O Inspector Rousseau não estava capaz de se lembrar do sítio onde tinha estacionado o seu vintage convertible cinzento metalizado e por isso cambaleava pelas ruas a caminho de casa. O seu único sonho naquele fim de tarde quente e doce, masturbar-se debaixo de um duche bem quente, parecia distante e inexequível: depois de ter transformado o estômago em depósito de vermute e benzodiazepinas, numa tentativa inútil de esquecer os cadáveres que lhe salpicavam o quotidiano, era improvável que conseguisse fazer mais que cair no chão e deixar-se ficar. E foi isso mesmo que aconteceu, ainda em plena rua, mas não devido ao seu estado tóxico. Se tivesse sobrevivido mais que uma fracção de segundo, o Inspector Rousseau poderia confirmar a tese que diz que não ouvimos o som do tiro que nos atinge. Mas ele agora não confirma nada, é apenas um corpo caído na calçada, com parte do crânio arrancado por uma bala de grande calibre, rodeado de transeuntes que chegam puxados pela curiosidade. |