Há uns tempos, diria que o que mais detesto em ti é esse arzinho mole e o olhar desdenhoso. Ou talvez o andar, o teu andar que, não sei porquê, sempre me irritou. A forma de falar, também, e aquele tique que te leva o lábio inferior a afastar-se demasiado da gengiva para a seguir se arrepanhar junto dos dentes. Mas isso era há uns tempos. Agora, diria que o pior de tudo é o tom de voz com que respondes às minhas perguntas, sempre com aquela tremura distante e visceral, sempre como se estivesses perante uma acusação, o que nem sempre é verdade. Até parece que te estou a ver, de pescoço esticado como um galináceo estúpido e petulante a responder agrestemente às minhas inquirições, à minha caridade.
Jean-Antoine Watteau, Gilles (Pierrot), óleo sobre tela, 1718 Mas aquilo que eu não consigo mesmo perdoar-te é a ostentação dessa ferida que eu te fiz e que insistes em não ser capaz de cicatrizar. Inútil, sempre foste completamente inútil. |