva, com aquele a exigir a revalidação dos bilhetes (i.e., que os pagassem novamente) ou a saída do comboio e estes últimos a recusarem-se terminantemente a fazê-lo ou a saírem. O revisor («pica») pegou então num telemóvel e telefonou para algures na CP, comunicando que a) tinha ali dezenas de passageiros («malta») em situação irregular, que b) esses passageiros («malta») não estavam na disposição de regularizar a sua situação contratual com a CP, que c) esses passageiros («malta») nem queriam ouvir falar da possibilidade de serem forçados a abandonar o comboio na próxima estação e que d) ele próprio («pica») já não estava em «condições psicológicas de continuar» (sic). Do outro lado, alguém lhe disse que esses passageiros («malta») poderiam seguir no comboio, mas que, em caso de chegarem os passageiros titulares dos lugares indevidamente ocupados («outros»), aqueles («malta») deveriam levantar-se e fazer o resto da viagem em pé, à sua responsabilidade.

Um pouco à frente na carruagem, um outro grupo de jovens («jovens»), com toda a certeza proveniente de algum sítio mas talvez a caminho de parte nenhuma, cantava e tocava (guitarra e djambé) canções de inspiração cristã que me escusarei aqui tentar reproduzir por escrito porque tal seria um esforço patético e porque tal seria um esforço inútil: aquelas canções são sempre iguais. Esse grupo de jovens («jovens»), que na sua maioria envergavam t-shirts com versículos do Novo Testamento e com dizeres incompreensíveis como «Quando virares as costas a Jesus, pensa nas costas d’Ele» (sic), era bastante barulhento e já tinha suscitado alguns comentários («larachas») por parte dos passageiros («malta») que ocupava a zona da carruagem em que eu ia. Após o incidente com o revisor («pica») descrito no parágrafo anterior, os comentários («larachas») subiram de tom, atingindo mesmo um mau gosto só comprável à barulheira infernal que os jovens («jovens») faziam. Ainda por cima desafinavam. Muito. Subitamente, um choro convulsivo tomou conta de uma jovem do grupo de jovens («jovens») porque, como viemos todos a perceber passado pouco tempo, os pais dela tinham sido surpreendidos enquanto circulavam de carro algures pelo país por um incêndio e estavam com dificuldade em respirar. Naturalmente, fizeram a única coisa que se deve fazer numa situação destas, ou seja, ligaram à filha («jovem») que estava fechada num comboio Intercidades superlotado a comunicar-lhe o facto, provocando-lhe assim um ataque de pânico que a deixou também a ela com alguma dificuldade em respirar. Tanto quanto me pude aperceber pela posterior acalmia da jovem («jovem»), o desfecho foi positivo, seja lá isso o que for.

Mas entretanto, o estado convulsivo da jovem («jovem») serviu de pretexto a que uma comitiva dos jovens («jovens») viesse à zona da carruagem em que eu me encontrava para protestar com os passageiros («malta») pela sua falta de respeito pelas crenças dos outros. Os passageiros («malta») retorquiram a várias vozes que desrespeito estavam eles («jovens») a demonstrar ao imporem canções religiosas a toda a restante carruagem. A discussão aqueceu mas sempre dentro de limites que poderei classificar como decentes e houve mesmo um dos jovens («jovens») que, sem mais nem menos, abraçou um dos passageiros («malta») com quem discutia, naquilo que considero ter sido uma manobra de proselitismo encapotado e um pouco bacoco. Aos poucos, e sem nunca ter havido qualquer agressão ou insulto grave, a discussão foi-se dissipando e não mais voltou a haver troca de música por insultos, a não ser em episódios esporádicos de curtíssima duração.

Junto à saída, uma passageira («malta») e um passageiro («malta») entabulavam a conversa que dois passageiros («malta») entabulam quando acabam de se conhecer num comboio intercidades. Ela fumava um charro, enquanto ele fazia um charro para o qual estava a utilizar uma quantidade estapafúrdia de haxixe. A passageira («malta») acabou o charro e foi sentar-se. O passageiro («malta») acabou de enrolar o seu, que acendeu prontamente, e perguntou aos circunstantes (eu e outro individuo que também aguardava a paragem completa do comboio para poder sair) se eram servidos, garantindo que se tratava de produto da melhor qualidade. Muito embora não tivesse razões para desconfiar da franqueza da pergunta e da veracidade da informação, não aceitei, no que fui secundado pelo outro indivíduo, atitude de que me arrependi uns minutos depois, quando me apercebi de que iria ter de esperar 20 minutos pela ligação para Coimbra-A.

Durante todo o período a que se reportam as ocorrências acima, permaneci em silêncio com a possível excepção de um ou dois risos que, julgo, não terão tido um papel assinalável no desenvolvimento das situações.
Não há sobremesas grátis
Explicaram-lhe detalhadamente como funcionavam as coisas. Ele passou o tempo da explicação, que não foi pouco, concentrado na luta que a sua língua travava com as fibras de nectarina verde que se tinham entalado entre o canino e o incisivo sobre o qual aquele se encavalitava. Perante a incapacidade de dividir a atenção, fingiu-a através de pequenos sinais de assentimento propiciados pelas pausas e entoações dos outros. Não conseguiu evitá-lo e teve vergonha de pedir que aguardassem até ele resolver aquele problema, mesmo sabendo que, se avançasse para essa atitude, poderia ver-se livre dos restos de nectarina com outra rapidez e comodidade. E eles continuaram a falar, a explicar, a acrescentar detalhes, enquanto ele pressionava obsessivamente a língua contra o interstício dental ao qual, simultaneamente, aplicava o máximo de sucção que lhe era possível sem produzir ruídos suspeitos.

Conseguiu ser tão eficaz que agora toda a gente garante que ele estava atento, que não houve nada de estranho no seu comportamento, que deu sinais de inequívoca compreensão dos assuntos expostos. Agora, evidentemente, ninguém se responsabiliza pelo que aconteceu, mas também não interessa porque já não há nada a fazer.
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