Uma questão de gramas
Percebes que estás mesmo gordo quando o teu cinto se vira para ti com fivela de mau e diz que tens de ir para o ginásio.

Percebes que estás velho quando vais ao médico de família pedir o atestado que fará com que te aceitem a inscrição no ginásio e ele diz que primeiro tens de fazer um electrocardiograma.
Sintomatologia (a not so private not so joke)
Espero bem que a juventude do objecto e a distracção dos potenciais sujeitos de leitura não estejam a fazer com que o Yesterday Man passe despercebido. Ignoro se a carne por detrás da electrónica (para usar uma caracterização inspirada em palavras passadas — nos dois sentidos — do Bruno) enverga roupa de lycra com Y ao peito e capa, nem a indumentária da criatura é do meu particular interesse, mas da sua escrita creio poder dizer que é túmida, com todas as implicações que adjectivação deste calibre pode acarretar.
Europe's best-kept secret
Renova-se hoje um certo nojo por me saber nuns 90 mil quilómetros quadrados em que as mulheres continuarão ser arrastadas pelos tribunais por se recusarem a ter filhos indesejados. Mas parece que é típico por estas bandas.
(re)Animator
A minha intenção era escrever alguma coisa sobre os porquês de o espectáculo de Kimmo Pohjonen me ter deixado novamente esmagado. Mas não consigo. Quem também já viu, há-de me perceber; quem não viu, ainda o pode fazer no próximo Sábado, na Guarda.


Foto de Marita Liulia, que também é autora e 'executora' do espectáculo multimédia ao vivo que acompanha a performance Animator de Kimmo e que fez anos hoje.
A queda da Babilónia
Sete. Nem mais, nem menos. Eram sete, mesmo ali junto da janela do meu quarto, no telhado da casa em frente. Vão-se revezando e assim passam por ali umas boas dezenas deles por dia. E àquela hora, quando acordei, eram sete. Eles põem-se a olhar para mim, muito quietos, e se eu abro a janela de repente, fogem. Mas hoje não fiz nada. Nem sequer abri a janela. Hão-de ter ido à vida deles, mais tarde ou mais cedo. Mas eles voltam sempre. Eu sei que eles voltam, eu já os topei. Eles vão à Baixa em busca de milho e depois voltam, uns atrás dos outros. E pernoitam. Volta e meia arrulham. E espirram. Sim, eles também espirram, lançando nuvens de vírus para o ar que respiramos. O ar que temos de partilhar com eles. Aos pardais, nem os posso ver. Pequeninos, discretos, quase não se dá por eles, mas eles também andam aí. Voam, melhor dizendo. E também ficam a olhar para nós com aquela expressão ancestral. E também espirram, que eu já vi. Deixei de passar por baixo das árvores para minimizar os riscos. Já me disseram que mais perto do mar continua tudo cheio de gaivotas, como dantes. Como se não se passasse nada. O país está coberto de agentes patogénicos voadores e o governo entretém-se com o orçamento e coisinhas do género. Há-de nos servir de muito o orçamento quando estivermos todos mortos. Todos, sim, todos! Estão à espera de quê?
República das Hóstias
Esqueçamos por momentos Felgueiras e a Felgueiras, a falência da Segurança Social, o preço das portagens, as falésias cheias de hotéis, Bragança sem bordeis, os rios mortos pelas pocilgas, a corrupção no futebol, o aumento do IVA, as listas de espera nos hospitais, a Madeira e o seu Jardim, o estado da Justiça, a investida do Professor Kavako, os resultados a matemática, os erros ortográficos, os enganos topográficos, a miséria da floresta, os touros de morte em Barrancos, a impreparação para a gripe dos passarinhos, as casas tipo maison, as novas idades de reforma, Gondomar e o seu Major, o buraco no orçamento, a seca severa ou extrema, a lentidão dos serviços públicos, a chulice dos serviços privados, Oeiras e as contas na Suiça, o cartel das farmacêuticas, a desordem do território, as perturbações da ordem pública, as fraudes nos impostos, a falta de mão-de-obra especializada, os buracos nas estradas e rejubilemos com a desgraça alheia: a partir de agora, na Polónia, a mesma Polónia com quem partilhamos a mama da União Europeia, o primeiro-ministro e o presidente da república são dois irmãos gémeos — os manos Kaczynski — fundamentalistas católicos, militantes de um partido de chama da Lei e da Justiça. Aleluia!
Coisas (que deviam ser ainda mais) complicadas

