«Neste mundo [Roma], os comportamentos não eram classificados de acordo com o sexo, o amor pelas mulheres e pelos rapazes, mas segundo a actividade ou a passividade: ser activo é ser um macho, seja qual for o sexo do parceiro dito passivo. Ter prazer virilmente ou dar prazer servilmente — eis tudo. A mulher é passiva por definição, a menos que seja um monstro, e não é tida nem achada no assunto; os problemas são encarados do ponto de vista masculino. As crianças não contam mais do que as mulheres, sob condição de que o adulto não se ponha ao seu serviço para lhes dar prazer, limitando-se ele a tirar prazer disso. Estas crianças, em Roma, são escravos que não contam e, na Grécia, são efebos ainda não cidadãos, embora possam continuar a ser passivos sem desonra.
Em contrapartida, abatia-se um desprezo colossal sobre o adulto macho e livre que era homófilo passivo ou, como se dizia impudicus (é esse o sentido mal conhecido desta palavra) ou dia-tithemenos.(...) Expulsava-se do exército os homófilos passivos, mas viu-se o imperador Cláudio, que nessa ocasião mandava cortar cabeças em série, poupar a vida a um impudico que tinha 'prazeres de mulher': um ser como esse iria conspurcar a lâmina do gládio do carrasco. O indivíduo passivo não era mole devido ao seu desvio sexual, pelo contrário: a sua passividade não era mais que uma das consequências da sua falta de virilidade e tal falta permanecia como um vício capital, mesmo na ausência de qualquer homofilia.
Isto porque esta sociedade não passava o tempo a perguntar se as pessoas eram homossexuais ou não; todavia, ela dedicava uma atenção desmedida a ínfimos pormenores de toilette, de pronúncia, de gestos que, em tais campos, denunciassem uma falta de virilidade, quaisquer que fossem os seus gostos sexuais. O Estado romano proibiu, por diversas vezes, os espectáculos de ópera (a que se chamava então pantomima) por serem amolecedores e pouco viris, ao contrário dos combates de gladiadores.
(...)
Seria errado ver a Antiguidade como o paraíso da não repressão e imaginar que ela não tinha princípios; simplesmente, os seus princípios parecem-nos perturbantes, o que nos deveria fazer suspeitar de que as nossas mais fortes convicções não têm mais valor. Havia ligações ilegítimas mas moralmente aceites, como no caso do adultério, entre nós, na boa sociedade, ou no caso da união livre, mais recentemente ainda. (...) Outras relações, numerosas, eram moralmente tão suspeitas quanto ilegítimas. Isto porque a maior parte da homofilia era considerada como censurável, embora não de acordo com a nossa moral. Havia, enfim, relações ilegítimas, imorais e, em acréscimo, aviltantes. Eram mais do que um acto condenável que escapara ao seu autor: o horror do acto remontava ao seu próprio autor e provava que, por ter feito tal coisa, ele tinha de ser monstruoso. Passava-se então da condenação moral à rejeição a que chamaríamos racista. Era o que se passava, já se disse, com a passividade nos homens livres, com prazeres aviltantes para as mulheres (chamemos as coisas pelos seus nomes: com o cunnilingus) e, finalmente, com a homofilia feminina, sobretudo em relação à amante activa — uma mulher que se toma por homem, isso é o mundo às avessas. Horror idêntico ao das mulheres que 'cavalgam' os homens, como diz Séneca.
Tudo isto redundava numa visão da homofilia que não era menos mítica do que a nossa, embora diferentemente. Ela reduzia todas as homofilias a um caso considerado típico: a relação activa do adulto com um adolescente que não tem nela qualquer prazer; tendia-se a acreditar que era esse o caso geral, porque esta relação activa e sem languidez tranquilizava, pois não se lhe conhecia, dizia-se, a agitação e a servilidade da paixão.»
Paul Veyne, «A Homossexualidade em Roma» in Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lx, 1998 [2ª ed.] Tradução de Ana Paula Faria
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