Ontem, entrei no ginásio de manhã cedo, como é meu costume, fui aos balneários equipar-me rapidamente e dirigi-me à elíptica, onde tinha à espera meia hora de sofrimento desumano. Mas antes que tivesse acabado de parametrizar a sessão de tortura, reparei que a senhora que ocupava a elíptica ao lado da minha, uma cinquentona roliça e de estatura mediana, estava com uma cor de pele estranha — vermelho. E quando digo vermelho, não é aquele vermelho que resulta do esbaforimento próprio das perversões que se praticam num ginásio, é o vermelho forte do Canadá no meu planisfério.
Hesitante, desci da minha elíptica, que protestou intimando-me a manter um mínimo de 30 rotações por minuto, abeirei-me da senhora e perguntei: «Desculpe, mas está-se a sentir bem?» Ela, por um segundo surpresa e logo a seguir defensiva, empertigada mesmo, respondeu, sem olhar para mim, com um «Sim» quase demasiado rápido para ser captado por ouvidos humanos. «Mas está com uma cor um pouco estranha», insisti, «Tem a certeza de que não é melhor parar um pouco?»
A senhora suavizou a expressão facial, como que aliviada pela certeza de que era uma preocupação genuína o que me movia, parou de fazer exercício, olhou-me nos olhos, inclinou-se na minha direcção e sussurrou: «Ah, isto é mesmo assim, é da hora. Mais para o fim da tarde fico azul. E quando digo azul, não é aquele azul que resulta da dispneia própria do amor ao pôr-do-sol, é o azul do Egipto no meu planisfério.» |