Uma tarde Maria Cristina obrigou-me a comer osgas e a repetir com a boca cheia de osgas as pessoas sensíveis gostam de comer osgas mas não gostam de ver matar osgas por isso têm de comer as osgas vivas se querem fazer na vida aquilo de que gostam
Adília Lopes
* Quase consigo odiar-me por não ter tido este poema à mão quando mais precisei dele. Teria feito toda a diferença.
Aderir à cientologia. Ter a minha mente (ou alma ou espírito ou o quê) colonizado (ou infectado ou manipulado ou assim) por um demónio extraterrestre ancestral é uma explicação que me serve perfeitamente. E ainda por cima dá-me uma certa vontade de rir. Justificar-me à gargalhada, que mais posso querer? Num país onde é quase impossível obter uma licença de porte de arma, ainda que para fins de suicídio, nada. Se um gajo quer dar um tiro nos cornos, nos seus próprios cornos!, tem de ir tirar uma licença de caça e gastar um balúrdio numa caçadeira, que é um equipamento concebido para dizimar a fauna inocente e nada mais. As probabilidades de o plano correr demasiado mal e acabar em simples desfiguramento são colossais. Por isso, os cornos, à falta de poderem ser estoirados, estão a partir de hoje ocupados (infiltrados, carcomidos, torturados, sequestrados, invadidos, inoculados, apossados, conquistados, anexados) por uma super potência alienígena. Se isto não chegar, resta sempre a salada metafísica para suburbanos a que, por preguiça, nunca me dediquei: as partes adocicadas do Novo Testamento, os bocados mais tenros do budismo, os signos do costume e um paganismo que viabilize a possibilidade de falar com mortos sem necessidade de recorrer a grandes produções. Uns mortos quaisquer, não interessa, desde que estejam indiscutivelmente mortos e não sejam os meus mortos, que não perder a vontade de rir é essencial. Até pode ser que desenvolva poderes mediúnicos e que, com eles, descubra novos amiguinhos e temas de conversa, feitos sabidamente mais difíceis a partir de uma certa idade.
Como já deveis saber, um grupo terrorista auto-denominado União Astronómica Internacional reivindicou hoje a despromoção de Plutão à novel e despropositada categoria de «planeta anão», deixando o nosso sistema solar de novo com apenas 8 planetas, uma situação igual à que se viveu até 1930. Este acto, que representa um retrocesso inaceitável no longo caminho para a construção de um sistema solar digno e de que todos nos possamos orgulhar, é abominável aos olhos do Agrafo, que o não pode reconhecer como válido. Se foram descobertos objectos celestes maiores que Plutão, a solução só pode passar por acrescentar estes à lista dos planetas e jamais por retirar um que lá estava confortavelmente instalado há 76 anos.
Assim, vem por este meio o Agrafo convidar a população culta e letrada que o frequenta a não aceitar este atentado contra os mais básicos direitos humanos e a passar à acção por todos os meios disponíveis, meios que poderão e deverão incluir a violência extrema, tipo partir coisas e não sei quê. Só será inevitável que venhamos a ser a primeira geração em séculos a viver pior que a geração antecedente se ficarmos parados e paradas a olhar enquanto nos retiram aquilo que a humanidade levou milénios a conquistar. Marchai, então, e depois vinde para contar como foi.
O Inspector Rousseau não estava capaz de se lembrar do sítio onde tinha estacionado o seu vintage convertible cinzento metalizado e por isso cambaleava pelas ruas a caminho de casa. O seu único sonho naquele fim de tarde quente e doce, masturbar-se debaixo de um duche bem quente, parecia distante e inexequível: depois de ter transformado o estômago em depósito de vermute e benzodiazepinas, numa tentativa inútil de esquecer os cadáveres que lhe salpicavam o quotidiano, era improvável que conseguisse fazer mais que cair no chão e deixar-se ficar. E foi isso mesmo que aconteceu, ainda em plena rua, mas não devido ao seu estado tóxico. Se tivesse sobrevivido mais que uma fracção de segundo, o Inspector Rousseau poderia confirmar a tese que diz que não ouvimos o som do tiro que nos atinge. Mas ele agora não confirma nada, é apenas um corpo caído na calçada, com parte do crânio arrancado por uma bala de grande calibre, rodeado de transeuntes que chegam puxados pela curiosidade.
Memória audiovisual (re)convocada por uma gerbera cor-de-rosa
You'll be given love You'll be taken care of You'll be given love You have to trust it Maybe not from the sources You have poured yours Maybe not from the directions You are staring at Twist your head around It's all around you All is full of love All around you All is full of love You just ain't receiving All is full of love Your phone is off the hook All is full of love Your doors are all shut All is full of love All is full of love, all is full of love All is full of love, all is full of love
Björk, «All is full of love»
Nota para quem não tem a banda suficientemente larga e ainda não percebeu como é que isto funciona: pausa — deixa o vídeo carregar completamente — play, baby, play. Muá.
Estava na cozinha a libertar as flutes dos últimos vestígios de Veuve Clicquot da longa noite antifascista anterior quando lhe ocorreu — uma das coisas boas do verão é levantarmo-nos de manhã bem cedo e irmos até à janela respirar a brisa fresca que ainda traz consigo bocados cuidadosamente seleccionados da humidade nocturna. Isto fê-lo pôr-se a pensar longamente por que raio é que, simplesmente, não. Por que raio é que, simplesmente, não. Depois regressou às flutes e prometeu a si próprio mudar para Moët & Chandon.
