|
Low carb
|
A blogosfera alimenta-se de si própria e não tem o hábito de mastigar com a boca fechada. |
|
Infradiano
|
Têm estado uns lindos dias, uma brisa amena, o mar calmo e tépido, a praia grotesca de cheia. Como de costume, não há mais nada para fazer e por isso vamo-nos deixando ficar por lá o dia todo, de manhã cedo até à noite. Quando a despesa em protector solar se tornar insuportável, passaremos a ficar no janelão da sala do T1. Este ano tivemos sorte com o apartamento, especialmente se considerarmos o preço: é espaçoso, tem uma vista desafogada para as traseiras do Minipreço, fica a 1 hora a pé da praia. E cabemos lá os 7 sem problemas de maior, se exceptuarmos o de só haver uma casa de banho, mas como o café que fica no rés-do-chão está sempre aberto, ainda não houve situações que não se resolvessem. O pior é que ninguém tem lata para lá ir usar a casa de banho sem consumir nada. Quando a despesa em pastilhas elásticas se tornar insuportável passaremos a mijar para fora do janelão da sala do apartamento sempre que houver apertos. A alimentação é que não tem sido grande coisa, como deves imaginar. Ir para a praia todo o dia implica fazer aquela alimentação à base da sande que não faz bem a ninguém. A outra solução seria irmos comer ao apoio de praia, que é o que agora chamam ao bar onde cobram preços escandinavos por qualquer merda que lá se consuma. Isto, para pessoas que andam a sandes de manteiga porque já nem para o queijo, o fiambre, o tomate, o ovo têm dinheiro, é completamente impraticável. Estivemos a fazer as contas e parece-nos que nem a comer sandes de quase nada o dinheiro chegará até ao fim das férias. Mas se a despesa com o pão se tornar insuportável, atiramos a velha pelo janelão da sala do apartamento e dizemos que foi ela que se desequilibrou. Sempre é menos uma boca a comer e a Segurança Social até agradece. Depois, quando for hora de voltarmos para casa é que gostaríamos que nos viesses buscar, pois julgo que não vamos ter dinheiro para o Expresso, mesmo contando com a prévia defenestração da velha e a possibilidade de enfiarmos o puto no trólei. |
|
Cronologia
|
A minha recordação mais antiga de Rui Rio, actual presidente da Câmara do Porto, é a de um deputado sorridente que se gabava de desrespeitar a lei — no caso, os limites de velocidade na autoestrada que se intrepunha entre a sua terra e a Assembleia da República. Isto só para dizer que as restantes recordações que tenho de Rui Rio, actual presidente da Câmara do Porto, são todas mais recentes que essa. |
|
O Círculo do Líbano
|
Existe em Londres, no Highgate West Cemetery (cuja entrada é fronteira à do Highgate East Cemetery, onde repousa o que resta do corpo outrora anafado e irredimivelmente burguês de Marx), uma zona chamada Circle of Lebanon – o Círculo do Líbano. Trata-se de uma espécie de trincheira circular em cujas paredes escavadas foram construídos luxuosos jazigos. No centro desse círculo mora o antiquíssimo cedro do Líbano (Cedrus libani) que lhe dá o nome. |
|
Summertime 06
|
A verdade é que vida se foi tornando cada vez mais difícil no Parque Natural. Não permitiam a construção de mais casas, não licenciavam mais superfícies comerciais, não havia novas estradas e as velhas eram mantidas no limiar da decência rodoviária. Assim, foram conseguindo o objectivo nunca assumido de expulsar os antinaturais para fora do Parque Natural. Julgo que não fui o último a sair, que ainda haveria mais algumas pessoas por lá quando me fartei da passar os dias a enterrar os dedos na areia da praia e a brincar com as carochas. Via os vestígios de outros aqui e além, sinais de vidas que não podiam ser as de turistas: uma pequena coluna de fumo que se elevava de um vale todas as manhãs, algumas pegadas que se renovavam junto à ribeira, árvores cujos frutos desapareciam. Tudo demasiado entediante.
Keith Haring, sem título, 1982 |
|
Das árvores que caem na floresta ou uma ameaça
|
Vir aqui dizer que, apesar das aparências e salvo ocorrência de algum trágico imprevisto, este blog(ue) entrará desenfreadamente por Agosto, mesmo que lá não esteja ninguém para ver. |
|
A excelência do costume
|
Começou a trabalhar aos 13. Na escola raramente passava do 12. Saiu de casa dos pais aos 18. Não tira férias há 10. Levanta-se todos os dias às 6. Ainda não chegou aos 30 mas já tem um carro que dá 300. Só o ano passado ganhou para cima de 20 [mil]. É capaz de ir com os amigos para a borga e gastar 500.
