«Escrevia sinopses para as contracapas dos DVD, razão pela qual não tinha muitos amigos, mas era uma pessoa adorável», explicou ela tocada ao de leve pela loucura, com um sorriso trémulo nos lábios. Durante todo o tempo em que estivemos lá em casa, percorreu repetidamente o corredor de uma ponta a outra enquanto passava a mão direita perto das paredes, sem nunca as tocar, como se nelas ainda estivessem penduradas as molduras cuja presença passada apenas os buracos dos pregos denunciavam. Houve vezes em que os olhos foram ameaçados pelas lágrimas, mas nenhuma em que tenha chorado, e a fala pausada, estudada, nunca tremeu.
Ele foi mais uma das vítimas da Guerra dos Germes de 2007-2009, um entre biliões de anónimos condensados no monumento que esta semana foi inaugurado na recém-reconstruída Avenida da Liberdade. «Era tudo para os outros», insistiu ela. «Parece que ainda o estou a ver ali, na cozinha, com o Sonasol antibacteriano numa mão e o BioKill na outra a gritar insano, a dizer para eu fugir para tão longe quanto o mundo é largo. Já estava tudo tomado, eu sabia que era a última vez que o veria. E foi». Velha e solitária, relembrou novamente que não sobrou uma fotografia para além das muitas que guarda na memória. Dos poemas, nem isso, apenas alguns versos soltos que a morte dela há-de enterrar. |