Momentos Attenborough
Para minha grande alegria, a fauna do gymnasium que frequento por motivos de saúde não está a corresponder aos meus preconceitos. Por exemplo, a espécie Wannabe Schwarzenegger é, até mais ver, inexistente. Em compensação, há um ou dois indivíduos a cujo histrionismo bastante exacerbado corresponde uma forma física indigna de atenção, para dizer o menos. Provisoriamente, irei chamar a estes espécimes simplesmente Anormais, mas é provável que, com mais algum tempo de observação, acabe por encontrar uma designação capaz de transmitir em toda a sua compleixdade o drama afectivo e emocional que envolve estas pessoas.

(Já a seguir, não perca as senhoras magríssimas que conseguem sair de uma hora de malhação com o mesmo ar seráfico com que entraram, excepto que muito ligeiramente avermelhadas).

Some guys have all the fun

(Embora inspirado na série S. Sebastião Revisitado, passada em Elsinore, o caminho, suspeito, é outro — ou não fosse S. Sebastião, mais que uma personagem histórica, um bocado de nós.)


Gregório Lopes, Martírio de S. Sebastião, óleo sobre madeira, 1536-38

A servilidade da paixão (a propósito já não sei de quê)
«Neste mundo [Roma], os comportamentos não eram classificados de acordo com o sexo, o amor pelas mulheres e pelos rapazes, mas segundo a actividade ou a passividade: ser activo é ser um macho, seja qual for o sexo do parceiro dito passivo. Ter prazer virilmente ou dar prazer servilmente — eis tudo. A mulher é passiva por definição, a menos que seja um monstro, e não é tida nem achada no assunto; os problemas são encarados do ponto de vista masculino. As crianças não contam mais do que as mulheres, sob condição de que o adulto não se ponha ao seu serviço para lhes dar prazer, limitando-se ele a tirar prazer disso. Estas crianças, em Roma, são escravos que não contam e, na Grécia, são efebos ainda não cidadãos, embora possam continuar a ser passivos sem desonra.

Em contrapartida, abatia-se um desprezo colossal sobre o adulto macho e livre que era homófilo passivo ou, como se dizia impudicus (é esse o sentido mal conhecido desta palavra) ou dia-tithemenos.(...) Expulsava-se do exército os homófilos passivos, mas viu-se o imperador Cláudio, que nessa ocasião mandava cortar cabeças em série, poupar a vida a um impudico que tinha 'prazeres de mulher': um ser como esse iria conspurcar a lâmina do gládio do carrasco. O indivíduo passivo não era mole devido ao seu desvio sexual, pelo contrário: a sua passividade não era mais que uma das consequências da sua falta de virilidade e tal falta permanecia como um vício capital, mesmo na ausência de qualquer homofilia.

Isto porque esta sociedade não passava o tempo a perguntar se as pessoas eram homossexuais ou não; todavia, ela dedicava uma atenção desmedida a ínfimos pormenores de toilette, de pronúncia, de gestos que, em tais campos, denunciassem uma falta de virilidade, quaisquer que fossem os seus gostos sexuais. O Estado romano proibiu, por diversas vezes, os espectáculos de ópera (a que se chamava então pantomima) por serem amolecedores e pouco viris, ao contrário dos combates de gladiadores.

(...)

Seria errado ver a Antiguidade como o paraíso da não repressão e imaginar que ela não tinha princípios; simplesmente, os seus princípios parecem-nos perturbantes, o que nos deveria fazer suspeitar de que as nossas mais fortes convicções não têm mais valor. Havia ligações ilegítimas mas moralmente aceites, como no caso do adultério, entre nós, na boa sociedade, ou no caso da união livre, mais recentemente ainda. (...) Outras relações, numerosas, eram moralmente tão suspeitas quanto ilegítimas. Isto porque a maior parte da homofilia era considerada como censurável, embora não de acordo com a nossa moral. Havia, enfim, relações ilegítimas, imorais e, em acréscimo, aviltantes. Eram mais do que um acto condenável que escapara ao seu autor: o horror do acto remontava ao seu próprio autor e provava que, por ter feito tal coisa, ele tinha de ser monstruoso. Passava-se então da condenação moral à rejeição a que chamaríamos racista. Era o que se passava, já se disse, com a passividade nos homens livres, com prazeres aviltantes para as mulheres (chamemos as coisas pelos seus nomes: com o cunnilingus) e, finalmente, com a homofilia feminina, sobretudo em relação à amante activa — uma mulher que se toma por homem, isso é o mundo às avessas. Horror idêntico ao das mulheres que 'cavalgam' os homens, como diz Séneca.

