Tudo o que você nunca perguntou porque não queria saber
Noutras circunstâncias, receber um convite em corrente para revelar 6 coisas sobre a minha sinistra e insondável pessoa seria cruamente declinado por soar atentatório do meu hábito de pairar sobre a realidade observável. No entanto, e a provar que há proveniências que têm muita importância, não me chega a coragem para repelir a amabilidade. Assim:
- a minha maior qualidade é rir muito; - o meu maior defeito é rir demais; - gosto da coreografia dos sobreiros e da barriga dos gatos; - nunca, nunca tive religião, nem sequer a do Pai Natal; - sofro de manifestações involuntárias de uma forma materialista de para-sebastianismo que consiste em misturar o fim do sono com saudades das sirenes matinais dos navios na barra enevoada do Tejo; - preciso de silêncio mais vezes do que preciso de música.
Mais uma vez atipicamente, não quebrarei a corrente, que segue, no âmbito de uma estratégia de diversificação, para as Sombras Errantes e para o irmaolucia (cujo autor parece ter sido, recentemente, vítima de uma estranha espécie aniversário ou assim).
só conseguir amar várias pessoas é melhor que não conseguir odiar mais que uma pessoa é pior que não conseguir amar mais que uma pessoa é pior que só conseguir odiar várias pessoas é melhor que só conseguir amar uma pessoa é melhor que não conseguir não odiar várias pessoas é pior que não conseguir não amar várias pessoas é pior que só conseguir odiar uma pessoa
Há um primeiro momento de perplexidade em que não dá conta do que lhe está a suceder, de quem é aquele estendido lá em baixo. Depois, o Inspector Rousseau percebe que se trata do seu próprio corpo morto, com o crânio desfeito numa poça de sangue que se infiltra delicadamente nas fendas do cimento do passeio. Assim, visto de cima, parece mais gordo que ao espelho, até mais gordo que nas fotografias. Mas isso não importa mais que dantes, agora que vai subindo e o cordão prateado que o liga ao seu cadáver se torna mais ténue.
Alguns transeuntes começam a aproximar-se a medo. Passado não muito tempo, os mirones já provocam um engarrafamento e uma pequena multidão aproveita para tirar fotografias com os telemóveis. Uma senhora em estado de choque continua a balbuciar inanidades junto à entrada do prédio mais próximo. Um rapaz de fato e gravata aproveita a confusão para roubar maçãs da frutaria do outro lado da rua. Algumas pessoas começam a usar o telemóvel para telefonar, talvez para chamarem a polícia, uma ambulância. O cadáver do Inspector Rousseau torna-se turvo, desvanece-se. Na terra, os sismógrafos confirmam um pequeno e imperceptível terremoto.
O ecrã de plasma à entrada da FNAC continua a passar o slideshow do dia já longínquo em que a Floricouve lá foi lambuzar as criancinhas que lhe compraram o CD. Como se o tempo tivesse parado há semanas. Como se não se tivesse sabido entretanto que a crueldade das crianças se torna a maldade dos adultos se torna o rancor dos velhos. Como se não se tivesse descoberto depois que a excitação das crianças se torna a melancolia dos adultos se torna a nostalgia dos velhos. Como se não soubéssemos já todos que afinal era tudo mentira.
— Boa tarde. — Boa tarde. Era uma salada de franguimilho, se faz favor. — Então e a base da saladinha vai ser alface massa ou um bocadinho de cada? — Um bocadinho de cada. — E a alface vai ser lisa ou frisada? — Frisada. — E a massa vai ser normal ou integral? — Normal. — Penne fusilli conchiglie ou farfalle? — Fusilli. — Al dente ou encruada? — Al dente. — E o frango vai ser desfiado ou cartilagens moídas e misturadas com maionese? — Frango desfiado. — E para temperar vai querer molho de alho molho de camarão molho de cocktail molho de abacate molho de maçã vinaigrette tex mex agridoce maionese ketchup mostarda ou só azeite e vinagre? — Ah... Podia repetir? — Molho de alho molho de camarão molho de cocktail molho de abacate molho de maçã vinaigrette tex mex agridoce maionese ketchup mostarda ou só azeite e vinagre. — Hmm. Azeite e vinagre. — E bebida vai querer água cerveja refrigerante ou um dos nossos deliciosos sumos naturais? — Quais são os sumos naturais? — Laranja. — ... — Laranja. — Bem... Uma água, então. — Natural ou fresca. — Natural. — As naturais estão ao lado das máquinas e ficam um bocado quentes. — Fresca. — Com ou sem gás? — Sem. — 33 ou 50 centilitros? — 33. — Cafezinho a seguir à refeição? — Não. — Vai desejar factura? — Por supuesto... — Vai desejar factura? — Sim. — São 5 euros e 30 cêntimos já tem o nosso cartão de desconto? — N... N... Não... Mas... — Então é assim tem aqui o cartão e em cada refeição de preço igual ou superior a 5 euros dão-lhe um autocolante destes que cola aqui num dos quadradinhos do cartão quando preencher 50 quadradinhos tem direito a um pastel de massa folhada esta promoção é válida até 30 de Setembro. — Estes quadrad... — Em cada refeição de preço igual ou superior a 5 euros dão-lhe um autocolante destes que cola aqui num dos quadradinhos do cartão quando preencher 50 quadradinhos tem direito a um pastel de massa folhada esta promoção é válida até 30 de Setembro. — 30 de Setembro deste ano? — Sim. — Mas isso... — Sim é já para a semana que vem obrigado volte sempre. — De nada...