Mark Tansey, Forward Retreat, óleo sobre tela, 1986
PROFESSOR KAVAKO
FINANÇAS PÚBLICAS FINANÇAS PRIVADAS AMORES DESAMORES ENCORNAMENTOS INSTABILIDADE ECONÓMICA INSTABILIDADE POLÍTICA INSTABILIDADE NA CAMA INSTABILIDADE NA MESA INSTABILIDADE NA ESTANTE INSTABILIDADE NA BANCA DA COZINHA PROBLEMAS NO TRABALHO PROBLEMAS NA ESCOLA PROBLEMAS COM OS FILHOS PROBLEMAS COM OS PAIS PROBLEMAS DE GOVERNAÇÃO DÉFICES EXCESSIVOS MAU OLHADO MAGIA NEGRA MAGIA BRANCA MAGIA DE VÁRIAS CORES EM CATÁLOGO FROUXIDÃO DESÂNIMO FALTA DE ESPERANÇA SAUDADES DE CASA VÍCIO DO JOGO VÍCIO DO ÁLCOOL VÍCIO DA DROGA VÍCIO DO TABACO VÍCIO DA PASTILHA ELÁSTICA OU NÃO DOENÇAS DA CABEÇA ATÉ AOS PÉS ACEITA DINHEIRO CHEQUE VISA MASTERCARD AMERICAN EXPRESS TELEFONE JÁ 666 666 666
A promessa de um futuro melhor
A existência de um grau de parentesco bastante próximo entre a promessa de um futuro melhor e os filetes de cavala em óleo vegetal comprova-se, por exemplo, pelo facto de ambos se aguentarem muito bem em conserva. A promessa, porque o futuro talvez não.
Gaydar
— Meu comandante!
— Raios, grumete, que susto! Já lhe disse para não entrar assim quando eu estou... hmmm... sozinho. O que o traz aqui, grumete?
— O meu tenente manda dizer que talvez tenhamos detectado alguma coisa, meu comandante.
— E por «alguma coisa» quer dizer o quê, grumete?
— Alguma coisa, meu comandante.
— Estou a ver. E disse «talvez»?
— Sim, meu comandante, é um sinal muito fraco e irregular mesmo na orla do nosso raio de acção. Um blimp blimp muito débil, segundo as palavras do meu tenente, meu comandante.
— Ah, é desses. Resta saber se essa debilidade se deve a avaria nossa ou ao facto de ser mais um objecto furtivo. Tem algo que me possa dizer a este respeito, grumete?
— Se o meu comandante me permite, I have no fucking idea... yet, meu comandante.
— Ha! Ha! Ha! Agora teve graça, grumete, que não se repita.
— Sim, meu comandante.
— Agora vá-se embora e diga ao tenente para ter tudo a postos. Se não houver novidades nas próximas horas, enviaremos uma equipa de reconhecimento ao local.
— Sim, meu comandante.
Confetti
O horror da falta de disponibilidade gera o escândalo da falta de exuberância: este blog faz hoje 1 (um) ano e não há bolo, aperitivos, champanhe, pimba aos berros ou fogo de artifício; há apenas estes confetti um bocado foleiros feitos à pressa para que o evento não fique completamente despido de cor.

O arquétipo
Excepto no caso de modelos ordinários constituídos por duas partes cuja junção se nota, tornou-se impossível distinguir com a vista — e não tardará muito até que o mesmo se passe com o paladar — uma maçã de plástico de uma maçã nascida de uma árvore. E a verdade é que não foram dados passos gigantescos no campo da simulação frutícola como consequência de avultados investimentos em I&D por parte da indústria da maçã para fins decorativos. No essencial, as imitações mantêm-se na mesma, mas uma boa maçã de plástico fabricada em 1985 que, nessa altura, seria apenas uma denúncia de mau gosto, corre agora sérios riscos de ser trincada inadvertidamente.

Neste caso, o que se passou foi que os fabricantes de maçãs de imitação só tiveram de ficar no seu lugar à espera que os processos de normalização exigidos pela economia de mercado (ou assim) fizessem as maçãs de árvore aproximar-se do ideal kitsch (kunderiano) representado pelas falsificações. O resultado é o que se pode ver em qualquer hipermercado: uma palete de maçã starking é um conjunto de frutos indistintos, desprovidos de sabor e maquilhados com uma generosa camada de cera à qual está apenso um pequeno e incómodo autocolante que, por enquanto, ainda nem sequer inclui informação respeitante ao número de série.