Tudo isto redundava numa visão da homofilia que não era menos mítica do que a nossa, embora diferentemente. Ela reduzia todas as homofilias a um caso considerado típico: a relação activa do adulto com um adolescente que não tem nela qualquer prazer; tendia-se a acreditar que era esse o caso geral, porque esta relação activa e sem languidez tranquilizava, pois não se lhe conhecia, dizia-se, a agitação e a servilidade da paixão.»

Paul Veyne, «A Homossexualidade em Roma»
in Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lx, 1998 [2ª ed.]
Tradução de Ana Paula Faria

Licenciaturas à Bolonhesa
O Processo de Bolonha é, acima de tudo, uma questão de digestão.
Memória musical convocada por Ennis Del Mar


Sitting here wishing on a cement floor
Just wishing that I had just something you wore

I put it on when I go lonely
Will you take off your dress and send it to me?

I miss your kissin' and I miss your head
And a letter in your writing doesn't mean you're not dead
Run outside in the desert heat
Make your dress all wet and send it to me

I miss your soup and I miss your bread
And a letter in your writing doesn't mean you're not dead
So spill your breakfast and drip your wine
Just wear that dress when you're dying

Sitting here wishing on a cement floor
Just wishing that I had just something you wore

Bloody your hands on a cactus tree
Wipe it on your dress and send it to me

Sitting here wishing on a cement floor
Just wishing that I had just something you wore


Pixies, «Cactus»
Microcausas 02
Do ponto de vista de quem vive um tempo tão requintado como o actual, chega a ser difícil imaginar que alguma vez tenha sido possível as pessoas morrerem de microcausas naturais.


Brokeback Mountain, de Ang Lee
Na imagem, Jack Twist insiste em dar um sentido à vida.
Estranhos hábitos?
Parece que anda por aí uma espécie de carta em cadeia que insta os bloggers a revelarem publicamente 5 dos seus estranhos hábitos. Parece que agora esse desafio chegou aqui, pela mão (ou coisa que o valha) do Azia.

Eu lamento muito desapontar as hordas de admiradores que, da leitura destes meus breves textos, retiram que eu sou um tipo fenomenal, fora de série, muito à frente. A realidade é que não faço nada de especial, não tenho taras ou tiques de que valha a pena falar e muito menos «estranhos hábitos», públicos ou privados. Sou uma pessoa simples, que vai para o trabalho todos os dias e ao cinema sempre que pode, que sai com os seus amigos de vez em quando, que lê um bocadinho antes de adormecer, que volta e meia exuma uns cadáveres de um qualquer cemitério rural abandonado para vender restos mortais a uns vizinhos que fazem rituais satânicos, que não perde uma boa oportunidade para dar umas voltinhas nos parques da cidade onde vive, que gosta de ficar à janela a olhar para os gatos, que faz a lida da casa ao som de música variada e que gosta muito de tirar fotografias. É verdade: sou uma verdadeira seca e não tenho problemas nenhuns com isso.

A não ser que espetar regularmente um pauzinho de incenso Nag Champa no vaso onde tenho a minha Orbea variegata moribunda e acendê-lo como forma de diminuir os impactos olfactivos da infiltração desfigurante que tenho na marquise seja considerado um «estranho hábito», não estou a ver nada interessante de que possa falar.

E agora chego à parte em devo lançar este desafio a mais 5 bloggers. Uma vez que não aceitei propriamente o desafio, não creio que seja justo estar a dar seguimento à coisa, mas como a minha falta se deve a incapacidade e não a falta de vontade, prossigo num regime que julgo original, devolvendo o desafio ao mesmo blog, mas não ao mesmo blogger. Sim, Azeite, é a tua vez. As expectativas são altas.
O privilégio
Trata-se tão somente da primeira audição absoluta de Épures du serpent vert II, de Emanuel Nunes, seguida de Tempi concertati e Il ritorno degli snovidenia, de Luciano Berio. Atrás do ensemble, para lá do fundo envidraçado do palco do Grande Auditório da Gulbenkian, o jardim iluminado abana ao sabor da borrasca que se abateu sobre Lisboa e eu penso que não poderia haver melhor cenário para aquela música — mais para a de Nunes, mas também para a de Berio.

