Imagina: levantas-te estremunhado, cambaleias até à casa de banho, olhas ao espelho e o que te chama a atenção não são as marcas da almofada na cara intumescida pelos excessos do sono, os vincos enfatizados pela luz demasiado crua emitida pelas lâmpadas economizadoras de energia que puseste no armariozinho pindérico que está por cima do lavatório. O que te chama mais a atenção, o que te desperta, é a borbulha. Rebentaste-a ontem, como já a tinhas rebentado na noite anterior, e lá está ela outra vez, grande, branca, tensa, com a sua orla vermelha de coisa que não está ali bem. Imagina que ainda perdes algum tempo a pensar se será mais correcto considerá-la sempre a mesma borbulha ou uma borbulha nova que todas as manhãs vem ocupar o lugar deixado vago pela que rebentaste na noite anterior. Imagina que estas considerações te tolhem os movimentos e as decisões durante não sabes quanto tempo. Imaginas? Agora imagina que eu era para a vida deles como a borbulha seria para a tua manhã. Por isso, como imaginas, não posso censurá-los pelos métodos que utilizaram.
Christoph Schmidberger, Lonely Cowboy, 2004 |