Apareceu-me cá em casa há uns dias, lavada em lágrimas, a cache do teu velho browser. Serei directo: contou-me tudo. E, tal como me contou a mim, imagino que há-de ter contado a toda a gente. Disse-me que estava desfeita, que não conseguia aceitar o facto de praticamente só utilizares o novo browser, que a tinhas esquecido e que não queria desvanecer-se sem que toda a gente ficasse a saber o que te tinha aturado desde a última limpeza. Sabes como a cache de um browser consegue ser uma cabra ressabiada quando não lhe prestamos a devida atenção.
Neste momento já deves estar a perceber os motivos dos silêncios e dos olhares de esguelha que a comunidade agora te lança. Eu próprio, meu querido, não sei bem o que te diga e escrevo-te estas linhas porque não creio que, cara a cara, te consiga falar novamente. Dirás que a cache do teu browser não é da minha conta. De acordo. Digo eu que há coisas que prefiro não saber acerca dos outros, e menos ainda acerca dos que amo: por alguma razão existem os segredos, a mentira e o disfarce. Mas compreende que não me é possível agora esquecer o que sei acerca de ti.
E o que sei acerca de ti — o que toda a cidade sabe acerca de ti! — é que és um monstro de lascívia e devassidão, uma pessoa perturbada, talvez perigosa. Não deverás estranhar se as autoridades, umas quaisquer que se julguem competentes num caso destes, te importunarem dentro em breve. Não creio estar a exagerar se disser que assustas um pouco as pessoas. É provável que tenhas de ser obliterado de alguma forma, ainda que com a suavidade própria das opções que a legalidade e seus parentes próximos permitem.
Bem sei como tudo isto é injusto e como era este o momento em que precisarias de amigos que não te julgassem. Eu compreendo-te, pois tenho a perfeita consciência de que se a cache do meu browser desse com a língua nos dentes também eu estaria em maus lençóis. Mas a cache do meu browser não fala e não é previsível que fale tão cedo porque a mantenho limpinha e contente na sua exclusividade. Há cuidados que valem uma vida, meu caro, e aparências que valem duas. Por isso, meu amigo, perdoa-me se não te falar quando passares por mim na rua. O meu coração está contigo, o resto do corpo é que não. |