No exacto momento em que o presidente do conselho de administração da Portugal Telecom começa o seu comunicado em directo nos telejornais, a propósito da OPA, tocam à campainha. São uma senhora e um senhor, muito simpáticos, que se apresentam como sendo da TV Cabo, uma empresa do grupo Portugal Telecom conhecida pela qualidade dos serviços que diz prestar. Que agora posso ter 40 canais por apenas 15 euros por mês. Que também posso ter internet. Que lá por não estar interessado não quer dizer que não fique com a brochura.
Despeço-me cordialmente, fecho a porta e volto para dentro de casa, para dentro da televisão que continuará a funcionar graças a uma antena deprimente. Em nome das árvores abatidas para a fazer, abro a brochura ainda ao som do presidente do conselho de administração da Portugal Telecom e a primeira coisa que vejo é que os 40 canais afinal custam 21,76 euros por mês, e não 15. Esta descoberta, neste ambiente, provoca-me uma sensação inédita de comunhão com o sagrado ou coisa que o valha. Vivo momentos de êxtase que julgava só serem possíveis com o recurso a designer drugs. Minutos depois, o comunicado do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sr. Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral, destrói tudo e eu volto ao estado miserável de sempre. É para isto que nasci e não há nada a fazer. |