1998. A dada altura, a campanha do «Não» passa a garantir a sua preocupação com a ideia de, caso seja a sua a posição vencedora do referendo, serem tomadas medidas sérias ao nível da saúde sexual e reprodutiva que conduzam a uma diminuição do número de gravidezes indesejadas (e, consequentemente, do número de abortamentos). O «Não» ganhou, de facto, e esta boa e perfeitamente praticável intenção teve o futuro que conhecemos: nenhum.
2007. Várias figuras que se esqueceram de levar a cabo as tais medidas que propuseram em 1998 vêm agora, coadjuvadas por outras pessoas que entretanto entenderam por bem juntar-se-lhes em nome dos mais elevados valores, afirmar que, em caso de nova vitória do «Não», tomarão iniciativas legislativas contraditórias com esse hipotético resultado do referendo em ordem a despenalizar-não-descriminalizando (enfim...) as mulheres que abortam.
Ou seja, quem em 9 anos não cumpriu uma promessa que estava perfeitamente ao seu alcance baseia agora a sua campanha numa promessa que, caso do referendo de Domingo saia um «Não» vinculativo, é improvável que lhe seja legal e politicamente possível cumprir. Com os últimos dias de campanha dominados por esta jogada soez do «Não», o que se vai passar no Domingo é, mais que um referendo acerca da IVG, um teste à nossa credulidade. Apesar de a dizerem curta, ainda tenho alguma esperança na memória. |