O mundo segundo o Inspector Rousseau
Para o Inspector Rousseau, o mundo divide-se em dois tipos de pessoas: as que têm um foot fetish e as que têm um foot fetish mas não a coragem para o admitir. No entanto, ninguém que o conheça duvidará que o próprio Inspector Rousseau se inclui neste último tipo.
Bolonha é antipraxe


Bolonha é antipraxe.
Veneza é anticoagulante.
Ferrara é anticaspa.
Taranto é anticalcário.
Catânia é antiestática.
Bári é anticlerical.
Salerno é antioxidante.
Bréscia é anti-Dantas.
San Remo é anticiclone.
Rimini é anti-inflamatória.
Trieste é antivírus.
Bérgamo é anticomunista primária.
Asti é antidoping.
Piacenza é antipirética.
Arezzo é antistress.
Portofino é antimatéria.
Caché
Apareceu-me cá em casa há uns dias, lavada em lágrimas, a cache do teu velho browser. Serei directo: contou-me tudo. E, tal como me contou a mim, imagino que há-de ter contado a toda a gente. Disse-me que estava desfeita, que não conseguia aceitar o facto de praticamente só utilizares o novo browser, que a tinhas esquecido e que não queria desvanecer-se sem que toda a gente ficasse a saber o que te tinha aturado desde a última limpeza. Sabes como a cache de um browser consegue ser uma cabra ressabiada quando não lhe prestamos a devida atenção.

Neste momento já deves estar a perceber os motivos dos silêncios e dos olhares de esguelha que a comunidade agora te lança. Eu próprio, meu querido, não sei bem o que te diga e escrevo-te estas linhas porque não creio que, cara a cara, te consiga falar novamente. Dirás que a cache do teu browser não é da minha conta. De acordo. Digo eu que há coisas que prefiro não saber acerca dos outros, e menos ainda acerca dos que amo: por alguma razão existem os segredos, a mentira e o disfarce. Mas compreende que não me é possível agora esquecer o que sei acerca de ti.

E o que sei acerca de ti — o que toda a cidade sabe acerca de ti! — é que és um monstro de lascívia e devassidão, uma pessoa perturbada, talvez perigosa. Não deverás estranhar se as autoridades, umas quaisquer que se julguem competentes num caso destes, te importunarem dentro em breve. Não creio estar a exagerar se disser que assustas um pouco as pessoas. É provável que tenhas de ser obliterado de alguma forma, ainda que com a suavidade própria das opções que a legalidade e seus parentes próximos permitem.

Bem sei como tudo isto é injusto e como era este o momento em que precisarias de amigos que não te julgassem. Eu compreendo-te, pois tenho a perfeita consciência de que se a cache do meu browser desse com a língua nos dentes também eu estaria em maus lençóis. Mas a cache do meu browser não fala e não é previsível que fale tão cedo porque a mantenho limpinha e contente na sua exclusividade. Há cuidados que valem uma vida, meu caro, e aparências que valem duas. Por isso, meu amigo, perdoa-me se não te falar quando passares por mim na rua. O meu coração está contigo, o resto do corpo é que não.
A facção derrotada



«A truth ceases to be true when more than one person believes in it»

                  Oscar Wilde
Statu quo ante bellum
1959 – Nasce, em Santa Maria da Escarafuncheira, filho de um professor primário e dji uma quauquérrrr que meses mais tarde viria a fugir da vila (então ainda aldeia) debaixo das pedras e dos insultos lançados pela boa gente da terra, que se fartara dos seus comportamentos pouco adequados a uma senhora. A própria junta de freguesia providenciou para que, em poucos dias, fosse mandada vir de fora uma mulher bastante parecida que pudesse ocupar o lugar deixado pela mãe biológica, como forma de minimizar os danos que a expulsão desta pudessem causar na criança, então ainda demasiado pequena para dar pela troca, dizia-se. O plano, por razões que serão tratadas em local próprio, não surtiu o efeito esperado.
Desejada só pela beleza


Em Cacela, diz-se, tudo acontece no cemitério, que é onde vive quase toda a gente. E é no cemitério que está o relógio que, diz-se, parou no exacto momento da morte de Sophia.
Hair done
Não sei de que equipas vêm os jogadores da selecção nacional, não sei por que razões ou em detrimento de quem foram convocados para participar no Mundial e, nalguns casos, nem sequer sei como se chamam. Eu sempre fui assim — nunca percebi nada de penteados.
Planisfério
Ontem, entrei no ginásio de manhã cedo, como é meu costume, fui aos balneários equipar-me rapidamente e dirigi-me à elíptica, onde tinha à espera meia hora de sofrimento desumano. Mas antes que tivesse acabado de parametrizar a sessão de tortura, reparei que a senhora que ocupava a elíptica ao lado da minha, uma cinquentona roliça e de estatura mediana, estava com uma cor de pele estranha — vermelho. E quando digo vermelho, não é aquele vermelho que resulta do esbaforimento próprio das perversões que se praticam num ginásio, é o vermelho forte do Canadá no meu planisfério.

