Começou nisto há 2 meses, sem que nada o tivesse anunciado. Encosta-se ao vidro da porta do prédio para ver se vêm carros. É uma rua comprida e de sentido único, aquela em que moramos, o que facilita bastante esta tarefa. Quando julga que consegue garantir que não haverá trânsito automóvel durante os próximos segundos, abre a porta, corre até ao outro lado da rua, abre a tampa do contentor, atira lá para dentro o saco do lixo e volta a correr desalmado para o prédio. A mola da porta de entrada é lenta, o que lhe permite entrar a alta velocidade e fechar a porta com violência atrás de si. Já a danificou por duas vezes. A última foi a semana passada, quando um carro que surgiu inesperadamente a alta velocidade o impediu de voltar imediatamente para o prédio. Ficou frenético e, quando chegou ao prédio e viu que a porta já se tinha fechado, entrou de mergulho através do vidro. Não se feriu, mas precisámos de acabar com benzodiazepinas que tínhamos cá em casa para o acalmar. Nós assistimos a tudo isto pela janela da sala, todos os dias, impotentes. Já tentámos demovê-lo de levar o lixo, mas ele insiste. Já tentámos levá-lo ao médico, mas ele recusa. Já garantimos aos vizinhos que pagaremos prontamente todos os estragos. Foram complacentes. Em tudo o resto é e sempre foi uma pessoa perfeitamente normal, com os seus amigos, as suas saídas, os seus estudos, em que é quase brilhante, com a sua fixação de vir um dia a tornar-se um jornalista de consequências. |