(vivace)

Indre Østerbro
É bom ter o privilégio de ver os meus últimos dias em Copenhaga apimentados por uma chuva miudinha e perpétua que aniquilou por completo o simulacro de dia que ainda íamos tendo o direito de ver pelas janelas do Centro de Exposições por volta da hora de almoço. Mal aguento tanta excitação. A vantagem da chuva miudinha é ter diminuído consideravelmente o número de bicicletas em circulação e ainda bem, porque as bicicletas fazem-me lembrar o discreto derrame subquadricipital que não há maneira de se dissipar. Ontem, a despeito da morrinha, saí à noite com os dois únicos portugueses que estão na Feira para além de mim. São insuportavelmente chatos, mas o futuro é grande e desconhecido, ou pelo menos desconhecido, e há que manter boas relações em nome de qualquer coisa estratégica que agora não recordo mas que tenho numas fotocópias que deixei em cima da secretária em Coimbra. Fomos a um bar, como direi, designer chic (não me peçam para esclarecer...), em que paguei pelas 5 Stolichnayas aproximadamente a mesma quantia que em Portugal me custaria substituir a dentição toda por implantes de porcelana. A diferença é que me reembolsam o dinheiro que eu gastar em Stolichnayas em Copenhaga, mas não o dinheiro que eu gastar em implantes dentários em Portugal. E a verdade é que não arranjei outra maneira de suportar aqueles dois palhaços engravatados nesta cidade que, à noite, parece um filme do George A. Romero mas em tórrido. Não me larga esta impressão, que me garantem infundada, de que os dinamarqueses guardam um potencial de violência que conseguiram até hoje esconder do resto do mundo. Também me disseram que é difícil uma pessoa arranjar uma boa arma de fogo para se defender e que portanto o melhor é deixar-me de paranóias ou então roubar uma faca do restaurante do Centro de Exposições e andar com ela dentro do sobretudo para o que der e vier. Mas eu isso já tinha feito.
lembra-te





lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos



Mário Cesariny
(1923-2006)

























Vesterbro
O Centro de Exposições é a melhor coisa que Copenhaga tem para oferecer a quem tem o infortúnio de cá vir parar em Novembro. A pior coisa que Copenhaga tem para oferecer a quem tem o infortúnio de cá vir parar em Novembro é o percurso entre um hotel na Baixa e o Centro de Exposições. É certo que a acção decorre toda dentro de um táxi quentíssimo como todos os restantes interiores nesta cidade, mas os exteriores são tão profundamente desinteressantes que até já dei por mim a sentir saudades da minha vida sexual. De «manhã», Copenhaga é um postal de prediozinhos tradicionais em Lego colorido e urbanizações modernas muito arrumadinhas, tudo animado por bicicletas conduzidas por gente seráfica saída de um anúncio da Evax. De noite (propriamente dita), é um postal de iluminações de Natal sóbrias bastante desanimadas por alguns bêbedos mal amparados pela previdência e bem domesticados pela providência. Eu tentei mudar-me para o hotel que fica dentro do próprio Centro de Exposições, que até é mais barato, mas está cheio ad aeternum. Não me espanta, Copenhaga é uma cidade ameaçadora. Desconfio que o regresso aos rigores do Outono beirão vai parecer-me um delírio vernal de cor e passarinhos chilreantes que o meu coração talvez já não esteja capaz de aguentar.
København
Está um frio que não se pode em Copenhaga. É muito difícil encontrar um teclado português em Copenhaga. Há quem traga portáteis por causa da dificuldade em encontrar teclados portugueses em Copenhaga. Há quem use apóstrofos e outros artifícios para sobreviver à falta de acentos meridionais. Os Suecos dizem que o dinamarquês não é uma língua, é uma laringite. A mim parece-me mais uma esofagite de refluxo que uma laringite, mas a verdade é que nunca tive nem uma coisa nem outra e por isso a minha opinião é capaz de não contar. Mas também deixa estar que os Suecos podem falar muito. Uma pessoa não se pode distrair que fica logo de noite em Copenhaga. Não que faça muita diferença a quem tenha de passar os dias inteiros acondicionado pelo ar condicionado do luxuoso e tórrido e impronunciável e insoletrável Centro de Exposições. Cheira um pouco a legionela mas deve ser da minha hipocondria porque afinal estamos em Copenhaga e fonte segura disse-me que a legionela não cheira a legionela nem a qualquer outra coisa que as minhas ventas de suburbanita estejam aptas a captar. A comida é boa mas branda demais para o meu gosto. Diz que há quem traga coentros em caixas de plástico que são depois tomadas no aeroporto por narcóticos. Sabem-na toda, os dinamarqueses, apesar de não saberem falar.