Odeia quem não tenha subido na vida a pulso e vai suicidar-se para o mês que vem por causa das dívidas e sabe-se lá que mais, deixando mulher chorosa, filhos pequenos, cão de boa marca, telemóvel 3G, jipe, etc. A tragédia do costume. |
|
Raccord
|
A homogeneidade do céu cinzento é interrompida por um rasgão na neblina que deixa passar um pedaço do céu adocicado do início da manhã. Num plano intermédio, um bando de pássaros silenciados pelos vidros duplos esvoaça com motivações e propósitos que são, para mim, claramente insultuosos. Decido fechar novamente os olhos, mas volto a abri-los duas horas mais tarde. |
|
A prova que faltava
|
Da consumação do meu casamento de conveniência com a Realidade Quotidiana resultaram crias estéreis. |
|
(...)
|
É que pode apetecer-me que tenha sido doutra forma ou apetecer-me que não tenha sido e acabou-se ou que eu queira não ter estado aqui ou que me meta nojo ter isto com um rasto de baba como se eu fosse um caracol. |
|
Auto-retrato com poucas palavras
|
QUANTO MAIS CONHEÇO OS HOMENS MAIS ESTIMO OS VEGETAIS |
|
Presente do indicativo
|

TU NÃO PODES MAIS ELE/A NÃO PODE MAIS NÓS NÃO PODEMOS MAIS VÓS NÃO PODEIS MAIS ELES/AS NÃO PODEM MAIS
Pretérito imperfeito do indicativo EU NÃO PODIA MAIS TU NÃO PODIAS MAIS ELE/A NÃO PODIA MAIS NÓS NÃO PODÍAMOS MAIS VÓS NÃO PODÍEIS MAIS ELES/AS NÃO PODIAM MAIS
Pretérito perfeito do indicativo EU NÃO PUDE MAIS TU NÃO PUDESTE MAIS ELE/A NÃO PÔDE MAIS NÓS NÃO PUDEMOS MAIS VÓS NÃO PUDESTES MAIS ELES/AS NÃO PUDERAM MAIS
Pretérito mais que perfeito do indicativo EU NÃO PUDERA MAIS TU NÃO PUDERAS MAIS ELE/A NÃO PUDERA MAIS NÓS NÃO PUDÉRAMOS MAIS VÓS NÃO PUDÉREIS MAIS ELES/AS NÃO PUDERAM MAIS
Futuro imperfeito do indicativo EU NÃO PODEREI MAIS TU NÃO PODERÁS MAIS ELE/A NÃO PODERÁ MAIS NÓS NÃO PODEREMOS MAIS VÓS NÃO PODEREIS MAIS ELES NÃO PODERÃO MAIS
Presente do conjuntivo (que) EU NÃO POSSA MAIS (que) TU NÃO POSSAS MAIS (que) ELE/A NÃO POSSA MAIS (que) NÓS NÃO POSSAMOS MAIS (que) VÓS NÃO POSSAIS MAIS (que) ELES/AS NÃO POSSAM MAIS
Pretérito imperfeito do conjuntivo (que) EU NÃO PUDESSE MAIS (que) TU NÃO PUDESSES MAIS (que) ELE/A NÃO PUDESSE MAIS (que) NÓS NÃO PUDÉSSEMOS MAIS (que) VÓS NÃO PUDÉSSEIS MAIS (que) ELES/AS NÃO PUDESSEM MAIS
Futuro imperfeito do conjuntivo (que) EU NÃO PUDER MAIS (que) TU NÃO PUDERES MAIS (que) ELE/A NÃO PUDER MAIS (que) NÓS NÃO PUDERMOS MAIS (que) VÓS NÃO PUDERDES MAIS (que) ELES/AS NÃO PUDEREM MAIS
Condicional presente EU NÃO PODERIA MAIS TU NÃO PODERIAS MAIS ELE/A NÃO PODERIA MAIS NÓS NÃO PODERÍAMOS MAIS VÓS NÃO PODERÍEIS MAIS ELES/AS NÃO PODERIAM MAIS
Infinitivo presente EU PODER TU PODERES ELE/A PODER NÓS PODERMOS VÓS PODERDES ELES/AS PODEREM
Gerúndio NÃO PODENDO MAIS
(Por razões que julgamos óbvias, o imperativo e o particípio passado não se sentiriam aqui bem, pelo que as suas presenças foram dispensadas. Obrigado.) |
|
Os bons velhos tempos foram-se num relâmpago *
|
Já uma vez contei como a descobri: em Janeiro de 1975, no fundo da liteira que o Damião Athayde Fonseca, grande amigo da mamã nos dias saudosos de Lourenço Marques, me tinha emprestado enquanto a minha estava no artisan para lhe polirem os anjinhos barrocos em madeira de sândalo, no fundo da liteira, dizia, estava esquecida uma edição numerada e assinada pela autora do seu primeiro livro. Esse dia acabou com bombardeamentos e, regressado a casa, fui obrigado a aumentar o som do violoncello (Dvořák, Op. 104) para conseguir fruir Os Ares Arejados, tal era a algazarra que os aborígenes faziam enquanto se matavam e não sei quê. Um aborrecimento terrível. A partir daí fiquei agorafóbico.