A passagem dum paradigma em que se espera que a arte imite a vida para um em que a vida já imita a indústria de produção de acessórios de decoração suburbana, é, na minha opinião, mais uma prova irrefutável de que nos deveríamos arrepender porque o fim está próximo ou algo do género mas a cores. Não será por mero acaso que o fruto em que este fenómeno é mais evidente é a maçã... Mas isto sou só eu a falar, vocês lá saberão das vossas vidas.
BDSM
Perco finalmente uns minutos a olhar para este blog e reparo que cada vez mais é adequado o (cog)nome que lhe dei. Era um pormaior esquecido que afinal se colou, se tornou independente e ganhou vida para vir atrás de mim e apanhar-me quando eu não estou a olhar. E a verdade difícil é que eu quase nunca estou a olhar. No fundo, não é grande a surpresa: sempre soube, mesmo antes de ter aprendido a escrever, que era esse o jeito caçador das palavras e se calhar é para isso que aqui estou: para ser apanhado por elas. E para gostar mesmo quando dói.
Ode Boreal
(fragmento aleatório de inspiração vagamente anticapitalista como prelúdio à gripe das aves)
(...)
As praças europeias caem
Os mercados asiáticos deslizam
Nova Iorque corrige
(...)
O desvio padrão do Inspector Rousseau
O Inspector Rousseau está farto de massa encefálica a escorrer de objectos contundentes, de sangue coagulado em tapetes baratos, de corpos seccionados enfiados em caixotes do lixo. Em suma, o Inspector Rousseau está farto de ser inspector e pretende ir atrás do seu sonho secreto de infância: tornar-se marujo. O Inspector Rousseau quer sentir o vento do Árctico a puxar-lhe os cabelos, ser beijado pelas brisas aromáticas dos trópicos, passar a língua nos lábios gretados pelo sal, adormecer embalado no compasso das ondas, ser diariamente trazido à vida pelo marulho, ter um amor em cada porto. Isto, claro, em média, porque será muito mais excitante se houver portos onde tenha mais que um amor e outros onde não tenha nenhum. Assim, «um amor em cada porto» deverá ser encarado, na melhor das hipóteses, como um valor indicativo que corresponderá, na realidade, a um resultado situado perto de 1, mas que pode ser 0,8 ou 1,3 amores em cada porto, por exemplo, dependendo de como se conjugarem vários factores que seria fastidioso estar agora a enumerar.

Paris • London • New York

Considerai-vos agrafados/as
O Agrafo sabe que as suas aparições são sempre motivo de algum pânico. Justificado: o Agrafo só costuma dignar-se a conviver com as multidões quando assume como sua a missão de lhes apontar impiedosamente a inefável estultícia que sempre as caracteriza. Mas o Agrafo, na solidão lendária a que se remeteu por horror aos néscios, não ocupa o seu tempo exclusivamente com a anotação meticulosa da merda que permanentemente fazeis para um dia mais tarde vo-la esfregar no focinho. Não. O Agrafo também se dedica, entre outros porventura inconfessáveis, aos prazeres tão humanos da navegação electrónica. E hoje, excepcionalmente, o Agrafo deseja partilhar convosco algumas coisas belas e/ou engraçadas e/ou giras que foi descobrindo nos últimos tempos e que, julga o Agrafo sem grande convicção, talvez possam fazer algo pelo preenchimento dos vossos espíritos inanes. Temos, assim:

um refúgio para sobrevoar o esquecimento, que o Agrafo também considera, paradoxalmente, um bom refúgio para sobrevoar alguma memória;

o José Bandeira, não contente com o domínio da pena para vários fins, a dizer-nos amavelmente do seu apreço, que o Agrafo partilha comovido, pelas plantas, pelas fotografias e pelas estas daquelas;

um sítio verdadeiramente explosivo, trazido à superior apreciação do Agrafo pela sempre cortês e sapiente via da Linha dos nodos;

uma data de coisas boas para ir lendo aos bocadinhos ou aos bocadões sujeitas ao rigoroso escrutínio do Agrafo pelo sempre esclarecedor Casmurro e que, diz o Agrafo, também deveria haver deste lado do Atlântico;