(moderato)

Kilowatt
Ai, este partir-se-me o coração de cada vez que olho para o parque eólico instalado no sítio onde costumávamos foder, foder achadamente... Eu quero fundar a Associação de Vítimas Sentimentais do Protocolo de Quioto, mas este pavor pequerrucho-burguês do ridículo que me acompanhará até ao Estige não me deixa dar um passo que seja. Nesse sentido ou em qualquer outro.
Pinta
Rendi-me finalmente ao Moleskine. A partir de 1 de Janeiro de 2007, passarei a fazer-me acompanhar de um Weekly Planner + Notebook, que é como quem diz Fome + Vontade de Comer. Duvido que vá conseguir ganhar-lhe algum afecto, a despeito da sua óbvia utilidade e da escandalosa vantagem estética que pavoneia sem dó perante os cadernos de argolas desconchavados do DeBorla. Mas os cadernos de argolas desconchavados do DeBorla são completamente anónimos e, mais importante que tudo o resto, não têm data(s). Se me apetecer continuar a usar o caderno de argolas desconchavado do DeBorla até 2010 (a escrever com letra muito pequenina nas margens, sei lá), posso fazê-lo sem ficar com a impressão de que estou fora do prazo, coisa muito importante quando se chega a uma certa idade. E os cadernos de argolas do DeBorla são cadernos finos, práticos, anónimos, aos quais é possível arrancar páginas, quaisquer páginas, sem que fiquem cicatrizes.

(O Moleskine, com aquela pinta de prótese, julga que me rendi a ele, mas eu estou só a fingir.)
Cinética de libertação (reprise)
O problema de lhes chamar «Dry Martinium» e «Caipirax» é que assim toda a gente vai perceber imediatamente quais são os ingredientes secretos.

(andante sostenuto)

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Cinética de libertação (encore)
A verdade-verdadinha é que se eu soubesse que era assim tão fácil assaltar uma farmácia nunca teria andado estes anos todos a comprar receitas àquela cambada de drògádos.

(presto con brio)

Cinética de libertação
É impressionante a dificuldade que uma pessoa tem em fazer uma coisa tão simples como não atropelar um grupo de escuteiros que atravessa festiva mas ordeiramente uma passadeira quando está com a cabeça cheia de benzodiazepinas.
Fórum Agrafo
São cíclicas, estas notícias sobre os malefícios dos jogos de computador. Mal chega a orgia comercial dos festejos do nascimento de Jesus Cristo e aparecem logo alguns estudos (recentes) que provam que a utilização prolongada de jogos electrónicos violentos é a causa de males da sociedade que, durante o resto do ano, são geralmente atribuídos à televisão e ao Death Metal. Este ano até já há um estudo português sobre o assunto, imagine-se! Temos o défice que temos e andamos a gastar dinheiro em estudos e não sei quê — ponham os olhos no Dr. Rio do Porto, meus senhores e minhas senhoras! Quais teatros, quais músicas, quais estudos! Não há dinheiro, não há dinheiro! Enquanto houver pobrezinhos, não há dinheiro para estudos! Essa gente, esses 'ólogos' todos, deviam era ir trabalhar para as obras durante 1 ano para verem o que custa a vida!

