Ao meu colega do desenvolvimento saíram-lhe Miami e Roma, a mim saíram-me Copenhaga e, agora, Moscovo. É verdade que Moscovo ainda consegue ser mais indecentemente fria que Copenhaga, mas tem duas vantagens, digamos, interessantes: um, só tenho de cá ficar 4 dias; dois, é uma cidade onde há sítios onde se pode passear na noite permanente de Dezembro: as estações de Metro. Como tudo o que pode correr mal, corre mal, não tardaram a informar-me que era «desnecessário» utilizá-las e que devo limitar-me ao táxi, cujas despesas serão reembolsadas com a rapidez habitual. Perante este conselho, lancei imediatamente uma tirada wildeana sobre como as estações de Metro adquiriam um fascínio ainda maior pelo facto de me serem inúteis, mas logo tiveram a bondade de iluminar o meu espírito leviano com a explicação de que a utilização do termo «desnecessário» tinha, neste caso, bastante mais que ver com criminologia que com estética. Ainda pensei em dissertar tarantinescamente sobre a riqueza da relação inexplorada entre essas duas fascinantes disciplinas em boa hora engendradas pelo pensamento ocidental, mas lembrei-me a tempo de que estava a falar com um Relações Públicas e não com uma pessoa a sério. A verdade é que é uma pena. Acima do solo, Moscovo é parecida com a minha arca frigorífica, mas maior, mais suja e sem os sacos de plástico com os bocados daqueles dois carteiros que desapareceram misteriosamente o mês passado juntamente com os vales da segurança social de uma quantidade ainda indeterminada de velhotes dramaticamente afectados pelo problema cada vez mais coiso da exclusão social. Mas abaixo do solo, na monumentalidade sumptuosa da Komsomolskaya et al., Moscovo escancara-se numa sensualidade frenética e clandestina que a torna irresistível ao ponto de quase conseguir fazer-me esquecer os Lorenins que perdi num bar do aeroporto da Portela quando fazia umas experiências com vermute e sem os quais não sei como vou conseguir durar as 37 horas que faltam para estar novamente em Portugal. Espero é que as brutas das hospedeiras da volta tenham mais delicadeza a lidar com ataques de pânico que as da vinda. |