– Chamou, sôtora? – Sim, Clarice, entre e feche a porta. Chamei-a porque... – Sim, sôtora? – Bem, chamei-a porque queria dizer-lhe que o engenheiro Borba, do marketing, sabe?... – Claro, sôtora, então... – Prontch. Queria dizer-lhe que o engenheiro Borba se tornou uma pessoa muito importante para mim nos últimos tempos e eu quero que ele passe a ser tratado ao nível de um membro do conselho de administração. – Com certeza, sôtora. – Quando ele me ligar, interrompa-me, seja qual for a circunstância. – Sim, sôtora. – E queria ainda pedir-lhe um favor, Clarice. – Diga, sôtora. – Discretamente, sem grandes alaridos, espalhe pela empresa que o engenheiro Borba é uma pessoa importante para mim. Muito importante. É bom que as pessoas comecem a habituar-se a essa ideia e que passem a agir em conformidade. – Claro, sôtora. – Não sei se percebeu Clarice... – Percebi sim, sôtora. – Quero eu dizer... Se percebeu o que eu quero dizer quando digo que o engenheiro Borba é uma pessoa muito importante para mim. Está a perceber o que isso quer dizer, não está, Clarice? – Estou sim, sôtora. – Prontch, era só para ter a certeza. É que nunca se sabe, às vezes podia não perceber e eu queria evitar confusões, mal-entendidos. O engenheiro Borba é uma pessoa importante, ou seja... – ... – Ou seja, é uma pessoa especial para mim. Mas quando contar isto aos restantes colaboradores da empresa não vale a pena entrar em pormenores. – Claro, sôtora. – Tipo que nos andamos a comer depois do horário de expediente no elevador da ala Oeste. – Pois... sôtora... – Para cima, para baixo, para cima, para baixo. Prontch. Importante para a sôtora deve chegar para as pessoas perceberem. Pode retirar-se, Clarice. – Sim. Com licença... – Para cima, para baixo, para cima, para baixo... – ...sôtora.
(Nota: este diálogo foi inspirado por outro ouvido há dias numa telenovela brasileira que eu não consigo identificar). |