Contrariamente ao que o parágrafo anterior vos pode ter levado a pensar, a verdade é que eu não sou um especialista neste assunto, mas apenas uma pessoa que fala pela sua longa e esquálida experiência pessoal: quase uma década e meia de Wolfenstein 3D, Doom, Quake, Nuke 3D, Carmaggedon, Quarantine, toda a sanguinolenta série GTA, isto só para falar daqueles que ainda hoje me fazem acordar a meio da noite encharcado em suores frios! E posso garantir-vos que nem nos momentos mais complicados, como quando, na semana passada, andei a despejar os bocados esquartejados da minha empregada ucraniana pelos caixotes de lixo aqui dos arredores, senti que os meus actos foram, de alguma forma, afectados pelas imensas e maravilhosas horas que passei à frente do computador, vidrado nos jogos electrónicos que estas bestas ignaras agora criticam.
Summertime 08
Olho para um lado, olho para o outro, a rua está completamente deserta. Olho em frente, fixamente para a loja abandonada e vazia, tornada ridícula pelo papel castanho onde ainda se consegue ler que está fechada para obras. O meu reflexo na montra empoeirada é pretexto para o único movimento visível num local onde nem os insectos nem os ratos conseguem continuar a encontrar motivos para viver. As ervas que crescem na vez dos lancis, a distribuição da poeira pela estrada, apenas perturbada por algumas marcas de pneus antigas, tudo confirma as fontes fidedignas que me garantiram que todo o meu passado foi desmentido com a veemência possível e que a veemência possível foi grande. Para mim, isto quer dizer que lá dentro está alguém que olha fixamente na minha direcção mas vê apenas uma rua vazia.


Evelyn de Morgan, Fósforo e Héspero, 1881
After lunch blogs
A Velha dormindo
o rato roendo
a Velha zumbindo
o rato correndo
a Velha rosnando
o rato rapando
a Velha acordando
o rato calando
a Velha em sentido
o rato escondido
a Velha marchando
o rato mirando
a Velha dizendo
o rato escutando
a Velha ordenando
o rato fazendo
a Velha correndo
o rato fugindo
a Velha caindo
o rato parando
a Velha olhando
o rato esperando
a Velha tremendo
o rato avançando
a Velha gritando
o rato comendo

Mário-Henrique Leiria, «Cegarrega para crianças»
Plug-out
Queres com isso dizer que eu já não sou o teu bolinho de noz, o teu trevozinho de quatro folhas, o teu gergelinzinho torrado, a tua raizinha de alcaçuz, o teu djeimezinho bond, o teu fusillizinho al dente, o teu solzinho de inverno, o teu queijinho de Azeitão, o teu pauzinho de incenso, a tua cantatazinha para solistas e orquestra, o teu tofuzinho de cebolada, o teu porquinho pós-estruturalista, o teu miauzinho protofascista, o teu rissolzinho de peixe, a tua boazinha constrictor, a tua courgettezinha recheada, a tua putefiazinha javarda, o teu garotinho pingado, o teu licorzinho de maracujá, o teu esfregaçozinho rectal, o teu modulozinho heurístico configurável dois ponto zero?
Ouvido em Coimbra 02
Quarentona: Que queres ser quando fores grande?
Pré-adolescente: Uma banheira de hidromassagem.
Quarentona: Eu não perguntei o que querias ter, perguntei o que querias ser.
Pré-adolescente: Sim, eu percebi.

Ouvido no elevador de um centro comercial semifalido.
Terapia vegetal
Qual o melhor sítio para ver flores num Dia de Todos os Santos com o tempo alegremente ao contrário das previsões meteorológicas? Exacto: numa visita ao Jardim Botânico de Coimbra (mata incluída) suscitada pelo Dias com Árvores e guiada pelo Professor Jorge Paiva, que é uma daquelas pessoas como não há muitas e cuja «aula» se estendeu ainda ao Museu Botânico. Eu, que sou mais velho que o esperado, rejuvenesci.

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