Acontece que o Inspector Rousseau foi um gato chamado Voltaire numa vida passada. Um gato antracite de olhos amarelos hipnóticos, gordo e ronronante, que se passeava calmamente ao ritmo do sol no andar ocupado pelo estúdio de um mestre pintor no centro de Bolonha. Os seus melhores tempos foram passados de barriga para o ar no enorme tapete feito com a pele de um seu primo afastado enquanto uma das 3 pessoas à face da terra que estavam autorizadas a tocar-lhe sem o risco de desfiguração imediata lhe fazia festas na barriga com as pontas dos dedos. Aparte um longo miado ocasional que percorria melancolicamente os corredores em busca de variedade alimentar, não era animal para procurar interacções desnecessárias e o seu desaparecimento, em idade ignota mas seguramente respeitável, foi sentido pelo dono e frequentadores habituais do estúdio com desgosto suportável. Aos vários quadros que deveriam imortalizá-lo, perdeu-se o rasto.
Acontece que aquele desgraçado que corre pela rua abaixo sob a mira do Inspector Rousseau, para além de ser procurado pela polícia pela ingestão com demasiado sal de três freiras carmelitas descalças conhecidas nos meios artisticos underground da cidade como Swinging Sisters, foi um rato numa vida passada.
Acontece que há coisas que, mais tarde ou mais cedo, têm de acontecer. |