Roer um osso — humano, se possível, é um sonho português de sobrevida, após anos e anos de despirem com os olhos as mulheres que no Rossio por diante deles passam e das mãos movendo-se contínuas pelo bolso das calças mais viris da cristandade.
Roer um osso — humano, se possível, de mãe, de pai, de irmã, de tio ou prima, de amantes ou de esposas, filhos, netos, ou de inimigos ou de amigos mesmo, ou do vizinho em frente, ou dum retrato só visto no jornal, ou criatura desconhecida inteiramente — um osso.
Roer um osso — humano, se possível, mas pode ser de vaca ou de carneiro, ou porco ou gato ou cão ou papagaio, ou à sexta-feira bacalhau ou peixe em espinhas esburgadas que recordam o rosto doce ou monstruoso odiado na vénia às Excelências brilhantinas.
Roer um osso — humano, se possível, seja fingido mesmo, de borracha para durar mais tempo que não passa, ou de cimento pra quebrar-se os dentes no gozo de moê-lo cuspinhado (e o pensamento em furibunda mão que excita ansiosa as impotentes raivas).
Roer um osso — humano, se possível, é o sonho português de sobrevida.
Jorge de Sena, «Balada do roer dos ossos» |