Uma vez que está toda a gente suspensa da minha opinião há vários meses, serei directo: fui, finalmente, à renovada Avenida dos Aliados, no Porto, e não desgostei. É certo que ficou um bocado árida e, talvez, um pouco sizenta demais, mas como eu gosto de paisagens lunares e não sou um incondicional dos canteiros com flores, não me horrorizou a intervenção ali realizada. Tem agora um ar mais desafogado e, quando as árvores tiverem crescido, creio que será um espaço agradável e mais utilizável pela população nos momentos em que houver necessidade de formar as multidões festivas ou furibundas tão típicas da cidade.
O que me desconcertou foi o tanque de água choca na placa central da parte superior da Avenida, pouco abaixo da Câmara, que parece ter sido transplantado de um arranjo mal sucedido numa rotunda de subúrbio. Ainda tenho esperança de que aquilo seja apenas uma forma elegante de depositar águas extraídas do solo por obras que vão decorrendo subterraneamente e que, quando eu lá voltar, aquele espaço esteja já ocupado por um rectângulo de relva ou, simplesmente, por granito.
Há a convicção e depois (ou antes) há a fé, que é mais ou menos a mesma coisa, mas ao arrepio das evidências. E, depois ainda (ou se calhar antes de todas ou entre as outras duas), há a esperança, que é uma espécie de tofu ou de seitan ou de hambúrguer de cogumelos com colorau e mostarda ou de moirinha em que não gastamos mais que o fundo dos bolsos porque não somos suficientemente vegetarianos. «Nós» é como quem diz, eu, pelo menos, vocês não sei nem me interessa. Pois parece que eu, o tal eu de ainda agora, embora me perca pelos enchidos sanguinários de Arganil, é mais esta última. É uma coisa assim mais tipo coiso, uma espécie de dar-me para apetecer viver dos duodécimos da teoria das probabilidades.
Roer um osso — humano, se possível, é um sonho português de sobrevida, após anos e anos de despirem com os olhos as mulheres que no Rossio por diante deles passam e das mãos movendo-se contínuas pelo bolso das calças mais viris da cristandade.
Roer um osso — humano, se possível, de mãe, de pai, de irmã, de tio ou prima, de amantes ou de esposas, filhos, netos, ou de inimigos ou de amigos mesmo, ou do vizinho em frente, ou dum retrato só visto no jornal, ou criatura desconhecida inteiramente — um osso.
Roer um osso — humano, se possível, mas pode ser de vaca ou de carneiro, ou porco ou gato ou cão ou papagaio, ou à sexta-feira bacalhau ou peixe em espinhas esburgadas que recordam o rosto doce ou monstruoso odiado na vénia às Excelências brilhantinas.
Roer um osso — humano, se possível, seja fingido mesmo, de borracha para durar mais tempo que não passa, ou de cimento pra quebrar-se os dentes no gozo de moê-lo cuspinhado (e o pensamento em furibunda mão que excita ansiosa as impotentes raivas).
Roer um osso — humano, se possível, é o sonho português de sobrevida.
FOTOGRAFIA & «DESIGN»: EDUARDO BASTO MODELO: GATO aka BESTA ASSASSINA UMA PRODUÇÃO AGRAFO PONTO NET para AGRAFO PONTO NET INADVERTIDAMENTE SUSCITADA PORUM AMIGO POP
Ourém, 4 da tarde, um calor abrasador. Achei que já podia e então entrei no café bar artesanato produtos regionais e pedi um corneto daqueles novos, manga cenoura 25% iogurte de fruta agora com mais cenoura. Na única mesa ocupada, um grupo de 3 raparigas adolescentes discutia vigorosamente os problemas sentimentais de uma delas. Parece que ele não percebe que quanto mais foge dela mais ela fica obcecada por ele. Parece que por vezes ele não atende o telefone à primeira e ela tem de telefonar uma segunda vez logo a seguir. Eu pensava que podia e ainda para mais com 25% de iogurte de fruta e agora com mais cenoura, mas a verdade é que mal comecei a ingerir o corneto a barriga começou a inchar. E logo agora que já só com a merda das low waist what a waste é que se nota que eu tenho barriga. As alterações ainda não pararam. As mãos, tenho a certeza que as mãos estão a ficar sapudas, nota-se na dificuldade que estou a sentir para escrever. Se isto continuar assim não sei onde vou parar. Se não continuar assim também não sei onde vou parar e isso é o que ainda me vai aliviando.
Rurália. Novamente Rurália, terra que me viu nascer já vai para mais de 30 anos. Regresso a Rurália como sempre no verão, agora salvo da morte lenta pela internet de banda gástrica que entretanto se estendeu pelo país. E os emigrantes no oeste, mais os imigrantes do leste, mais eu, que sou dos refugiados no sul, mais os poucos sobreviventes permanentes sem dentes que querem saber coisas que ninguém está interessado em recordar. Daqui a dias, nas festas de Nossa Senhora da Escarafuncheira, os foguetes incendiários, os bailaricos para onde vou fazer publicamente olhinhos às saloias que coram e os restos de pinhal para onde vou secretamente ter com os labregos que não sei se coram porque está muito escuro para ver. Rurália, ah, Rurália. É sempre tão bom regressar a Rurália.
Parece que é verdade: com este novo plano de treino que me fizeram no gymnasium, o meu corpo deverá regressar, em apenas 3 meses, ao estado de normalidade adiposa de que nunca deveria ter saído. É tão bom voltar a ter objectivos na vida.
É uma fatalidade: começa o Agosto e sou imediatamente infectado pelas saudades dos bons velhos tempos em que o meu maior desejo era poder vir a ser, um dia, suburbano-depressivo. Era tão bom quando tinha objectivos na vida.