Nasci um bebé doente e enfezado de quem a família, os vizinhos e, à boca pequena, aqueles a quem agora chamamos «os profissionais da saúde» diziam que não duraria até aos 5. Aos 5, sobrevivente a uma série quase bíblica de maleitas falhadas, era uma criança macilenta, emaciada, em quem ninguém via vigor que chegasse para viver até aos 10. Aos 10, sangrava com frequência pelo nariz, mas não só pelo nariz, e a minha fragilidade física geral, consubstanciada em longos períodos preso à cama, prenunciava grandes dificuldades em chegar aos 15. Aos 15, a adopção de companhias desaconselhadas multiplicada pela aquisição de preferências sexuais inadmissíveis somou-se à debilidade crónica das vísceras para dar o resultado óbvio de que nunca conseguiria chegar aos 20.
E por aí adiante, até hoje, em que, lívido e dilacerado, continuo a esforçar-me sem esforço por contrariar as previsões alheias que me chegam através de frestas e inconfidências. Na boca dos outros, a minha vida é como sempre foi, um acumular de quinquénios durante os quais o meu desaparecimento é aguardado com angústia, mas também secretamente desejado com remorso por quem, não o podendo desejar, não tem outro remédio senão fazê-lo.
Habituei-me a viver com tudo isto, mas é a tudo isto que atribuo a minha impaciência, a minha dificuldade em lidar com os não-ditos. |