Aderir à cientologia. Ter a minha mente (ou alma ou espírito ou o quê) colonizado (ou infectado ou manipulado ou assim) por um demónio extraterrestre ancestral é uma explicação que me serve perfeitamente. E ainda por cima dá-me uma certa vontade de rir. Justificar-me à gargalhada, que mais posso querer? Num país onde é quase impossível obter uma licença de porte de arma, ainda que para fins de suicídio, nada. Se um gajo quer dar um tiro nos cornos, nos seus próprios cornos!, tem de ir tirar uma licença de caça e gastar um balúrdio numa caçadeira, que é um equipamento concebido para dizimar a fauna inocente e nada mais. As probabilidades de o plano correr demasiado mal e acabar em simples desfiguramento são colossais. Por isso, os cornos, à falta de poderem ser estoirados, estão a partir de hoje ocupados (infiltrados, carcomidos, torturados, sequestrados, invadidos, inoculados, apossados, conquistados, anexados) por uma super potência alienígena. Se isto não chegar, resta sempre a salada metafísica para suburbanos a que, por preguiça, nunca me dediquei: as partes adocicadas do Novo Testamento, os bocados mais tenros do budismo, os signos do costume e um paganismo que viabilize a possibilidade de falar com mortos sem necessidade de recorrer a grandes produções. Uns mortos quaisquer, não interessa, desde que estejam indiscutivelmente mortos e não sejam os meus mortos, que não perder a vontade de rir é essencial. Até pode ser que desenvolva poderes mediúnicos e que, com eles, descubra novos amiguinhos e temas de conversa, feitos sabidamente mais difíceis a partir de uma certa idade. |