Indre Østerbro
É bom ter o privilégio de ver os meus últimos dias em Copenhaga apimentados por uma chuva miudinha e perpétua que aniquilou por completo o simulacro de dia que ainda íamos tendo o direito de ver pelas janelas do Centro de Exposições por volta da hora de almoço. Mal aguento tanta excitação. A vantagem da chuva miudinha é ter diminuído consideravelmente o número de bicicletas em circulação e ainda bem, porque as bicicletas fazem-me lembrar o discreto derrame subquadricipital que não há maneira de se dissipar. Ontem, a despeito da morrinha, saí à noite com os dois únicos portugueses que estão na Feira para além de mim. São insuportavelmente chatos, mas o futuro é grande e desconhecido, ou pelo menos desconhecido, e há que manter boas relações em nome de qualquer coisa estratégica que agora não recordo mas que tenho numas fotocópias que deixei em cima da secretária em Coimbra. Fomos a um bar, como direi, designer chic (não me peçam para esclarecer...), em que paguei pelas 5 Stolichnayas aproximadamente a mesma quantia que em Portugal me custaria substituir a dentição toda por implantes de porcelana. A diferença é que me reembolsam o dinheiro que eu gastar em Stolichnayas em Copenhaga, mas não o dinheiro que eu gastar em implantes dentários em Portugal. E a verdade é que não arranjei outra maneira de suportar aqueles dois palhaços engravatados nesta cidade que, à noite, parece um filme do George A. Romero mas em tórrido. Não me larga esta impressão, que me garantem infundada, de que os dinamarqueses guardam um potencial de violência que conseguiram até hoje esconder do resto do mundo. Também me disseram que é difícil uma pessoa arranjar uma boa arma de fogo para se defender e que portanto o melhor é deixar-me de paranóias ou então roubar uma faca do restaurante do Centro de Exposições e andar com ela dentro do sobretudo para o que der e vier. Mas eu isso já tinha feito.
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