* Pastiche. |
|
Late dawn blogs / Who cares anyway
|
Para onde há-de ir billy the kid? Billy não sabe para onde há-de ir Persegue a morte na pessoa dos outros quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos Viver é para ele matar Procura um refúgio mas nunca sabe onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo? É ele o seu maior inimigo Matam-lhe a gente de quem ele gosta e ele gosta de coisas simples como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo É ver aquela mão abrir Sobre si próprio concentrado de tudo o mais alheado billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta não são afinal o mesmo caminho Billy conhece agora o destino Sempre inquieto sempre a correr amou a vida como se amar fosse morrer Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir? Não o sabia bastava um gesto Mas billy que estava cansado e gasto leva um tiro e então já sabe para onde é que sempre quisera ir Billy the kid nunca soubera o que era fugir e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo, «Vício de Matar» |
|
Recondução
|
Quando se trata de tirar a carta de recondução, a parte mais difícil é a do código. |
|
Md 9.3
|
Foi uma mulher sofredora, que criou os seus filhos por amor e com amor, segundo as tradições e à revelia das traições e da violência que a submergia. Resumida aos trabalhos silenciados, só outros poderiam tê-la dito habitante de um espaço que, à falta de alguém mais que o ocupasse, se tornou o dela. Já velha e desapossada de tudo pelas voltas da vida, com uns filhos mortos como o pai e outros matadores como o pai, não tem muito a desejar para além de um suave desvanecer-se que as doenças pacientemente lhe vão negando. É então que os deuses, comovidos com a sua entrega, devoção e martírio em nome dos bons nomes, por uma vez se manifestam para a recompensar e transformam-na num azulejo de casa de banho. Mas uma coisa com bom gosto. |
|
Rodrigo
|
O Rodrigo adquiriu o péssimo hábito de encher a pistola de água com álcool. O resultado foi que, durante o Carnaval, ninguém mais brincou com ele. Era baixinho, magricelas e muito moreno, o Rodrigo, e bastante malcriado, mas toda a gente acabava por se dar com ele de uma forma ou de outra. Ou só de uma forma, porque não havia outra.
Pensando bem, Rodrigo era um nome que não lhe assentava nada bem. Rodrigo é um nome que pede um porte maior, uma figura telúrica. Um fedelho insuportável não devia chamar-se Rodrigo.
Depois a família mudou-se para Salvaterra de Magos. Eu não conheço Salvaterra de Magos, mas a avaliar pelo que me diz o Instituto Nacional de Estatística, deve ser um sítio onde se pode perfeitamente não gostar de Beckett e ainda assim ter uma vida dita normal. Aliás, é capaz de ser mais difícil ter uma vida dita normal em Salvaterra de Magos se se gostar de Beckett do que se não se gostar de Beckett.
Isto é importante porque não acredito que o Rodrigo se tenha tornado um adulto apreciador de Beckett. É claro que posso estar redondamente enganado, quer acerca do Rodrigo, quer acerca de Salvaterra de Magos, mas duvido.
Não, Rogério. O Rogério é que foi viver para Salvaterra de Magos, não foi o Rodrigo. E o Rogério era alto, até demasiado alto para a idade, demasiado alto e esguio para um Rogério. O Rogério tinha um irmão mais velho que se drogava, até andou em tratamento e essas coisas. De toda a forma, também não creio que o Rogério goste de Beckett. |
|