A barriga é tua
Embora eu não seja propriamente um fã da estética (chamemos-lhe assim) do argumento «aqui mando eu» por razões que talvez se subentendam do que se segue, o meu problema neste momento é mais prático que ideológico: é evidente que a barriga é das senhoras, de cada uma das senhoras, e não serei eu, por todas as razões que consigo imaginar, a tentar mandar nelas. Aliás, o único motivo pelo qual irei votar no próximo dia 11 de Fevereiro é, precisamente, o de dizer ao Estado Português que, enquanto cidadão eleitor, considero que deve ser cada uma das mulheres a mandar na sua barriga ou, pelo menos, a ter a oportunidade de, num dado momento, decidir o que fazer com ela, ou seja, com a sua própria vida, em caso de gravidez indesejada. O meu problema principal aqui é: a quem se dirige este género de campanha de «a barriga é minha»?

Se não estou enganado, e não caindo na ingenuidade de ignorar que está muito mais em causa do que aquilo que vai ser explicitamente plebiscitado, o referendo destina-se a aprovar (ou não) a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas por vontade da mulher, isto num contexto em que a IVG já está despenalizada nas situações em que a vontade da mulher não seja chamada ao caso. Logo, parece-me lógico e até um pouco «lapalissiano» que a campanha do «Sim» (à despenalização) deve ter como objectivo convencer a votar «Sim» as pessoas que (ainda) não estão convencidas a votar «Sim».

Estas pessoas que não foram convencidas a votar «Sim» estão, na sua esmagadora maioria, perdidas para a causa – vão votar «Não», dê lá por onde der e pelas razões pouco variadas que toda a gente infelizmente conhece. Mas depois há aquelas que acham que o assunto não é com elas (e creio que neste caso teremos principalmente homens) e que, portanto, estão a pensar em não votar. E há aquelas que estão indecisas.

Quanto aos homens que não vão votar porque acham que o assunto não é nada com eles, creio que o efeito contraproducente de uma campanha do tipo «a barriga é minha» é auto-explicativo.

Quanto aos indecisos convencíveis, trata-se, numa boa parte, de pessoas a quem a ideia de obrigar as mulheres a sujeitarem-se a abortamentos de vão de escada repugna ainda mais profundamente que a ideia de as mulheres poderem interromper a gravidez sem mais justificações, interrupção que consideram como algo muito próximo de um homicídio, daí a sua indecisão. Para estas pessoas, que são também, não nos iludamos, uma parte muito considerável das pessoas que estão firmes do lado do «Sim», a questão da IVG nunca é colocada como sendo uma de direitos das mulheres. Para mim é uma questão de direitos das mulheres (embora não da forma incondicional que «a barriga é minha» parece sugerir), para a Cris é uma questão de direitos das mulheres, para quem faz t-shirts com «Aqui mando eu» é uma questão de direitos das mulheres, mas não é assim para toda a gente e, em particular, não é assim para a esmagadora maioria das pessoas a quem a campanha deveria dirigir-se. Longe de sugerir que a questão do direito da mulher à escolha não deve constituir a base de uma argumentação pelo «Sim» (tal seria contraditório com a «minha» própria campanha), parece-me que seria mais eficaz e sensato não transmitir essa argumentação de uma forma que, pelo mau gosto de apresentar o direito a interromper a gravidez como uma celebração de algo mais vasto (ainda que legítimo), é insultuosa e repelente para muitos votantes potenciais no «Sim», para não falar de que também o é para muitos votantes no «Não».

Isto custa-me bastante porque não duvido das excelentes intenções de quem faz este género de campanha – no caso particular da Cris, conheço-a pessoalmente e respeito-a pelo que tem feito em termos académicos e associativos na tentativa de tirar este país da Idade Média –, mas também não duvido que foi por causa do excesso de confiança e das campanhas voltadas para dentro que o referendo de 98 teve o resultado que teve. A grande fraqueza dos movimentos pelo «Sim» não é tanto a sua heterogeneidade, que é muito maior que a do «Não», mas a incapacidade de a compreenderem e de a aproveitarem de forma produtiva. Isso e aquilo que alguém disse do pasmo da esquerda mundial perante a segunda vitória de Bush: as elites urbanas de esquerda não percebem que estão a falar sozinhas, que ninguém fora delas as está a ouvir. Digo eu que podiam era ter aproveitado para aprender alguma coisa com os erros do passado, que já vão sendo muitos.
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