debruça-se



debruça-se interior e calmamente
para o corpo do rio       e também pensa
tão só a ideia de ser flor e não
estrela ou emoção
sob o pequeno esquema natural
que a envolve e a consente
                  Mário Cesariny
























Summertime 03
Há uns tempos, diria que o que mais detesto em ti é esse arzinho mole e o olhar desdenhoso. Ou talvez o andar, o teu andar que, não sei porquê, sempre me irritou. A forma de falar, também, e aquele tique que te leva o lábio inferior a afastar-se demasiado da gengiva para a seguir se arrepanhar junto dos dentes. Mas isso era há uns tempos. Agora, diria que o pior de tudo é o tom de voz com que respondes às minhas perguntas, sempre com aquela tremura distante e visceral, sempre como se estivesses perante uma acusação, o que nem sempre é verdade. Até parece que te estou a ver, de pescoço esticado como um galináceo estúpido e petulante a responder agrestemente às minhas inquirições, à minha caridade.


Jean-Antoine Watteau, Gilles (Pierrot), óleo sobre tela, 1718

Mas aquilo que eu não consigo mesmo perdoar-te é a ostentação dessa ferida que eu te fiz e que insistes em não ser capaz de cicatrizar. Inútil, sempre foste completamente inútil.
Força de intervenção
Águeda é o exemplo perfeito de uma cidade salva in extremis da calamidade pela presença de uma quantidade anormal de magnólias de sortes variadas. Sem elas, sabe deus o que poderia acontecer a toda aquela gente que por lá anda.
O mundo na boca
A pasta com as fotografias: apagou-a várias vezes, mas em nenhuma delas conseguiu adormecer sem antes ir restaurá-la à reciclagem que, estrategicamente, não havia esvaziado. A presença daquela pasta com as fotografias incomodava-o, mas a ideia de a destruir era-lhe tão insuportável como mantê-la. A única solução, pensava, seria a tragédia de um vírus informático ou de uma avaria — apesar de tudo, sempre resistira a incluí-la nos backups.

Uma vez por outra passava todo um dia solitário incapaz de fazer outra coisa que não ver as fotografias em slideshow. Via cada uma delas dezenas de vezes, cada uma delas a matá-lo deliciosamente uma e outra vez. Depois, ao fim do dia, quando lhe perguntavam «Querido o que fizeste hoje», respondia «Deixei-me adormecer» sem que nunca tivesse sentido que estava a mentir.
Tempos de crise
A decisão de só dar gorjeta quando o serviço for próximo de impecável transportou-me para uma realidade em que esse tipo de gratificação pura e simplesmente não existe. Isto deve querer dizer alguma coisa. Ou melhor, isto quer seguramente dizer várias coisas, umas mais óbvias que outras, mas nenhuma delas é particularmente interessante.
Momentos 140 BPM
O sol do entardecer aproveitou uma nesga nas nuvens e entrou inesperadamente pelo gymnasium dentro, ofuscando-nos. A rapariga que estava na «elíptica» ao lado da minha chamou o Personal Trainer e pediu-lhe, divertida, para baixar os estores porque assim estava «a fazer fotossíntese». Ele sorriu e assentiu. Eu, embora sem dar qualquer sinal de ter ouvido a breve troca de palavras entre eles, fiquei aliviado por saber que partilho o local onde vou suar desalmadamente com pessoas cultas, inteligentes e bem humoradas. Assim, até dá gosto.

Coimbra em baixa resolução #1 [estado físico] *


(A ilegibilidade do final dos números de telefone é da minha inteira responsabilidade.)
* Ideia roubadíssima à centenária "Lisboa em baixa resolução".
O cinismo do Inspector Rousseau
O Inspector Rousseau é uma pessoa inteligente, esclarecida, cosmopolita, que leu muito, que já correu mundo. Por isso, é natural que leve a mal quando lhe chamam céptico. Para ele, um céptico é uma pessoa estúpida, tacanha e mal informada que não acredita, por exemplo, que o ser humano já tenha chegado à Lua — no que o Inspector Rousseau não acredita é que a Lua exista. Acerca desse tal ser humano que, dizem, já lá chegou, prefere não dizer nada para não ferir susceptibilidades.
«Especulações em torno da palavra homem»
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?

