«O horror da morte é anti-natural e mais próprio das civilizações atrasadas. Ponde uma criança inocente ao pé de um morto e ela é capaz de lhe fazer festas. Depois injectai-lhe a mioleirinha de horrores e ela fica com os horrores e larga o morto. Mas é então altura de o morto ir atrás dela e de lhe pôr os sonhos por conta. E nunca mais de lá sai, que os aposentos são bons, são mesmo os melhores do homem. Vós já pensastes quantas vezes sonhais com os mortos? Já pensastes quantas vezes acordais aflitos porque um morto passava a noite convosco? Dizeis vós que são pesadelos, coisa que vos pesa no miolo? É a vingança do morto sobre a vossa cobardia de medricas, a forma que tem mais à mão de vos chamar cagarolas. Porque é que não tendes cagaço de ver uma mosca morta ou um piolho ou mesmo um cão, que já vos mexe no entanto um pouco com o sistema nervoso, que já está contaminado de humanidade? Porque vós sabeis que um piolho ou uma minhoca são mortais e sofreis na mioleira da pancada da imortalidade. Aprendei a ser mortais. Aprendei a morte como aprendestes a estar à mesa, na retrete, desde o acto de amor ou desamor ao uso da toalha respectiva.»
Vergílio Ferreira, Na tua face