Apesar de tudo isto, a sala está às moscas, facto que se revela uma vantagem quando, no final, Teresa Patrício Gouveia aparece com o presunto e os papos-secos. Com a sala assim, as sandes chegam para toda a gente.
Coração de níquel
Muito embora seja pouco propenso a perder tempo com lamechices, o Agrafo considera que não pode deixar de fazer aqui um menção pública a quem, ao longo dos tempos, lhe tem dedicado referências justa e necessariamente agradáveis, quer por ocasião do seu terceiro aniversário, quer por ocasião do aniversário deste blog há uns meses atrás, quer por outras ocasiões não convencionadas.

Assim, segue um aceno simpático, ainda que tingido por alguma sobranceria, para o Bruno do Avatares, a Cristina do Lilás, o Julinho Von Yester, os Gastrónomos Anónimos, os/as Dendrófilos/as Renomados/as, a Peixíssima Trindade, a Carla de Elsinore, o Conclave Rénico Permanente, a Inês do Educação, o Sonhador Ruminador, o José ao Vento, o João –x-st-nt-, o Zarolho e meio e o Nuno do Melancómico.

A notícia de algum esquecimento deverá ser enviada para a morada constante da secção 'Acerca', para que a lista acima possa ser corrigida, que o Agrafo não é movido pela intenção ofender ninguém, pelo menos desta vez. E agora que está isto tratado, persisti lá nas vossas vidinhas, ou lá como é que se chama aquilo que fazeis incansavelmente.
A Maçaneta na Mão
Que maneira a nossa
de utilizar as coisas

Fica-nos sempre a maçaneta
na mão!

      Alexandre O'Neil
Postal de São Valentim acompanhado de uma caixa de bombons fora do prazo
Quero ser a casca de banana ao cimo das tuas escadas. Quero ser o buraco no cano de esgoto do teu vizinho de cima. Quero ser o toque do teu telemóvel a meio do concerto. Quero ser o número certo a menos no teu euromilhões. Quero ser o calcário na tua máquina de lavar. Quero ser o vírus no teu disco duro. Quero ser o bolor na tua polpa de tomate. Quero ser a espinha de faneca na tua garganta. Quero ser o granizo nas tuas alfaces. Quero ser o prego ferrugento que atravessa a sola do teu sapato. Quero ser a salmonela na tua gemada. Quero ser o risco no teu novo CD. Quero ser a afta na ponta da tua língua. Quero ser a barata no teu pacote de açúcar. Quero ser o furo no teu pneu de reserva. Quero ser a mola partida no teu colchão. Quero ser a última letra na tua carta de despedimento. Quero ser a chuva do primeiro ao último dia tuas férias de praia. Quero ser o esguicho de limão que te vai aos olhos. Quero ser o ácaro que evacua na tua almofada. Quero ser o caco de vidro debaixo da tua toalha de praia. Quero ser a súbita tremura na mão do teu dentista. Quero ser o herpes nos teus genitais.
Le chat maltais


Duane Michals, «The Illuminated Man»

Embora não propriamente devido às pressões para a paternidade, também eu me atirei ao piano, com poucas unhas e menos dentes, há uns anos atrás. Falhei redondamente, por previsível falta de destreza física e, principalmente, previsível falta de disponibilidade mental para a cultivar. Quanto ao francês, ainda não perdi a esperança de o vir a resgatar ao seu actual estado de pouco mais que mísera língua de input. Felizmente, o emprego milionário que, um dia destes, certamente me irão oferecer em Paris deve chegar para resolver esse problema.

3 anos

Parabéns a Mim
Nesta data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida

Hoje é dia de festa
Cantam as vossas almas
Para o menin'Agrafo
Uma salva de palmas

(e já agora, para comemorar, há novidades na secção de fotos: Pseudopolaroid 05)
Como uma liberdade
«(...) Após o 11 de Setembro de 2001, a generalidade das discussões sobre este tema estão viciadas entre o radicalismo bélico e o militantismo relativista. Este documento é por isso um contributo para explorar uma alternativa a essa dicotomia, subscrito por cidadãos e cidadãs com percursos distintos e filiações políticas muito diversas, à esquerda e à direita, com ou sem religião, que têm leituras por vezes opostas quanto ao terrorismo e à sua prevenção. Em comum têm porém a recusa na cedência de um conjunto de princípios que, no seu entender, poderão traduzir parte do património civilizacional ocidental. A começar pela liberdade de expressão, que pode e deve ser um valor universal.(...)»

Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano

O texto integral pode e deve ser lido aqui, onde também pode e deve ser subscrito.
Privação metafísica
No exacto momento em que o presidente do conselho de administração da Portugal Telecom começa o seu comunicado em directo nos telejornais, a propósito da OPA, tocam à campainha. São uma senhora e um senhor, muito simpáticos, que se apresentam como sendo da TV Cabo, uma empresa do grupo Portugal Telecom conhecida pela qualidade dos serviços que diz prestar. Que agora posso ter 40 canais por apenas 15 euros por mês. Que também posso ter internet. Que lá por não estar interessado não quer dizer que não fique com a brochura.

Despeço-me cordialmente, fecho a porta e volto para dentro de casa, para dentro da televisão que continuará a funcionar graças a uma antena deprimente. Em nome das árvores abatidas para a fazer, abro a brochura ainda ao som do presidente do conselho de administração da Portugal Telecom e a primeira coisa que vejo é que os 40 canais afinal custam 21,76 euros por mês, e não 15. Esta descoberta, neste ambiente, provoca-me uma sensação inédita de comunhão com o sagrado ou coisa que o valha. Vivo momentos de êxtase que julgava só serem possíveis com o recurso a designer drugs. Minutos depois, o comunicado do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sr. Professor Doutor Diogo Freitas do Amaral, destrói tudo e eu volto ao estado miserável de sempre. É para isto que nasci e não há nada a fazer.
Gaydar 05
— Não percebo, meu comandante, não percebo...
— Já verificaram tudo, grumete?
— Já, meu comandante.
— Está tudo a funcionar?
— Tudo, meu comandante, perfeitamente.
— E continua na mesma?
— Sim, meu comandante, continua. Não há luzinha que não acenda nem alarme que não toque, mas depois...
— Nada...
— Nada, meu comandante.
— E andamos nisto há que tempos.
— Há que tempos, meu comandante.
— Raios partam.
— Raios partam, meu comandante.
As dúvidas angustiantes do Inspector Rousseau
O Inspector Rousseau não percebe o que passa pela cabeça das pessoas que dedicam a sua vida à tentativa de negar direitos a outras pessoas que, por alguma razão geralmente irrelevante, são diferentes delas.

O Inspector Rousseau não percebe como é possível que haja tão pouco respeito pelo espaço público, por aquilo que é de todos.

O Inspector Rousseau não percebe como foi possível a Humanidade ter chegado a um ponto em que os sentimentos contam tão pouco que se tornaram a pior justificação para se fazer (ou não fazer) a maior parte das coisas.

O Inspector Rousseau não percebe a fraqueza monstruosa que leva algumas pessoas a desistir de outros por orgulho.

O Inspector Rousseau não percebe por que razão não o deixam embarcar nos voos comerciais com a sua carabina semi-automática Beretta Cx4 Storm 9mm novinha em folha.
Fashion victims
Ou muito me engano ou o caso dos cartoons maometanos dos últimos dias fez com que muito boa gente se tenha visto na situação de, ao abrir o roupeiro, reparar que afinal não tem lata para sair à rua com nada daquilo vestido. Desconfio que há mesmo quem ainda se mantenha, por essa razão, fechado. Não me espantaria que houvesse quem só volte a sair quando se lhe acabarem as latas de atum e, principalmente, o esparguete.
Maomé e o anjo Gabriel,
Miniatura Persa do Séc. XIV
Gajo 02
É perfeitamente possível ser normal.
É possível ser perfeitamente normal.
Ser possível é perfeitamente normal.

Agora mete isto na cabeça e comporta-te como um homenzinho.
Noites no Shopping
O jantar bem regado, os três gins a seguir, a companhia estimulante, as horas sanguíneas percorridas em êxtase e as cores com que o ar se pôs deixaram-me um bocado puta, mas depois acabou por correr tudo dentro dos limites da decência impostos pela presença de câmaras de vigilância instaladas e operadas no parque de estacionamento subterrâneo do shopping em conformidade com o disposto na Lei 1/2005, de 10 de Janeiro, que regula a utilização de câmaras de vídeo pelas forças e serviços de segurança em locais públicos de utilização comum, e na Lei n.º 67/98, de 26 de Outubro, também chamada da protecção de dados pessoais, que transpõe para a ordem jurídica portuguesa a directiva 95/46/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 24 de Outubro de 1995, relativa à protecção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento dos dados pessoais e à livre circulação desses dados.
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