         Carlos Drummond de Andrade
como se não fosse já cedo demais
Please go
A minha primeira tentativa de ver o novo videoclip de Morrissey de forma totalmente legal deu nisto:



Confesso que nunca me tinham colocado as coisas em termos tão aliciantes, mas imagino que a possibilidade de me pagarem as viagens e o alojamento não seja real. Também não é claro para mim, neste momento, o que são exactamente "os seus territórios", problema que se resolveria perguntando, mas não sei do que tenho mais receio: que seja uma pergunta completamente idiota ou que não seja uma pergunta completamente idiota.
Gestalt
Quem me conhece principalmente através do blog tem de mim uma ideia radicalmente diferente de quem me conhece principalmente «fora» do blog. Isto desconfirma em absoluto a tese segundo a qual este blog é «a minha cara». E, contrariando algumas expectativas legítimas, isto destrói completamente qualquer tese segundo a qual quem me conhece principalmente «fora» do blog tem alguma espécie de capacidade de observação. (Só espero que me perdoem este inesperado desabafo (chamemos-lhe assim (demasiado sincero))).
O par perfeito
Estremeço ao afirmar que o meu sobreiro sobreviveu. Estremeço porque há várias ignorâncias que me consomem: não percebo nada de sobreiros e, daquele em particular, vejo o que os breves segundos de passagem na estrada que ele tão bem adorna me permitem ver. Estremeço porque o ar já anuncia outro Verão e, embora o terreno esteja agora limpo dos molhos de acácias, pinheiros e eucaliptos que há uns meses lhe passaram o fogo, nunca se sabe o que poderá suceder. Morar na berma da estrada é uma profissão arriscada para qualquer um e ainda mais para uma árvore centenária.

Certo é que, depois das chuvas, o tronco continua negro, mas as partes mais altas dos ramos principais voltaram a apresentar a boa cor de cortiça acumulada ao longo de décadas que tinham antes do incêndio que em Agosto passado devastou uma parte considerável do distrito de Coimbra. A copa lá está, aparentemente intacta (renovada?), com excepção dos raminhos mais baixos, que ficaram carbonizados e estão agora, parece-me, irremediavelmente perdidos. Mas só quem olhar com atenção é que nota.

A minha frequência de passagem naquela estrada é agora menor. Já não vejo o meu sobreiro todos os dias, por vezes nem todas as semanas. Mas creio que ele me perdoa o distanciamento e compreende, mais que ninguém, as minhas razões para sair, tal como eu compreendo as dele para ali permanecer. Agora sabemos que a única diferença substancial entre nós dois é eu ter pernas e ele raízes. E é essa complementaridade que faz com que sejamos, de certa forma, o par perfeito.
Enferméride
Uma das questões que atravessa todo o pensamento ocidental dos dois últimos séculos é a do momento do abandono da acção. O dia em que deixa de se fazer é o dia em que se faz pela última vez ou é o dia em que pela primeira vez não se faz? Uma vez que a questão permanece quieta e calada à espera que lhe arranjem uma resposta decente, feito para o qual me falta a competência e a vontade, resta-me esclarecer que, pelo primeiro critério, fez ontem um ano; pelo segundo, faz hoje.
Operação Pública
Contrariamente a alguns rumores que foram postos a circular por grupos ligados a interesses obscuros blá blá blá, o Agrafo não pretende comprar a Portugal Telecom. O Agrafo tem esta doença de gostar de ser diferente custe o que custar — e por vezes custa muito. O Agrafo sempre se sentiu bem em minoria. O Agrafo quer é que o deixem em paz. O Agrafo não quer saber dessa merda para nada.
Foi você que pediu mais uma dose?
É com desmesurado e apopléptico prazer que AGRAFO PONTO NET anuncia a inauguração de mais um álbum de fotos. Trata-se, desta vez, da melhor e mais heterogénea colecção de postais do Nosso Alentejo que alguma vez passou à frente dos vossos olhos incrédulos e sedentos de novidades. Está patente, como de costume, na secção de fotos deste sítio, que não é vosso mas é como se fosse.
E no entanto
1. Acho que já é tempo de nós, os eleitores derrotados da última eleição, despirmos as vestes da soberba e esperarmos o melhor. Mau grado todos os defeitos que lhe conhecemos e cujas consequências sentimos na pele diariamente, o nosso novo Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, é um prodigioso milagre da tecnologia. Devíamos estar orgulhosos.