«O horror da morte é anti-natural e mais próprio das civilizações atrasadas. Ponde uma criança inocente ao pé de um morto e ela é capaz de lhe fazer festas. Depois injectai-lhe a mioleirinha de horrores e ela fica com os horrores e larga o morto. Mas é então altura de o morto ir atrás dela e de lhe pôr os sonhos por conta. E nunca mais de lá sai, que os aposentos são bons, são mesmo os melhores do homem. Vós já pensastes quantas vezes sonhais com os mortos? Já pensastes quantas vezes acordais aflitos porque um morto passava a noite convosco? Dizeis vós que são pesadelos, coisa que vos pesa no miolo? É a vingança do morto sobre a vossa cobardia de medricas, a forma que tem mais à mão de vos chamar cagarolas. Porque é que não tendes cagaço de ver uma mosca morta ou um piolho ou mesmo um cão, que já vos mexe no entanto um pouco com o sistema nervoso, que já está contaminado de humanidade? Porque vós sabeis que um piolho ou uma minhoca são mortais e sofreis na mioleira da pancada da imortalidade. Aprendei a ser mortais. Aprendei a morte como aprendestes a estar à mesa, na retrete, desde o acto de amor ou desamor ao uso da toalha respectiva.»
A luz acesa pode ter sido por esquecimento. O que me disseste pode ter sido do cansaço. O carro estacionado à porta pode ter sido porque saíste a pé. A minha resposta pode ter sido do álcool. O ruído da televisão ligada pode ser da vizinha do lado. As lágrimas podem sempre ser esquecidas. As gotas que caem da varanda podem ser de uma rega antiga. As pessoas podem sempre sangrar. Aquele movimento brusco das cortinas pode ter sido de uma corrente de ar. Eu posso esperar para sempre. Tu não podes fugir para sempre.
Eu é fímbria. Não suporto fímbria, que ainda por cima tem o hábito de vir no plural. É uma daquelas palavras que ficam a retinir durante uns segundos e turvam o mais que se está a ler ou ouvir. Uma fímbria é o suficiente para destruir um texto, qualquer texto, independentemente da sua natureza ou tamanho. O que vale é que a maior parte dos textos em que a fímbria entra já estava à partida na fímbria do bom gosto.
Com marujo é o contrário. Marujo é uma palavra que dá graça e leveza a uma frase sem a perturbar, sem a acordar fora de horas nem mandar para a cama antes do tempo. É por vezes capaz de fazer descolar do lodo o texto mais rasteiro.
Almejar, por exemplo, é também uma boa palavra e um bom verbo. Está sempre muito melhor tempo quando se almeja do que quando se recorre à sua sinonímia.
E depois há sempre o não, o tão esquecido não, cuja grafia trai a sua imensidão. É belo e redondo e macio, mas pouca a gente consegue percebê-lo e utilizá-lo convenientemente. Temos a melhor nega da Europa e deixamo-la para aí aos caídos, a tapar buracos, a ser chamada para os trabalhos que mais ninguém consegue fazer. Que nojo (nojo também não é má).
O facto de se terem já passado 5 anos sobre os ataques ao World Trade Center fez-me nascer a consciência de que dentro de não muito tempo haverá as pessoas que estavam algures quando foi o 11 de Setembro e as pessoas que estavam nenhures quando foi o 11 de Setembro.
Isto é trágico para além da minha capacidade de explicação e é triste para além do meu desejo de explicação.
«Sleeper in Metropolis» o tanas! A gaja não percebia nada disto, a gaja via filmes a mais, a gaja era — preparem-se — jovem e idealista! O que dava era acrescentar referências a um T2+1 numa terra cheia de rotundas com arte contemporânea, misturar com Pet Shop Boys com violoncelos sintetizados com penteados sintetizados com vozes de fundo de túnel e assim fabricar a música depressiva-dançável mais que perfeita para os intermináveis eighties: «Sleeper in Suburbia». Ainda vamos a tempo, minhas riquezas, ainda vamos a tempo!
As a sleeper in metropolis You are insignificance Dreams become entangled in the system Environment moves over the sleeper: Conditioned air Conditions sedated breathing The sensation of viscose sheets on naked flesh Soft and warm But lonesome in the blackened ocean of night Confined in the helpless safety of desires and dreams We fight our insignificance The harder we fight The higher the wall Outside the cancerous city spreads Like an illness It's symptoms In cars that cruise to inevitable destinations Tailed by the silent spotlights Of society created paranoia No alternative could grow Where love cannot take root No shadows will replace The warmth of your contact Love is dead in metropolis All contact through glove or partition What a waste The City - A wasting disease
O cenário são as luzes, o movimento, o vidro e o aço, a música das inevitabilidades, as vigílias de uma das mais cosmopolitas capitais culturais e financeiras da Europa — falo-vos, como já devem ter percebido, de Coimbra. No entanto, há algo inexplicável que não funciona, que não me deixa sentir-me completamente descartável. Talvez seja apenas impressão minha. Só o nada é perfeito.
A exclusão dos clubes e selecções portuguesas de futebol das competições internacionais far-me-ia considerar a possibilidade de deus escrever a direito por linhas tortas e, portanto, a de deus, embora demasiado incompetente para nos podermos fiar nele, afinal existir.