Pousada nos pedregulhos que fazem o pontão, a gaivota da asa descaída espera pela morte ao longo de toda a minha estada na praia a que o vento de Maio dá um ar de desígnio nacional prestes a ser cumprido. A proximidade de humanos faz a gaivota da asa descaída manifestar algum nervosismo, mas nunca tanto que a leve a fugir. A expressão nos olhos da gaivota da asa descaída já desdiz a imutabilidade erradamente atribuída ao olhar cirúrgico dos pássaros. Sem dramatismos, não deixo de pensar que terei sorte se a mim me suceder o mesmo. Ao lado, muito ao lado, o ranger do guindaste do barco que draga o canal parece-se com um cantar de mulheres em tempo de colheitas. |