2. A jornalista que fazia a cobertura da tomada de posse em directo para a TSF não só falou por cima do Hymno Nacional como se lhe referiu como sendo «barulho» (de que ela tinha de se afastar para continuar a falar). Não me inspira particularmente aquela marchazinha nem me apanha de surpresa o desprezo perante tudo o que não tenha sido concebido propositadamente para efeitos de cobertura jornalística, mas há aquele mínimo de hipocrisia que convém manter a bem da nação, minha senhora.

3. Também na TSF, o Dr. Dias Loureiro, antigo ministro e amigo pessoal do nosso novo Presidente da República, afirmou que este gosta imenso de rir, particularmente das anedotas que ele, Dias Loureiro, lhe conta. Nunca tendo ouvido o Dr. Dias Loureiro contar anedotas e não tendo sido fornecida uma hierarquia dos prazeres do novo Presidente em que me fosse possível colocar o seu gosto pelo riso, creio poder afirmar sem exageros que fiquei mais ou menos na mesma. Coisa linda, a ignorância.
Antes que perguntem
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É preciso ter azar
Entre ser uma pessoa sem princípios, uma pessoa sem meios e uma pessoa sem fins, tinha de me calhar ser logo duas delas. Pior, só mesmo a consciência de que a única solução exequível a curto prazo é passar a ser as três.
O meu lado

Vês ali aquele, atrás dos sacos de areia, com a metralhadora? Sim, sou eu. Olha, aceno-te! Cada um dá o que pode por aquilo em que acredita e este é o meu contributo por uma estética do despojamento. De ti, só espero que me aceites o abandono. Aos outros, podes dizer que cá me vou safando.
Lições de sobrevida
«Escrevia sinopses para as contracapas dos DVD, razão pela qual não tinha muitos amigos, mas era uma pessoa adorável», explicou ela tocada ao de leve pela loucura, com um sorriso trémulo nos lábios. Durante todo o tempo em que estivemos lá em casa, percorreu repetidamente o corredor de uma ponta a outra enquanto passava a mão direita perto das paredes, sem nunca as tocar, como se nelas ainda estivessem penduradas as molduras cuja presença passada apenas os buracos dos pregos denunciavam. Houve vezes em que os olhos foram ameaçados pelas lágrimas, mas nenhuma em que tenha chorado, e a fala pausada, estudada, nunca tremeu.

Ele foi mais uma das vítimas da Guerra dos Germes de 2007-2009, um entre biliões de anónimos condensados no monumento que esta semana foi inaugurado na recém-reconstruída Avenida da Liberdade. «Era tudo para os outros», insistiu ela. «Parece que ainda o estou a ver ali, na cozinha, com o Sonasol antibacteriano numa mão e o BioKill na outra a gritar insano, a dizer para eu fugir para tão longe quanto o mundo é largo. Já estava tudo tomado, eu sabia que era a última vez que o veria. E foi». Velha e solitária, relembrou novamente que não sobrou uma fotografia para além das muitas que guarda na memória. Dos poemas, nem isso, apenas alguns versos soltos que a morte dela há-de enterrar.
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