Há um primeiro momento de perplexidade em que não dá conta do que lhe está a suceder, de quem é aquele estendido lá em baixo. Depois, o Inspector Rousseau percebe que se trata do seu próprio corpo morto, com o crânio desfeito numa poça de sangue que se infiltra delicadamente nas fendas do cimento do passeio. Assim, visto de cima, parece mais gordo que ao espelho, até mais gordo que nas fotografias. Mas isso não importa mais que dantes, agora que vai subindo e o cordão prateado que o liga ao seu cadáver se torna mais ténue.
Alguns transeuntes começam a aproximar-se a medo. Passado não muito tempo, os mirones já provocam um engarrafamento e uma pequena multidão aproveita para tirar fotografias com os telemóveis. Uma senhora em estado de choque continua a balbuciar inanidades junto à entrada do prédio mais próximo. Um rapaz de fato e gravata aproveita a confusão para roubar maçãs da frutaria do outro lado da rua. Algumas pessoas começam a usar o telemóvel para telefonar, talvez para chamarem a polícia, uma ambulância. O cadáver do Inspector Rousseau torna-se turvo, desvanece-se. Na terra, os sismógrafos confirmam um pequeno e imperceptível terremoto. |