Estremeço ao afirmar que o meu sobreiro sobreviveu. Estremeço porque há várias ignorâncias que me consomem: não percebo nada de sobreiros e, daquele em particular, vejo o que os breves segundos de passagem na estrada que ele tão bem adorna me permitem ver. Estremeço porque o ar já anuncia outro Verão e, embora o terreno esteja agora limpo dos molhos de acácias, pinheiros e eucaliptos que há uns meses lhe passaram o fogo, nunca se sabe o que poderá suceder. Morar na berma da estrada é uma profissão arriscada para qualquer um e ainda mais para uma árvore centenária.
Certo é que, depois das chuvas, o tronco continua negro, mas as partes mais altas dos ramos principais voltaram a apresentar a boa cor de cortiça acumulada ao longo de décadas que tinham antes do incêndio que em Agosto passado devastou uma parte considerável do distrito de Coimbra. A copa lá está, aparentemente intacta (renovada?), com excepção dos raminhos mais baixos, que ficaram carbonizados e estão agora, parece-me, irremediavelmente perdidos. Mas só quem olhar com atenção é que nota.
A minha frequência de passagem naquela estrada é agora menor. Já não vejo o meu sobreiro todos os dias, por vezes nem todas as semanas. Mas creio que ele me perdoa o distanciamento e compreende, mais que ninguém, as minhas razões para sair, tal como eu compreendo as dele para ali permanecer. Agora sabemos que a única diferença substancial entre nós dois é eu ter pernas e ele raízes. E é essa complementaridade que faz com que sejamos, de certa forma, o par perfeito. |