o limiar do pretensiosismo, mas de que o Agrafo gostou muito por razões que o próprio não sabe nem estaria disposto a explicar caso soubesse, por mais que incorra no risco de ser injuriado pelas bocas e penas mais frívolas.
E, agora que já utilizou advérbios para duas ou três semanas, o Agrafo retira-se. Ide, ide lá às vossas vidinhas horrorosas.
Baixa
Os pedintes, os pombos, os funcionários, os colaboradores, os empreendedores, os velhos a quem a solidão prolongada foi comendo as aparências de sanidade, as cargas, as descargas, as recargas, os megafones dos candidatos no lugar das castanhas que ainda não chegaram e mais toda aquela gente que por lá anda sempre a caminho.
«O Homem em Eclipse»
Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se.
— A data! Digam a data,
a datasinha, faz favor!
— Qual data! Foi por decreto
que o homem se eclipsou,
foi só manobra, espertice,
um, dois, três, e pronto, é noite,
que nem a Lua apareça
seja de que lado for!

Uns seguraram-se logo,
eram espertos, bem se viu,
outros caíram ao mar
com cabeça pernas e tudo.
Quanto a mim perdi a calma,
fiquei desaparafusado,
tradição, cultura, estilo,
certeza, amigos, fatiota,
tudo fora do seu sítio
— um desaparafuso terrível!

Segurem-me, camaradas,
sinto pernas a boiar,
cheiro fantasmas, enxôfre,
estou aqui mas posso voar,
o parafuso da língua
vai partido, vai saltar.
Agarrem-me! Agarra! Pronto.
Pari o mais leve que o ar


[Mario Cesariny]
O lado errado
Durante os eclipses parciais, coisas vulgares que só servem para nos distrair do que realmente interessa, o maior espectáculo está no chão. A luz do sol que passa pelos interstícios das folhas das árvores projecta-se no chão com o formato do sol semi-eclipsado. Este fenómeno é observável em qualquer situação em que a luz passe por orifícios pequenos — pelos buracos das persianas, por exemplo, para se ir projectar entre o Turner e o Luís XIV — mas debaixo das árvores é mais aleatório, variado e constitui o melhor pretexto para sair: «Vou ver o eclipse debaixo das árvores».

E no entanto, toda a gente olha para o lado errado.


O assunto
Quando lhe pedi que escolhesse um dia para tratarmos do assunto, ela, atropelando-me, disse que no fim-de-semana seguinte não podia. Um vez que eu não tinha sugerido o fim-de-semana seguinte ou qualquer outro dia, aquela informação surgiu como uma não-resposta ao meu pedido que entendi, até pela ânsia dela, como um incentivo à formação de novas conversas. E perguntei o que ia acontecer no fim-de-semana seguinte, ao que ela respondeu, trocando a ânsia pela brusquidão e por uma incapacidade nova de olhar para mim, que isso não era da minha conta. Houve um curto impasse, ultrapassado pela minha desistência temporária na tentativa de atribuição de sentido e similares, e o jantar e a noite correram como poderia ter sido previsto.

Imagino que, no Sábado do fim-de-semana seguinte, não era muito previsível que eu estivesse naquele sítio àquela hora. Nada de verdadeiramente espantoso, quer no local, quer na hora — uma rua, um fim de tarde —, mas invulgar para alguém que, como ela, conhecesse as minhas rotinas. Isto não impediu que nos portássemos todos muito bem quando o encontro aconteceu: eu consegui controlar a vontade de rir sem que o esforço se notasse, ela produziu um sorriso de alegria extática por me ver que nunca passou por amarelo, o novo amigo dela foi de uma candura só possível em quem ignorava o secretismo reservado ao programa que estava a cumprir. Fizemos 2 ou 3 minutos de conversa acerca das revoluções dos corpos celestes, o novo amigo dela convidou-me para jantar com eles, ela aguentou o segundo e meio que eu levei a declinar o convite sem que o espasmo de felicidade lhe esmorecesse no rosto e seguimos para as nossas vidas, eu para um lado, eles para outro.

O assunto para o qual tínhamos de reservar um dia acabou, naturalmente, por ser tratado noutra altura sem que estes factos o tenham afectado de forma sensível. Não quero dizer que estes factos tenham seguido um rumo só deles, com consequências distantes e desconhecidas: os acidentes ficam caros, e este não foi excepção. O que quero dizer é que isso não é da vossa conta.
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