Hesitante, desci da minha elíptica, que protestou intimando-me a manter um mínimo de 30 rotações por minuto, abeirei-me da senhora e perguntei: «Desculpe, mas está-se a sentir bem?» Ela, por um segundo surpresa e logo a seguir defensiva, empertigada mesmo, respondeu, sem olhar para mim, com um «Sim» quase demasiado rápido para ser captado por ouvidos humanos. «Mas está com uma cor um pouco estranha», insisti, «Tem a certeza de que não é melhor parar um pouco?»

A senhora suavizou a expressão facial, como que aliviada pela certeza de que era uma preocupação genuína o que me movia, parou de fazer exercício, olhou-me nos olhos, inclinou-se na minha direcção e sussurrou: «Ah, isto é mesmo assim, é da hora. Mais para o fim da tarde fico azul. E quando digo azul, não é aquele azul que resulta da dispneia própria do amor ao pôr-do-sol, é o azul do Egipto no meu planisfério.»
Ag 5,5
Felizes os inconscientes de serem erros de casting,
pois deles será a terra habitável
(ainda que provisoriamente).

Aruba

Maldivas

primeiro fomos almoçar
primeiro fomos almoçar a casa de uns primos com quem já não estávamos há muito tempo sabe como é a vida das pessoas muda e o contacto vai-se perdendo quando éramos miúdos andávamos sempre juntos e depois é que lá passámos para rezar à virgem para que o nosso piqueno que ainda me está cá dentro saia de boa saúde e não dê em paneleiro como o filho da minha cunhada até me custa a dizer sobrinho coitada aquilo é uma chaga que ela há-de carregar para o resto da vida até calhou bem não ser dia treze que se estava muito mais à larga e digam lá o que disserem a nossa senhora não quer cá saber das datas para nada o que importa é que a gente lá vá e também aproveitámos para comprar alguns membros e órgãos internos de cera para a minha sogra que é muito achacada deus nosso senhor me perdoe grande vaca da velha que me há-de fazer a vida negra até bater as botas o que vai acabar por a levar é a peçonha que lhe corre nas veias e depois lá voltámos para casa pela nacional que a pressa está pela hora da morte e como não temos rádio no carro desde que o meu manel lhe vomitou para cima ele diz que foi o quim do grupo da sueca mas eu é que limpei e já lhe conheço o cheiro parece que está podre por dentro só quando chegámos é que vimos o que tinha acontecido
Metal no metal
Pousada nos pedregulhos que fazem o pontão, a gaivota da asa descaída espera pela morte ao longo de toda a minha estada na praia a que o vento de Maio dá um ar de desígnio nacional prestes a ser cumprido. A proximidade de humanos faz a gaivota da asa descaída manifestar algum nervosismo, mas nunca tanto que a leve a fugir. A expressão nos olhos da gaivota da asa descaída já desdiz a imutabilidade erradamente atribuída ao olhar cirúrgico dos pássaros. Sem dramatismos, não deixo de pensar que terei sorte se a mim me suceder o mesmo. Ao lado, muito ao lado, o ranger do guindaste do barco que draga o canal parece-se com um cantar de mulheres em tempo de colheitas.
(umas férias de sonho)
                        Budget         flight.





    Budget hotel.



                                                          Budget
                                                                     feelings.
Percussão
A minha passagem ao lado de uma brilhante carreira musical deveu-se a uma sucessão de más escolhas. A marimba é que era.
O mundo na boca 02
Passou a melhor tarde desde o Inverno a desarrumar a casa. Tinha de estar tudo limpo e decente, mas subliminarmente impreparado para o receber. Foi um trabalho meticuloso, doce, quase esquizofrénico. Depois, à noite, tudo se resumiu a não dizer nada e a aguentar as lágrimas com sorrisos recebidos por SMS. Tal como tinha planeado, o silêncio acabou por mandá-lo embora e ela pôde arrumar a casa como se estivesse a chegar de um dia inteiro na praia.
Bolonha não


Bolonha não.
Nápoles também não.
Génova muito menos.
Roma ui.
Verona nem pensar.
Pisa havia de ser bonito.
Messina que nojo.
Livorno tás-te a passar.
Florença nem morto.
Palermo nem com molho de tomate.
Tivoli fosga-se.
Perugia ciao.
Siena por cima do meu cadáver.
Turim o caralho.
Modena vai-te encher de moscas.
Parma está-se mesmo a ver.
Maio é festa, Maio é luta
Saudades de me rebolar nas gramíneas. Hoje em dia já é uma sorte poder sentar-me a ver os patos no Mondego enquanto os cães vadios, todos soaristas ressabiados, marcam a estatátua de Manuel Alegre como território deles. Mais além, uma quadrilha de trabalhadores usa o seu feriado para competir, ao som dos megafones roufenhos da CGTP, numa corrida tornada possível pelo bondoso patrocínio de empresas privadas. Chego a acreditar que já não me sentia tão mal desde a última vez que me vieram buscar a meio da noite para realizarem experiências médicas. Mas depois penso melhor e concluo que não. Aquilo das gramíneas era capaz de ser bem pior.

1º de Maio


David Hockney, Boy about to take a shower, acrílico sobre tela, 1964
início
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